CRISE DA DEMOCRACIA, CRISE DA POLÍTICA, CRISE DA ECONOMIA: O OLHAR DE ALGUNS ANALISTAS NÃO NEOLIBERAIS – 4. A CONFUSÃO NÃO É RESPOSTA À ORTODOXIA ECONÓMICA. O DEBATE SOBRE A MODERAÇÃO SALARIAL ALEMÃ – 1ª PARTE, por HEINER FLASSBECK e COSTAS LAPAVITSAS

Selecção de Júlio Marques Mota. Apresentação e tradução de Francisco Tavares.

A confusão não é resposta à ortodoxia económica. O debate sobre a moderação salarial alemã- 1ª Parte

Por Heiner Flassbeck and Costas Lapavitsas, Confusion is no response to economic orthodoxy. The German wage moderation discussion.

Flassbeck economics, 23 de Fevereiro de 2016 

Heiner Flassbeck Countries and RegionsEconomic PolicyEconomic TheoryEuropeGeneral Politics

1. Análises dominantes e críticas sobre a crise da Eurozona[1]

Durante vários anos após a eclosão da crise da Eurozona a narrativa dominante deitou as culpas sobre o ‘desregramento’ e a ‘ineficiência’ da periferia na gestão da economia e do Estado. O parâmetro de referência era a putativa parcimónia alemã, trabalho árduo e eficiência. Esta percepção, que se tornou profundamente enraizada na elaboração de políticas alemã, guiou os programas de resgate bem como a expansão da austeridade em grande parte da Europa. Aparentemente, o resto da Europa tinha de atravessar um duro período de ajustamento, após o qual haveria crescimento e prosperidade.

Algumas poucas vozes contrárias em 2010 – e algumas antes disso – sublinharam a extraordinária restrição salarial que prevaleceu na Alemanha desde o final dos anos de 1990 como sendo a verdadeira causa dos profundos desequilíbrios na União Europeia Monetária. Estas vozes geralmente vieram das margens críticas da economia, e durante o período inicial foram ignoradas, enquanto a narrativa de Berlim imperou. Gradualmente, à medida que os desequilíbrios na Eurozona persistiam, os economistas da corrente dominante ficaram também alertados para a situação. No decurso dos últimos dois ou três anos tornou-se um lugar comum identificar a restrição salarial alemã como a causa primária do fracasso da UEM.

O destaque analítico ganho pela restrição salarial alemã incomodou claramente alguns economistas heterodoxos, ou críticos. Pois, poderia pensar-se que esta análise deita a culpa da crise na remuneração do trabalho na periferia, apoiando assim, implicitamente, a orientação de restrição salarial dentro da Eurozona, tal como promovido por Berlim – e o FMI. Neste sentido, uma “genuína” abordagem fora da corrente dominante deveria de algum modo demonstrar que a crise não estava relacionada com o fator trabalho. E que melhor culpado senão “a irresponsável finança”?

É aqui que entram as recentes contribuições de Servaas Storm conducentes a um debate, muito do qual ocorrendo no website do INET[2] [3]. Não é fácil apresentar a argumentação de Storm de forma coerente, mas ele parece afirmar que a crise da Eurozona foi causada pela política monetária do BCE, ao introduzir baixas taxas de juro dentro da UEM encorajando, assim, fluxos de capital do centro (principalmente Alemanha e França) para a periferia (normalmente Espanha, Portugal, Grécia). A isso seguiram-se bolhas de crédito nos países receptores. Entretanto, o crescimento da produtividade era extraordinariamente forte na Alemanha encorajando a fabricação de produtos avançados e complexos, aumentando assim as exportações, enquanto a periferia se afundava em baixa produtividade, baixas exportações e mediocridade conduzida pelo crédito. A conexão entre bolhas de crédito e baixa produtividade na periferia não é clara na análise de Storm, mas essas bolhas parecem ter exacerbado o enviesamento da estrutura produtiva da Eurozona a favor da Alemanha. Este é, de acordo com Storm (2016a, 2016c), o desequilíbrio essencial da Eurozona.

Storm não nega a existência da restrição salarial alemã, à qual atribui um enfraquecimento da procura interna [n.t. alemã] e, ainda mais decisivamente, a decisão do BCE de adotar uma política de baixas taxas de juro que, presumivelmente, era adequado para a Alemanha, mesmo que isso conduzisse a bolhas de crédito na periferia. Todavia, a restrição salarial era, no mínimo, um ator secundário no drama, no qual a produtividade alemã desempenhava um papel chave. Neste sentido, a política desejável para a Europa seria algum tipo de estratégia comum de investimento que fortaleceria a produtividade e, portanto, a competitividade na periferia, reduzindo a vantagem alemã e restaurando o equilíbrio. Presumivelmente, a UEM e a UE seriam assim salvas.

