A IDEIA -Textos e escolhas de António Cândido Franco – CORRESPONDÊNCIA DE LUIZ PACHECO PARA JOSÉ CARDOSO PIRES SOBRE SADE

No momento da revisão de provas do prefácio à edição portuguesa da Filosofia na Alcofa de Sade, que apareceu em livro no final de Março de 1966, na casa editora de Ribeiro de Mello, Afrodite, dando lugar de imediato a um processo judicial, Luiz Pacheco escreveu a Cardoso Pires, seu amigo de infância – frequentaram juntos a mesma turma do liceu Camões entre 1936 e 1943 – e colega de ofício, a propósito do livro Cartilha do Marialva (1960), da autoria do destinatário, que lera há pouco com manifesto agrado mas notando com surpresa a falta de dois autores, Sade e Bocage, que reputava em tais matérias essenciais. Segundo Pacheco, leitor exigentíssimo, Cardoso Pires esquecia os dois, a favor de Laclos e do Cavaleiro de Oliveira, citados com largueza na Cartilha. A carta, depositada na biblioteca nacional no espólio de José Cardoso Pires (E53/cx. 27), é a única referenciada de Luiz Pacheco para o destinatário. Foi escrita nas Caldas da Rainha, em 5 de Março de 1966 – dois dias antes, a 3 de Março, escrevera Pacheco a Natália Correia, dando-lhe conta do mesmo prefácio ao Sade português – e tem alusões ao juiz Arelo Manso e ao processo que Luiz Pacheco passou na Boa Hora em 1960. A missiva pode ser encarada como um anexo (valioso) do prefácio ao Sade luso de 1966 e tem o maior interesse para se perceber a edificação cultural do libertino de Pacheco e até como ele se choca com algumas orientações claramente maioritárias da sua geração. O que é de reter na relação de Pacheco com Sade, quer no prefácio de 66 à Filosofia na Alcova quer na carta a Cardoso Pires, é, através das tensões com Laclos e Oliveira, a antecipação das construções de leitura de Annie Le Brun (v. secção “arquivo & registo”), descolando Sade das leituras de Beauvoir e de Vailland. O parágrafo inicial da carta agradece ao destinatário o apoio dado em Agosto de 1965, por ocasião do nascimento nas Caldas da Rainha em situação crítica, sem qualquer apoio hospitalar, do seu oitavo filho, Jorge Manuel, o terceiro de Maria Irene Matias; este apoio foi de grande importância na altura, a ponto de Luiz Pacheco nunca o esquecer. O post scriptum final desta carta, em cinco ou seis linhas, humoriza apreciação circunstancial de Mário Sacramento sobre Urbano Tavares Rodrigues e não tem qualquer significado para o que aqui nos importa.

Deixamos de seguida um trecho representativo desta importante missiva: Meu Caro José Augusto: / Não te agradeci ainda por escrito, mas não estava esquecido, aquela tua generosa resposta de há meses a um apelo meu, numa aflição por doença da última mensagem da cegonha cá na Tribo, o Jorginho, que segue aí em fotografia para o teu álbum, bastante liró ao colo da mamã num alaminute dos Restauradores. Passei nesse dia momentos atrozes (…). Obrigado, pois, e felicidades para os teus é o que desejo. / Escrevo-te, também, por isto: fiz há dias um prefácio sobre o Divino Marquês, mais correctamente: um texto pro domo mea, visando os antilibertinos lusitanos. Claro que tinha de tomar em conta a tua Cartilha do Marialva. Ora quando li esse teu texto vai para um ano, estranhei a ausência do Sade (que teria de ser intencional) dos exemplos que ali citas: porquê?, pensei na altura e repito ainda. Nenhuma razão ali apontas para a escamoteação. Alguma há-de haver. / Sei que estás a preparar nova edição, mas gostaria de saber se nesta algo parece referente a Sade. / O teu texto (…) tem esplêndidas observações e ainda ontem o estive a meditar cuidadosamente passeando com a Tribo pelo Parque. Queria incluir as notas que colhi no m/ prefácio ao Sade, mas, confesso, continuo engalinhado com o teu desdém por este… Propositado, não me restam dúvidas, e as razões da tua atitude é que eu gostava de conhecer. / Rodeando estes assuntos, andei naturalmente a contas com o Cavaleiro de Oliveira e o Bocage, em quase tudo são contemporâneos e libertinos de bom sangue. Ao segundo, também não dás o lugar que merece, e com as honras de ter sido um libertino do interior, isto é, um libertino que, português, se deixou ficar por cá. Resultado: não foi queimado em efígie, mas morreu aos quarenta (que é m/ conta, ai Jasus!) enquanto os outros atingiam provectas idades… A libertinagem neste País não compensa; ou, glosando o Meritíssimo Dr. Arelo Manso, que me julgou há anos na Boa-Hora por actos de libertinagem (comedida): a libertinage neste paíxe inda num é permitida (ele fala achim). / Poderás, querendo, e com certa urgência, dizer-me qual a tua posição actual perante o Sade, libertino? Escusarei de estar a pôr restrições a uma obra que tanto me tem servido como é a Cartilha. / Um forte abraço do amigo velho/ Luiz Pacheco (…)

[A.C.F.]

 

 

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