CONTOS & CRÓNICAS – CARLOS REIS – OS ARTIGOS IMPUBLICÁVEIS – O PETICIONISMO PROVINCIANO

 

 

Havia uma velha anedota no tempo do Salazar (e que com ele tinha a ver) de quando os russos enviaram pela primeira vez um satélite para o espaço com um ser vivo lá dentro, logo pouco tempo após o lançamento do primeiro Sputnik. Tratava-se de uma pobre e infeliz cadela, de seu nome Laika, assim sacrificada e que morreu logo algumas horas após o lançamento.

Isto foi notícia, manchetes de jornais, etc. – enfim, com alguma discrição, dado que tudo o que era soviético e notável, não convinha divulgar em demasia e a anedota consistia numa hipotética entrevista do Salazar aos media, em que ele elucidava os portugueses que também nós, Portugal, estaríamos em vias de enviar um satélite para o espaço. Perante tal incompreensível declaração e dado o subdesenvolvido país que então éramos, um jornalista mais afoito lá entendeu manifestar a sua estranheza perguntando-lhe, admirado, pelo necessário know how, pela indispensável capacidade técnica que aparentemente ainda não possuíamos, etc. – ao que o Salazar teria candidamente respondido:

Bem,  já temos o cão

Nós, neste hoje em dia, ainda não temos nenhum aeroporto novo e complementar previsto para o Montijo, nem sabemos nem fazemos sequer ideia de quando e se tal coisa sucederá ou será possívelMas já temos petições, dicas e propostas para nomes, tipo Mário Soares, ou alternativas irritadas e mais à Esquerda como Salgueiro Maia, outras mais antigamente históricas como Gago Coutinho ou Sacadura Cabral e até – pasme-se – Jaime Neves, que ninguém sabe muito bem o que teria tido a ver com o 25 de Abril. Se é que teria a ver alguma coisa com ele. Talvez com o seu contrário.

Somos assim – bimbos, pindéricos e provincianos, que é que se há-de fazer. Despachados em honrarias, ordens, condecorações e baptismos de lugares ou eventos e outras fáceis burocracias, muito antes (ou em vez) das coisas sérias, afinal existentes e concluídas – autênticas, sólidas e à vista de toda a gente.

Também gostamos (deve ser uma coisa sazonal) de vez em quando de mudar os nomes, no intervalo de nada acontecer: aeroporto da Madeira para Cristiano Ronaldo, um outro herói nacional. Ou (como já o fizemos, encantados) Praça do Areeiro para Sá Carneiro.

Claro que o Areeiro continuou a ser Areeiro, como sempre e para sempre e o aeroporto madeirense irá continuar a ser o aeroporto da Madeira, já se sabe. Nem há outro. Com mais braço de ferro ou menos braço de ferro entre Lisboa e o Funchal.

Os americanos (convenhamos) são realmente práticos. E únicos. Em Nova York, por exemplo, têm a 5ª Avenida, a 45ª avenida, a 37ª Avenida e por aí fora, sem chatices, sem ferir susceptibilidades, sem problemas inúteis nem discussões onomásticas.

carlos

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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