O mais que se pode dizer a favor desta história é que é bem intencionada. Pois falta-lhe substância, coerência e relevância. Praticamente chegaram à mesma conclusão economistas tão diversos como Bofinger (2016) e Bibow (2016). Desejar opor-se à corrente dominante é um objetivo louvável, mas isso não pode ser feito semeando a confusão. Pior ainda, a afirmação de que a Alemanha tem vindo a dominar a UEM pela sua excelência na produtividade é, na verdade, muito similar ao que Berlim continua a defender. Para estar seguro, o governo alemão não favorece uma estratégia comum de investimento para a Europa para estimular a produtividade na periferia, como pretende Storm. A probabilidade de isso acontecer, afinal, é similar a que neve em Madrid no mês de Agosto. Mas se a crise na UEM gira em torno da putativa superioridade da produtividade alemã, como Storm afirma, então Berlim tirou a óbvia conclusão política: a periferia tem de reformar, reestruturar e liberalizar para conseguir melhorar a sua produtividade e competitividade.

Pelo contrário, a explicação da crise que insiste nas divergências dos custos unitários nominais do trabalho em virtude da restrição salarial alemã não permite tais conclusões. Não só a atual orientação de Berlim e Bruxelas quanto a “reformas” para aumentar a produtividade na periferia é implacavelmente destrutiva como também praticamente inútil. Pois, enquanto a restrição salarial alemã se mantiver os desequilíbrios fundamentais da UEM não se resolverão. De facto, esta moderação salarial tem persistido por demasiado tempo para que a UEM possa sobreviver no seu formato atual, se é que existe essa possibilidade. Embora fosse certamente desejável que a moderação salarial fosse abandonada, isso já não poderia salvar a periferia, nem a UEM. Agora exige-se uma ação drástica, o que significa a rápida saída da Grécia e de Portugal, e talvez o desmantelamento organizado da UEM. A união monetária fracassou e a responsabilidade é da Alemanha.

Vozes heterodoxas na Europa certamente necessitam convicção perante o comboio da austeridade, mas mais do que isso necessita-se clareza/lucidez. Servaas Storm tem convicção, mas a sua análise atira o bebé fora juntamente com a água. Simplificando, não haverá uma explicação coerente sobre o fracasso da Eurozona se não se levar em linha de conta a divergência dos custos unitários nominais do trabalho. Tenha-se em consideração o seguinte.

2. O que é e não é neoclássico na análise das uniões monetárias

Numa réplica que nos fez, Storm (2016c) argumentou que a nossa análise é uma versão de um modelo de manual neoclássico para uma união monetária. Que afirmação estranha e que poderia querer dizer com isso? Repare-se que Keynes foi também acusado de ser neoclássico na sua famosa análise do problema da transferência a seguir à Primeira Guerra Mundial[4], que era, na verdade, muito semelhante ao atual problema da Eurozona. (Keynes 1929)

No nosso texto conjunto (Flassbeck and Lapavitsas, 2013 e 2015) mostrámos que a Alemanha é o principal infrator e violador do Tratado de Maastricht. O mais importante argumento para estabelecer esta conclusão é tudo menos neoclássico. Mais concretamente, a nossa análise assenta na afirmação de que, no longo prazo, a inflação está mais estreitamente correlacionada com os custos unitários nominais do trabalho do que com qualquer outra coisa. Contrariamente ao pensamento neoclássico, a oferta de dinheiro ou outras putativas correlações da inflação, mostram uma relação muito mais fraca com as alterações dos níveis de preços. Além disso, e de novo completamente diferente da teoria errónea e enganadora das Áreas Monetárias Ótimas, afirmámos que a regra mais importante para que uma união monetária funcione é que todos os estados-membros devem respeitar a meta da inflação.

A comprovação da abordagem que adotámos é esmagadora e inegável, como mostra o Quadro 1:

Quadro  1 Custos unitários do trabalho e Inflação

 

Sendo reconhecido que os custos unitários nominais do trabalho, mais do que os agregados monetários, são a correlação mais próxima da inflação num país considerado isoladamente bem como numa união monetária, não poderá haver qualquer dúvida que a Alemanha teve um comportamento delinquente em virtude da extraordinária restrição salarial. Os países periféricos divergiram também da meta estabelecida pelo BCE, na direção oposta. Todavia, dado o seu tamanho relativo e a persistência da divergência, a política alemã teve consequências desastrosas para a UEM.

Este conclusão proporciona um sólido fundamento em qualquer análise racional da crise da Eurozona. Além disso, não rejeita a importância de outros fatores no exacerbar da crise da Eurozona durante o mesmo período, incluindo os fluxos de capital, sobre os quais se falará mais adiante. Acima de tudo, a conclusão é independente de quaisquer putativas distorções da atividade económica associadas ao dumping salarial alemão.  A esta luz, a ênfase de Storm sobre a transferência da despesa e o papel da procura agregada são digressões amplamente irrelevantes, como foi também deixado claro, abundantemente, por Bibow (2016).

(continua)

________

[1] Apresentação e tradução de Francisco Tavares.

[2] N.T. https://www.ineteconomics.org/community/experts/sstorm

[3] N.A. Ver Storm (2016a, 2016b, 2016c).

[4] N.T. Tema do debate entre Keynes e Bertil Ohlin nos anos de 1920, respeitante à questão da capacidade da Alemanha pagar as reparações de guerra após a I Guerra Mundial. Em termos gerais, diz respeito ao efeito de transferência de rendimento nos termos de troca do doador. A reversão dos fluxos de capital força os países a passar de um défice na conta corrente para um excedente.

em https://en.wikipedia.org/wiki/Transfer_problem

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Poderão ler o original clicando em:

http://www.flassbeck-economics.com/confusion-is-no-response-to-economic-orthodoxy/

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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