Celebraram-se há pouco os 30 anos da morte de um grande poeta, cantor e compositor português, intimamente ligado à cidade que é também a terra de quem assina esta carta. José Afonso (1929-1987), como é sabido, foi colocado como professor em Setúbal em 1967, após regressar a Portugal de Moçambique, onde se tinha estabelecido alguns anos antes. Foi nesses anos finais da década de 60 que o autor se converteu definitivamente num símbolo de resistência democrática no país. Em 1971, em especial, foi lançado Cantigas do Maio, que incluía Grândola, Vila Morena, a canção destinada a tornar-se mundialmente emblema da Revolução de 1974 e que continua nos dias de hoje a ser hino de democracia, liberdade e igualdade.
A expressiva trajetória deste artista engajado não cabe certamente nas poucas linhas de que dispomos, tendo transitado por vários países e chegando a passar por Itália e a inspirar vários artistas locais. Assim, por exemplo, mesmo em tempos mais recentes o músico Daniele Sepe gravou uma versão da Ronda das Mafarricas, enquanto Antonela Ruggiero deu uma interpretação da Balada do Sino muito sugestiva.
Da passagem por cá de José Afonso fica o disco República, que o cantor e compositor gravou em Roma com Francisco Fanhais nos dias 30 de setembro e 1 de outubro de 1975. O álbum foi o resultado de uma iniciativa do diário italiano Manifesto e das organizações Lotta Continua e Vanguardia Operaria e visava expressar solidariedade para com a reforma agrária, além de apoiar a luta dos trabalhadores do diário República que se opunham à reestruturação da redação a favor de uma hegemonia do Partido Socialista no jornal.
O disco, que não chegou a ser distribuído em Portugal, inclui um tema inédito, inspirado numa manifestação em Roma em que o próprio José Afonso participou, sob o título Foi no Sábado Passado; nele, sem rodeios, surgem os nomes dos ditadores Franco e Pinochet associados ao do líder socialista Mário Soares, culpado de sufocar o espírito da revolução portuguesa.
O “caso República”, que teve grande repercussão na imprensa internacional, concluiu-se com a suspensão da sua publicação regular em janeiro de 1976; permanece porém a força da música e da luta deste disco “italiano” que agora se pode ouvir graças ao Centro de Documentação 25 de Abril (http://www1.ci.uc.pt/cd25a/wikka.php?wakka=Coopera).