FRATERNIZAR – Um testemunho de arrepiar: A VELHICE DO PADRE ZÉ – por MÁRIO DE OLIVEIRA

Domingo 9 de Abril 2017. Dia de missa obrigatória para as católicas, os católicos. Um dos reiterados pecados capitais institucionais, cuidadosamente mascarados de outros tantos sacrifícios redentores da Humanidade, que acaba reduzida a obscena montra de vaidades-hipocrisias e a privilegiada ocasião de distribuição, por parte dos clérigos e pastores de igreja, de overdoses de mentira e de moralismo rasca. Para cúmulo, um domingo único em cada ano litúrgico, designado pelo calendário romano como domingo de ramos. O da bênção e procissão dos ditos. Um teatro litúrgico com tudo de grotesco, que constitui um insulto e um escarro aos actores profissionais deste nosso hoje. Repetido, ano após ano. Felizmente, com cada vez menos figurantes voluntários. Ainda que com muitos turistas nacionais e estrangeiros que insistem no doentio gosto de ver cenas destas nas ruas das grandes cidades que foram da nefanda cristandade e, hoje, felizmente, são cada vez mais seculares e libertas do jugo dos clérigos, uns quantos celibatários à força que surpreendentemente ainda aceitam servir a transnacional católica romana, disfarçada de Igreja.

Sem me dar conta disso, sucede que é precisamente neste domingo que vou de visita ao padre Zé, meu amigo, desde os remotos anos de seminário, hoje, já na velhice e na doença, por isso, sem qualquer ofício-benefício canónico, acolhido, juntamente com uma sua irmã ainda mais doente, por um irmão mais novo de ambos e pela sua mulher, cunhada deles. Aliás, é sobretudo ela que cuida do cunhado e da cunhada. A visita era para ser da parte da tarde, mas teve de ser mudada, quase sobre a hora, para a parte da manhã, uma vez que os familiares cuidadores, antes de saberem das minhas intenções, já tinham programado, e bem, um descontraído passeio com todos, após o almoço.

Chego e encontro o meu colega sentado no sofá. O habitual sempre que lá vou de visita. O mesmo sofá onde passa os seus monótonos e tristes dias de solidão sacerdotal. Sem que o institucional que serviu, na infantil convicção de que servia Deus que nunca ninguém viu, queira saber dele. Conduzo a improvisada conversa que faço com ele para a nossa actualidade à luz da Fé e da Teologia de Jesus. Só que, apesar do meu colega e amigo ter um percurso eclesiástico de grande incompreensão por parte dos sucessivos gestores-mor da empresa empregadora que é cada diocese territorial, no caso, a diocese do Porto, continua a viver absolutamente possesso pelo demónio que é a ideologia-teologia do cristianismo. O negador-mor da Humanidade de Jesus e, nele, da Humanidade, que somos todos e cada um dos seres humanos e povos.

Com a minha atenção toda concentrada no meu amigo padre doente e um quase-nada mais velho do que eu, nem sequer me apercebo, à chegada, que o aparelho de televisão da sala está ligado. Muito menos que está a transmitir a missa daquele domingo, dito de ramos, numa emissão feita a partir de uma paróquia católica de Portugal. Um privilégio que o Estado português, apesar de constitucionalmente laico, insiste em conceder à igreja católica e só a ela. A Lei de Liberdade Religiosa existe no país, mas a verdade é que às outras igrejas chegam apenas as migalhas que a igreja católica deixa cair dos seus lautos altares, tal como a Lei do judaísmo do tempo histórico de Jesus deixa cair das lautas mesas dos judeus ricos as migalhas para os cães dos respectivos donos, mas que até essas ela nega aos povos não-judeus, apesar destes serem a esmagadora maioria da humanidade!!! O que perfaz uma das maiores aberrações cometidas por todas as religiões e igrejas cristãs que insistem em separar-dividir a Humanidade que Deus que nunca ninguém viu cria e quer ver maieuticamente religado.

