O MAPA (A saga do anadel/85) – por Carlos Loures

            Lourenço olhou os amigos, que entretanto tinham despertado dos desmaios. Impedidos de comunicar de outra forma, os três homens trocaram entre si com os olhares, mudas mensagens de alento. Apesar das terríveis dores que lhes iam pelos castigados corpos, das terríveis lacerações provocadas pelas numerosas vergastadas e queimaduras, tormento agravado pela água salgada que Julián mandara que lhes derramassem sobre as feridas, sorriram uns para os outros como vencedores. As suas vidas iriam, como tudo parecia fazer crer, ser sacrificadas, mas, apesar de o desfecho não ser para eles o melhor, tinham logrado cumprir as missões de que tinham sido incumbidos. Estavam em paz com as suas consciências e nada temiam e a própria morte seria bem-vinda, pois iria pôr um caridoso termo ao grande sofrimento que a doentia imaginação do espia andaluz lhes tinha vindo a provocar durante a última hora, que lhes parecera ter durado um século.

          O Julián começara por se lembrar de lhes aplicar a «touca», o pano enfiado na boca até à traqueia que depois iria sendo empapado em água até sufocar o interrogado. Depois, lembrou-se que grande parte dos submetidos a esta tortura, morriam afogados ou de síncope. Mas teve outra ideia e desapareceu por momentos. Em todo o caso, até agora não tinham «cantado». Aliás, apesar de novo nestas andanças, pela cabeça de Lourenço nunca passara a ideia de revelar o local onde escondera o mapa, sequer para poupar a tortura aos seus amigos. Apesar de inexperiente, sabia que mesmo que revelasse o esconderijo da carta do Bisagudo, ele e os amigos seriam, do mesmo modo, executados.

            A resposta para tal interrogação sobre a «boa ideia» do andaluz, chegou quase imediatamente, pois Julián regressou do porão aonde, momentos antes descera. Trazia nas mãos uma gaiola de arame com aproximadamente um palmo de altura por dois de comprimento. Dentro dela, qualquer coisa viva se agitava – quando se aproximou, todos viram tratar-se de uma grande ratazana, peluda e castanha, de olhos vivos e com uma longa cauda pelada. Fora apanhada numa dessas ratoeiras que a tripulação da Saint-Louis espalhava junto do local onde se armazenavam os víveres. Eram estas solidamente construídas em arame de ferro e consistiam num simples dispositivo que, logo que os vorazes animais entravam na gaiola em busca do isco, um pedaço de carne ou de queijo, que lá era colocado, a porta de entrada caía, ficando os roedores prisioneiros. Geralmente, quando não as queimavam ou despedaçavam, os marinheiros atiravam depois os bichos à água, onde ao cabo de alguns minutos de luta pela vida, acabavam por morrer afogados perante o gáudio dos assistentes que, as mais das vezes, faziam apostas sobre o tempo que os animais iriam aguentar antes de serem tragados pelo mar. Eram seres detestados pelos navegantes e por eles tratados com alguma ou mesmo com muita crueldade, pois produziam grandes estragos e prejuízos, além de causarem uma grande repugnância, como se fossem coisas saídas da suja imaginação do Demónio. Fora uma dessas armadilhas que Julián encontrara no porão e que trazia agora, com um sorriso que nada de bom augurava para os prisioneiros. Explicou então, muito serenamente, qual era esta nova «boa ideia»:

            – É um sistema simples e eficaz: coloca-se a extremidade da gaiola bem encostada ao rosto de um destes perros e puxa-se a porta para cima. Se, com um espeto, formos picando o bicho no dorso, tentará fugir pela saída mais fácil. Adivinhem qual é? – E riu-se, satisfeito com a sua demoníaca invenção – Estais a ver? Afinal, nem o potro nem a polé fazem aqui falta. O engenho substitui-os com vantagem. Se os perros não aguentarem as dores, falem e a gaiola logo será afastada.

