CARTA DO RIO – 142 por Rachel Gutiérrez

A tarefa de escrever todas as semanas não é fácil. Não por falta de assunto, ao contrário, pelo embarras du choix, como já disse mais de uma vez aqui. Contudo, quando sobressaem notícias sobre a situação das mulheres, não sei resistir. E repito para mim mesma, frases da saudosa Carmen da Silva:

Escolhi o feminismo como forma específica de luta porque é o terreno onde piso com mais segurança, maior conhecimento de causa… e

Descobri minha condição plural e me comprometi com ela até o fundo das entranhas.

Carmen da Silva explicava: branca, alfabetizada, originária da burguesia média, a opressão sexista é a que mais intensa e diretamente senti na própria carne.

Tive a honra de publicar meu primeiro livro prefaciado por ela e  fui escolhida para substituí-la na revista CLAUDIA, onde passei a assinar, durante três anos, o artigo que ela escrevia sob a rubrica A Arte de ser Mulher e que comigo, graças ao seu trabalho de pioneira, pôde ousar intitular-se Feminismo. Carmen morreu em 1985.

Agora, em pleno século XXI, em 2017, Zuenir Ventura,  escritor e cronista do Jornal O Globo, registrou as manifestações de protesto contra o machismo em 16 estados. Além disso, referiu-se à terrível realidade da condição feminina no país, vítima de várias formas de violência e até de crimes, alguns hediondos: estupro, exploração sexual, feminicídio, agressões por parceiros e parentes, perseguição. E revelou as escandalosas estatísticas:

cinco espancamentos a cada dois minutos, um feminicídio a cada 90 minutos, 179 relatos de agressão por dia, 13 homicídios diariamente. Só no ano passado, uma média de 500 mulheres foi agredida, física ou verbalmente, por hora no Brasil.

Vale esclarecer que feminicídio significa “perseguição e morte intencional de pessoas do sexo feminino e é classificado como crime hediondo no Brasil”.  Mas assim como a lei Maria da Penha, que “cria mecanismos para coibir a violência doméstica contra a mulher”, a lei do feminicídio tem sido pouco eficaz para modificar a nossa trágica realidade.

O último dia 8 de março, que já celebramos aqui evocando Enheduanna, teve como uma anti-cereja sobre o bolo um discurso extremamente infeliz do atual presidente Michel Temer, no qual ele se limitou a louvar as qualidades de “rainha do lar” da mulher brasileira.

Ora, as reações e as críticas não se fizeram esperar. No meu espaço do facebook, lembrei grandes mulheres, entre as quais, Christine de Pisan, cujo retrato recebeu esta legenda:

“Cristina de Pisano (em francês Christine de Pizan ou Christine de Pisan, Veneza, 11 de setembro de 1363 — Poissy, c. 1430) foi uma poetisa e filósofa italiana que viveu na França durante a primeira metade do século XIV. Ela era conhecida por criticar a misoginia presente no meio literário da época, predominantemente masculino, e defender o papel vital das mulheres na sociedade. Foi a primeira mulher francesa de letras a viver do seu trabalho.” E acrescentei um comentário com esta provocação: Temer pode começar sua atualização pelo século XIV !

A colunista Míriam Leitão, em seu artigo Não foi gafe, disse que Michel Temer apenas expressara o que realmente pensa sobre as mulheres, ele, que organizou um ministério só com homens e, ao ouvir críticas, prometeu procurar alguém ‘do mundo feminino’. Para ele, somos do outro mundo.

E ela afirma: É preciso ter estado muito desatento nos últimos 50 anos para não ter visto a revolução passar. Mulheres mudaram tudo: valores, comportamentos, atitudes. Ainda lutam, ainda enfrentam bloqueios e desigualdades , mas estão virando a vida de ponta cabeça desde os anos 1960. Há precursoras antes disso.

Nesse ponto, Leitão se refere ao livro “seminal” de Simone de Beauvoir, que também homenageei, no facebook, afirmando sobre a escritora, filósofa e ativista o que nem todos gostam de reconhecer: Sua influência na cultura e na evolução da sociedade foi maior do que a de todos os filósofos. Com apenas um livro em dois volumes: O SEGUNDO SEXO, publicado em 1949 !

Voltando ainda ao presidente Temer e suas infelizes declarações, vejamos a conclusão implacável, lapidar  do artigo de Míriam Leitão:

Quando seu ministério foi organizado só com homens brancos, seus defensores diziam que ele havia escolhido pelo mérito. Ou seja, não havia visto competência que não fosse masculina. Tantas quedas de ministros depois, pode-se perguntar qual era mesmo o mérito dos senhores escolhidos.

No domingo, outra excelente colunista e jornalista investigativa, Dorrit Harazim, escreveu sobre Temer, Trump e as mulheres.

Trump e Temer têm tudo para nutrir um genuíno desprezo um pelo outro. Mas eles têm em comum a seleção de uma equipe singular pela exclusão de mulheres: até agora são apenas duas as nomeadas pela Casa Branca e pelo Palácio do Planalto. Menciona a “cascata constrangedora de gafes” quando Temer assegurou sua convicção de “quanto a mulher faz pela casa” e do quanto ela “é capaz de indicar os desajustes de preços em supermercados”; e Trump que, por sua vez, disse ter “um respeito tremendo pelas mulheres e pelos vários papéis que elas desempenham, vitais para nossa sociedade e economia”. Harazim conclui, “dadas as barbaridades que proferira durante a campanha” que “o americano foi apenas mais bem assessorado” do que Temer.

E Dorrit Harazim encerra seu excelente artigo com esta triste constatação:

Considerando-se que, pela última avaliação do Fórum Econômico Mundial, o Brasil levará 95 anos para alcançar plena igualdade de gênero, qualquer visão fora da curva merece atenção. E urgência. O Brasil não precisa de um presidente que lhe diga o quanto a mulher faz pela casa, pelo lar. Precisa de um país onde as mulheres mostram ao presidente a sociedade da qual são parceiras iguais.

Tudo isso me fez lembrar que em 1985 escrevi com otimismo e esperança que

A transfiguração da mulher, que há de decorrer da vitória sobre o estereótipo feminino, há de derrotar, também, as deformações do estereótipo masculino, transfigurando igualmente o homem. O advento da nova mulher desencadeará o advento do novo homem. Surgirá uma nova humanidade.

Humanidade pela qual não sabemos quanto tempo ainda teremos de lutar.

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