Cai-me o coração aos pés, quando me apercebo que a minha visita está a ocorrer na pior das horas para o meu amigo padre, a mesma que para mim vem a ser a mais reveladora das que tenho passado com ele. Constato, desta vez, com visível dor que o meu amigo padre Zé, depois de ter construído toda a sua vida sobre o crime dos crimes em que são peritas as três religiões do Livro – judaísmo, cristianismo, islamismo – que é negarem o valor do Humano, para categoricamente afirmarem o valor do divino, nem sequer na sua velhice e definitivamente afastado do protagonismo dos altares, consegue ver que viveres assim como os dos clérigos religiosos e laicos são edificados sobre a areia, por isso, sem verdade-realidade, sem razões e causas que valham a pena, porventura, muita erudição, muito saber, muitos aplausos das multidões, mas nenhuma Cultura, nenhuma Sabedoria, nenhuma Fecundidade.

O meu amigo sabe bem, até pelas conversas que temos feito, a diferença qualitativa que tem sido e continua a ser o meu ser-viver de presbítero-jornalista, não de sacerdote. Um ser-viver teimosamente próximo das pessoas e longe dos altares e dos templos, todo feito de persistente atenção aos sinais dos tempos e à escuta do Essencial, não aos ritos e aos rituais litúrgicos e aos missais. Sabe, mas é como se não soubesse. E a prova é que, nesta minha visita de domingo, para ele, domingo de ramos, não só não é capaz de desligar a televisão,quando ouve tocar a campainha e vê a sua cunhada sair a abrir o portão para eu poder entrar, como não me dá a habitual atenção, dividido que está entre mim e a missa da tv. Como todos os clérigos e pastores de igreja, também ele resiste a nascer de novo, da Ruah/ Vento de Jesus, que exige que todas, todos mudemos de ser, de Fé e até de Deus.

Mesmo assim, antes de me despedir, ainda me atrevo a colocar-lhe nas mãos um exemplar do Livro, “A BÍBLIA OU JESUS?”, editado este mês de abril e com sessão oficial de apresentação já marcada para dia 28 de Abril, 18h30, na sede da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto (AJHLP). Vou um pouco mais além e pergunto-lhe que resposta dá ele àquela pergunta-título. Responde-me, prontamente, que não há que escolher entre a bíblia e Jesus, porque, para ele, uma e outro são duas realidades não contraditórias, mas complementares. E mostra-se até escandalizado comigo e com o título do Livro. Um escândalo em tudo semelhante ao que tem comigo, quando, pelo natal de 2016, lhe mostro o Livro imediatamente anterior a este, “de CRISTÃO a HUMANO”. Lê o título e prontamente protesta, Mas então não são os seres humanos que têm de passar a cristãos?. Nessa altura, dou uma gargalhada, ao ver que ele tem a reacção mais do que esperada por mim. Não sem, entretanto, sublinhar com toda a firmeza que quem está a ver mal as coisas é ele, não o Livro.

Desta vez já não rio com ele. Pelo contrário, todo eu choro por dentro e digo-lhe, sem rodeios, Pois é meu querido amigo, há dois mil anos que andamos a ser formatados e a formatar as mentes-consciências das populações e dos povos, mas a verdade é que, ou passamos de cristãos e de religiosos a humanos e escolhemos-praticamos Jesus, o filho de Maria, não a Bíblia, ou simplesmente desaparecemos como espécie humana. Porque todos os messianismos (= cristianismos) são mentira, uma vez que ninguém salva ninguém; ninguém se salva sozinho; salvamo-nos em religação política maiêutica uns com os outros, com a natureza, com o cosmos. Tudo o que não for assim é mentira, opressão, treva, morte até da alma. Sem hipótese sequer de levantamento (= ressurreição).

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

One comment

  1. Jose Oliveira

    Mais uma vez o arrogante defensor da verdade absoluta e do pensamento único vem atacar a igreja e a religião (parece que todas as religiões), como se fosse tudo a mesma coisa. Igual atitude tiveram os conquistadores europeus perante as culturas que foram descobrindo. Com a mesma soberba, designavam todos por igual. Eram os bárbaros, os índios, os xins, os pretos, etc.Tudo a mesma canalhada inferior e que ainda devia agradecer a benção civilizacional que aí vinha. A arrogância e ignorância de uns e outros tem muito em comum. Como “ELE” disse: “perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”…ou dizem….

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