            Quer os tripulantes, quer os soldados de Castela, quer os fidalgos castelhanos e o capitão flamengo, pareciam repugnados com a desumana tortura. Falavam em voz baixa. Contudo, Julián parecia deter agora o comando das operações. Pressentindo as objecções, fez a sua peroração:

            – Desta vez, vou começar pelo garboso Lourenço. Vamos lá ver se o seu ar orgulhoso de mantém depois de a ratazana lhe ter comido os olhos, o nariz, os lábios… – depois, simulando só então ter reparado no ar incomodado de todos os outros, acrescentou falando para eles – Não, ninguém lhes está a fazer mal. Eles, ao não quererem dizer-nos onde esconderam o mapa é que estão a fazer mal a si mesmos e, no entanto, era muito simples: bastaria que um deles falasse para que todos fossem poupados. Eles são os únicos responsáveis pela própria morte e pela morte dos amigos – olhou com ironia os descontentes rostos – Não entendeis que tenho razão? Os criminosos são eles, que nos escondem a verdade, não somos nós que apenas a procuramos. Por serem ratazanas mentirosas, vão entender-se aqui com a sua amiga – a agitou a gaiola, dentro da qual o repelente, mas sagaz bicho saltou assustado também com o que lhe estavam a reservar, segurando-se com as patas dianteiras às grades do cárcere – e, mantenho a promessa, se um falar, todos serão poupados.

            Lourenço, enquanto o amarravam de pés e mãos e lhe fixavam a cabeça, também ela fortemente atada à altura da testa com um pano ao poste para que não a conseguisse mover, recebeu com aparente impassibilidade a notícia sobre o que lhe estava reservado. Como se aquele inimaginável horror estivesse destinado a qualquer outra pessoa e não a ele. Parecendo não acreditar que aquilo ia, de facto, suceder. Como o miserável dissera momentos antes, comparados com aquele «engenho», o potro e a polé quase pareciam luxuosos escanos de espaldar. Produziu-se agitação quer entre os tripulantes da fusta, quer entre os soldados. O homem que o amarrava, um soldado de ar rude, um camponês engajado para as lides da guerra, ao terminar a sua tarefa, dirigiu-lhe um aceno de encorajamento. Diogo, que estava à direita segredou-lhe um plano de emergência:

            – Podes fazer uma coisa – quando o animal avançar para a tua cara, abre a boca, escancara-a o mais que puderes. A ratazana é quase certo que entra. Logo que a sentires, fecha a boca com rapidez e força e corta-lhe a cabeça. Felizmente que tu tens bons dentes – concluiu com um frouxo sorriso nos lábios, tentando animar o amigo, se é que tão repugnante solução podia animar fosse quem fosse. Eram o conselho, o encorajamento e a ironia possíveis no momento. Lourenço assentiu com um piscar de olhos, a única parte do corpo que conseguia mover. À falta de melhor ideia, iria seguir o conselho do amigo, embora o seu estômago estivesse já a dar voltas, repugnado com a perspectiva de um tal manjar. Com o seu sorriso distorcido de ódio e loucura, Julián avançou com a gaiola nas mãos.

Os nobres e o flamengo aproximaram-se de Julián.5

Todos, tripulantes, soldados e, em especial, os prisioneiros aguardaram com expectativa o resultado da reunião. Pelos gestos dos nobres e do capitão, percebia-se que insistiam para que os prisioneiros fossem enforcados. Usando aqueles métodos de tortura, ou matavam todos os tripulantes da fusta ou deixariam para trás dezenas de testemunhas sobre o modo como Castela ministrava justiça. Julián encolheu os ombros – «Matem-se todos!». Escandalizado, Van der Meer ameaçou denunciá-lo caso persistisse na sua loucura. Porém, o andaluz insistia em usar a ratazana em nome da eficácia, pois esperava que os presos falassem – se não falasse o primeiro, falaria o segundo ou o terceiro quando visse os companheiros com os rostos roídos pelo animal. Perante os resultados obtidos, a forma como tivessem sido obtidos seria esquecida. A discussão eternizava-se. Então, o oficial aproximou-se e interveio. Ele e os seus homens, afirmou com militar concisão, iam retirar-se para a caravela. Já tinham colaborado demasiado com as loucuras do espia. Aceitavam enforcar os prisioneiros, pois executar espias estrangeiros, constituía um procedimento regular, mas recusavam-se a continuar com as torturas. Perante esta posição, Julián foi forçado a aceitar que os três homens fossem enforcados. Os soldados começaram a preparar a execução, desatando as cordas que prendiam Lourenço ao mastro, mas deixando-lhe as mãos atadas atrás das costas, tal como acontecia aos seus dois companheiros. No batel, foram à caravela buscar um padre. Nuñez veio junto de Lourenço e sussurrou-lhe ao ouvido:

