


Contrariamente ao que muitos podem pensar ou dizer, a revolução tecnológica em curso, diferente das anteriores (esta é diferente das anteriores), não é nem um mito, nem uma simples criação ideológica do capitalismo. Ela é bem real, e vai ter um profundo impacto no emprego e na sociedade. O que está a suceder é que o “Capital” está a utilizá-la para aumentar as desigualdades e a exploração e para concentrar ainda mais a riqueza. E os seus defensores estão a procurar convencer a opinião pública que esse é o caminho inevitável, que não há outro a não ser esse, o que não é verdade. Afirmar também que é uma simples criação ideológica e que, por isso, deve ser combatida apenas no plano ideológico, e ficarmos muito convencidos e satisfeitos com isso, é deixar o campo livre à atuação selvagem do mercado, à lógica de caça ao lucro que domina o sistema capitalista, cujas consequências serão inevitavelmente a destruição muito emprego, mais desigualdades e mais miséria.
Antes de analisarmos quais serão eventualmente as consequências desta revolução tecnológica em Portugal, interessa analisar quais foram os efeitos da crise e da politica de austeridade no mercado de emprego imposta a Portugal pela “troika” e pelo PSD/CDS, pois será já nesse contexto que os efeitos da revolução tecnológica se farão mais sentir.
A RESTRUTURAÇÃO DO MERCADO DE EMPREGO EM PORTUGAL ENTRE 2007/2016, CAUSADA PELA CRISE E POR UMA VIOLENTA POLITICA DE AUSTERIDADE
No período 2007/2016, mesmo antes do nosso país ter sofrido um forte impacto da revolução tecnológica (ela ainda está no início, em Portugal ela está a dar ainda apenas os primeiros passos), verificou-se uma profunda reestruturação do mercado do emprego com consequências dramáticas para determinados grupos da população. Alguns dados do INE sobre o que sucedeu nos últimos anos em Portugal para se tornar claro o que se verificou, já que passou despercebido a muitos portugueses:
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Entre 2007 e 2016, foram destruídos, em Portugal, 546,5 mil postos de trabalho (o emprego passou de 5,15 milhões para 4,60 milhões), mas não foi só isso.
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Se análise for feita por níveis de escolaridade a conclusão que se tira é que, entre 2007 e 2016, a destruição de emprego atingiu quase exclusivamente o emprego ocupado por trabalhadores com o nível de escolaridade até ao 3º ciclo do ensino básico, cujo número de empregos diminuiu em 1,4 milhões, tendo a maior parte deles ser excluídos definitivamente do mercado de trabalho;
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Uma parte destes empregos foram ocupados por trabalhadores com o ensino secundário (o emprego destes aumentou, neste período, em 405,5 mil) e com o ensino superior (+ 462,8 mil), muitos deles a receber salários muito baixos;
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Entre 2007 e 2017, os trabalhadores por conta de outrem sofreram uma redução de 115 mil, mas registou-se um crescimento no emprego de mulheres (+ 102,2 mil) e uma diminuição do emprego de homens (-217,2 mil);
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Um grupo afetado profundamente pela crise foram os “trabalhadores por conta própria como isolados”, também conhecidos por “independentes”, ou “empreendedores”, para utilizar um termo muito em voga, cujo numero, entre 2007 e 2016, diminuiu em 330,5 mil (passou de 952,5 mil para 569,6 mil);
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Se a análise for feita por idades, entre 2007 e 2016, a redução maior teve lugar na população empregada com idade entre 25 e 34 anos, cujo numero diminuiu em 408,8 mil, portanto no grupo etário potencialmente com maior capacidade produtiva, certamente consequência da emigração em massa de jovens altamente qualificados que não encontraram um emprego condigno em Portugal, o que mostra bem que este tipo de reestruturação foi altamente lesiva para o presente e o futuro do país.
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Se a análise for feita por profissões, conclui-se que, entre 2007 e 2016,:
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O emprego de “Especialistas intelectuais e científicos” aumentou em 384,5 mil, mas foi inferior ao aumento do emprego de trabalhadores com o ensino superior que aumentou em 462,8 mil neste período;
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O emprego de “Técnicos de nível intermédio” também aumentou mas apenas em 91,7 mil, portanto muito menos que o aumento do emprego de trabalhadores com o ensino secundário que cresceu em 405,5 mil,
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O emprego de “Pessoal administrativo” diminuiu em 131,5 mil;
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O emprego na “Agricultura e pescas” também diminuiu em 270,8 mil
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O emprego de “Operários” reduziu-se quase para metade, pois diminuiu em 439,2 mil (entre 2007 e 2016, passou de 1,02 milhões para 581,6 mil)
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E o emprego de “Trabalhadores não qualificados” caiu em 172,7 mil.
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