            – O signor Torriani tinha mandado fazer uma cópia do mapa! E vai vendê-la a Castela. A vossa missão fracassou – e já ia a virar costas, quando se lembrou de acrescentar, agora em voz alta – Vê  se não começas a chorar e a tremer como o teu pai, antes de eu o ter degolado – Lourenço, manietado pelas cordas, tentou inutilmente, libertar-se e olhou o andaluz com uma fúria assassina. Nuñez deu uma das suas gargalhadas dementes.

            Embora passada a ameaça da tortura concebida por Julián, tudo parecia agora perdido no que se refere às vidas de Lourenço, de Diogo e de João. Naquela missão restava-lhes a consolação do dever cumprido. Embora o espia andaluz lhes tivesse garantido que o mapa roubado em Lisboa e que guardara, tivesse sido copiado e os seus segredos estivessem agora à mercê de Castela e de Veneza. O rolo de papel do mapa roubado na Casa da Mina ficaria, talvez para todo o sempre, escondido naquela anónima trave do porão da fusta francesa. Se o barco fosse afundado, a cópia do mapa do Bisagudo, iria para as profundidades e ali apodreceria.

 Aos presos, restava-lhes morrer com dignidade. Os três homens que a sorte juntou naquela missão, ostentavam um sorriso de desdém. Um untuoso padre que chegara e que, em mau latim, lhes ministrava, com rapidez e falsa compunção, o sacramento da extrema-unção. Diogo, parecia estar febril, o suor escorria-lhe abundantemente da testa, tremia e, por certo, não era porque estivesse com medo da morte, tantas eram as vezes que já a tinha enfrentado. As feridas das costas regadas com água do mar haviam provocado uma infecção que começava agora a mostrar os sintomas. Na coberta, os homens da tripulação da fusta, mantidos em respeito pelas alabardas e arcabuzes dos soldados, estavam em silêncio, como espectadores impotentes. Os inimigos, mais preocupados com razões de natureza material, pareciam ter também agora alguma pressa em arrumar a questão. Cumpriam-se as regras, com tambores a rufar e uma guarda de homens de armas alinhados em redor do patíbulo. Para que não dissesse que Castela não cumpria os seus deveres de reino cristianíssimo.

Julián quisera dispensar as formalidades. Fora Van der Meer, que olhava os prisioneiros com algum pesar, os dois nobres de Castela e, sobretudo o oficial que comandava os soldados que tinham insistido para que tudo fosse feito de forma regular. Os prisioneiros tinham já as cordas em redor dos pescoços. Olharam-se numa despedida. Dentro de minutos estariam a «dançar» com os pés a mais de um metro das tábuas do convés. Quando se preparavam para viver o derradeiro momento, ouviram gritar:

            – Atenção! Naus portuguesas à vista! Naus e caravelas portuguesas! – E o gajeiro acrescentou – É uma grande armada!

Não se tratava de «uma grande armada». O jovem gajeiro, exagerara. Não passava de uma pequena frota aquela que, vinda de Sul, da costa de África, se aproximava velozmente dos três barcos ancorados num ponto algumas léguas afastado do castelhano porto de Tarifa. Eram cinco as naves – três naus e duas caravelas. As naus, todas de três mastros, superavam os duzentos tonéis e pela sua coberta superior distribuíam-se, a bombordo e a estibordo, dezenas de bombardas. As duas caravelas, eram típicos navios de apoio, com velas latinas e providas ambas de um pequeno castelo à popa, sendo esguias e de pequeno calado à proa, desenho que lhes permitia, com bom vento e ajuda de remos atingir grandes velocidades e mesmo esgueirar-se entre as alterosas ondas das grandes tempestades oceânicas. Estavam também equipadas com bombardas e canhões mais pequenos, sobretudo falconetes e colubrinas. Era uma frota de vigilância e patrulha vinda de Ceuta com destino a Lisboa. Ao comandante terá parecido estranha e suspeita aquela reunião em pleno mar entre um navio militar do reino de Castela, uma carraca da Flandres e uma fusta francesa, conforme as respectivas insígnias hasteadas pela caravela e pelos dois navios mercantes testemunhavam.

            Tudo isto decorria em águas de indiscutível jurisdição castelhana, mas já vos expliquei quanto as leis, viessem elas de onde viessem, prontamente faleciam à vista dos canhões. Se em vez de uma pequena caravela, estivessem ali mais do que uma nau castelhana e já o comandante português teria sido forçado a refrear as suas, tão compreensíveis quanto ilegais, curiosidade e suspeição e a passar de largo. Felizmente para os três condenados à forca, desta vez o equilíbrio pendia para o seu lado. De bordo da nau capitânia portuguesa foram berradas com arrogante autoridade, ordens para que os navios comerciais ficassem onde estavam e para que a caravela castelhana zarpasse dali imediatamente. E para apoiar estas ordens, as naus e as caravelas logo se começaram a dispor em linha, manobrando para apresentar um dos flancos aos três navios estrangeiros. As portinholas que cobriam as bombardas foram puxadas por correntes de ferro e elevadas. Percebeu-se que não haveria quaisquer hesitações em começar a despejar pelouros de ferro e de pedra sobre o navio ou os navios que não obedecessem à ordem. A primeira bordada seria, muito de aviso e intimidação, indo cair umas braças adiante do barco mais distante, para Norte, neste caso a caravela castelhana. As descargas seguintes seriam letais: destruiriam os três barcos, que, no seu conjunto, não dispunham de poder de fogo aproximado ao apresentado por apenas uma das naus.

            Os soldados castelhanos, para não ser humilhados, apressaram-se a regressar à caravela, levando consigo os dois emissários reais, o capelão e o espia andaluz. O capitão Van der Meer ficou a bordo da fusta. Os portugueses deixaram o batel que transportava os soldados e demais gente de Castela chegar à caravela e só depois lançaram ao mar as suas pequenas barcas onde dezenas de soldados bem armados se dirigiram em simultâneo à Leeuwarden e à Saint-Louis. A bordo desta última, os tripulantes tinham já prontamente retirado as cordas que tinham sido colocadas pelos soldados de Castela em torno dos pescoços dos três prisioneiros, desataram-lhes as mãos e haviam-nos retirado dos pedestais de madeira sobre os quais tinham sido colocados, meros caixotões que, a terem-se cumprido as execuções, seriam puxados de supetão e os poriam «a dançar», para usar a expressão do espia andaluz. Tinham escapado por pouco de uma feia morte, se é que as há bonitas. O físico da fusta veio logo dar assistência aos portugueses, ocupando-se em primeiro lugar de Diogo, cujas feridas pareciam ter dado lugar a uma infecção.

            No batel que minutos depois abordou a fusta francesa vinha, acompanhado por alguns soldados, o comandante português dos cinco navios que compunham a pequena armada. Tratava-se de um homem jovem, magro e de baixa estatura, de tez morena, com olhos mui vivos e penetrantes, denunciando argúcia e inteligência. Não se impondo pela altura e corpulência, denotava em toda a sua atitude, autoridade e uma firmeza viril. Usava, contrariamente à moda em vigor, uma barba escura e frondosa, tentando talvez parecer mais velho e austero. Chamava-se Diogo Lopes de Sequeira e viria a ter, como se sabe hoje, um grande futuro como político e como militar. Apesar de ser um fidalgo da Casa Real, naquela altura, com 25 anos, comandava aquela pequena frota o que dizia já alguma coisa sobre o seu valor. Em poucas mas elucidativas palavras, foi posto por Lourenço e pelos outros dois portugueses ao corrente do que sucedera, mas não deu qualquer ordem no sentido de deter a caravela castelhana que levantara âncora e navegava já rapidamente em direcção a Tarifa, estando ainda, no entanto, bem ao alcance de fogo das bombardas portuguesas. Havia que respeitar as conveniências – estava-se em mar territorial de Castela e afundar uma caravela com as quatro espadas vermelhas da cruz de Santiago nas velas e ostentando os pendões reais, com os leões e castelos de ouro bordados sobre fundo vermelho e amarelo, era coisa que só podia ser feita por motivo muito grave, pois, naquelas condições, constituiria um agravo inútil e desproporcionado. Ademais era um acto que podia trazer consequências indesejadas, visto que, de momento, as duas coroas nem sequer estavam em guerra, vivendo mesmo um raro período de acalmia, em declarada paz. E havia ainda a previsão de um importante tratado entre os reinos peninsulares a ser assinado em breve. Embora tudo isto fosse verdade e Lopes de Sequeira tivesse de o tomar em consideração, a surda e hostil rivalidade, herdada dos séculos anteriores, era também uma força em movimento. Os artilheiros ferviam de raiva e resmungavam de frustração por não poderem afundar «uma caravela pejada de perros». Porém, o capitão não deixava que impulsos atávicos turvassem a razão política.

            Diplomaticamente, Lourenço não se referiu ao papel de Van der Meer em toda a história, deixando que fosse ele a explicar-se. O flamengo lá contou um mal amanhado relato, segundo o qual fora quem salvara as vidas aos três servidores da Coroa, convencendo os nobres e o espia de Castela a pouparem-lhes as vidas. Era uma descarada mentira. João Dulmo que, apesar de agora ser português, não esquecera a sua língua de berço, rosnava em neerlandês os mais grosseiros insultos ao capitão, à honra de sua mãe, de seu pai, de sua esposa, à sua masculinidade… Van der Meer, fingia não ouvir e continuava a desfiar a sua mentirosa história. Lourenço e Diogo, que continuava um pouco febril e estendido sobre uma maca, deixaram-no mentir à vontade, tendo comentado em voz baixa que, nos seus relatórios não deixariam de descrever tudo o que tinham sabido sobre aquele homem que, embora pago por Portugal, servia a Castela, Veneza e sabe-se lá a mais quem. No fundo, não era má pessoa e se não lhes tinha salvo a vida como afirmara, tinha, pelo menos, tentado evitar que fossem torturados de uma forma desumana como Nuñez pretendia. E, vendo bem as coisas, esse já não era um favor tão pequeno quanto isso.

            O capitão Lopes de Sequeira, sagaz apesar da sua juventude, compreendeu, tanto pela troca de sorrisos e de comentários entre Lourenço e Diogo, bem como pelas repetidas invectivas de João, que aquele relato era uma patranha, mas não era também conveniente criar um conflito com Flandres, tanto mais que as coisas tinham acabado bem. Fingiu acreditar e limitou-se a dizer rudemente ao outro que se calasse, pois já tinha percebido tudo. O capitão flamengo pôde assim, conservando o aprumo, regressar ao seu navio num batel que dali veio para o transportar. No entanto, os seus proventos como agente da Coroa portuguesa haviam terminado. Tinha de descarregar em Lisboa as mercadorias que trazia de Veneza, mas não seria conveniente que baixasse ao porto. E nunca mais os ares de Portugal seriam aconselháveis para a sua saúde.

            Restava agora a Lourenço e a Diogo despedirem-se de João que iria para Lisboa a bordo da fusta francesa, onde os seus serviços de mareante tinham sido contratados. Abraçaram-se comovidamente, embora evitando dar palmadas nas costas ainda em sangue devido às numerosas vergastadas e queimaduras. Combinaram encontrar-se em Lisboa, pois, por certo, chegariam com uma pequena diferença de tempo. As provações que juntos tinham vivido durante aqueles breves dias de Verão tornaram-nos amigos para a vida e para a morte. Despediram-se também do comandante Perrin e da sua tripulação que tanto os tinha ajudado. Lourenço foi ao porão buscar o mapa escondido na trave, embarcando então no batel que o levou e a Diogo Mendo, este transportado na maca, para bordo da nau capitânia. Naquele pedaço de papel residia toda a razão de ser da sua missão e todo o motivo das tribulações que, ele e outros, tinham passado naqueles dias.

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