Que fazer: escolher Macron, escolher Martine Le Pen ou escolher não escolher? Texto 2 – Henri Guaino, não votarei nem Macron nem Le Pen (entrevista por Atlantico)

Seleção e tradução por Júlio Marques Mota

Texto 2. Henri Guaino, não votarei nem Macron nem Le Pen

Entrevista política por Atlantico

Publicada em 9 de abril de 2017

Henri Guaino: “Uma segunda volta Macron – Le Pen seria dramática porque não haveria lugar para a menor ideia que tenha em conta a complexidade do mundo e da condição humana”

Agora que a primeira volta da eleição presidencial se aproxima e em que estamos já próximos, Henri Guaino, deputado republicano por Yvelines, fala-nos sobre estas eleições e sobre os acontecimentos na Síria.

Que fazer escolher Macron, escolher Martine Le Pen ou escolher não escolher Texto 2 Henri Guaino, não votarei nem Macron nem Le Pen

Henri Guaino é alto funcionário e político francês. Conselheiro especial de Nicolas Sarkozy, presidente da república francesa de 16 maio 2007 a 15 maio 2012, foi autor dos seus principais discursos durante o mandato. A seguir tornou-se deputado pela 3ª circunscrição de Yvelines

Atlantico: à medida que os dias passam e as sondagens também, parece que a probabilidade de uma segunda volta opondo Marine Le Pen à Emmanuel Macron é cada vez mais forte. Na sua opinião, que ideia nos mostra um tal panorama quanto ao país?

 Henri Guaino: O que espanta primeiramente nesta campanha é que a dinâmica está do lado das candidaturas que estão fora do sistema – Le Pen, Macron, Mélenchon – e que os candidatos dos partidos tradicionais estão a lutar com muita dificuldade, como se estivessem já exaustos e sem nenhum fôlego, já de velhos, mais usados e sem nada mais a dizer. Esta campanha parece mostrar-nos dois factos principais. O primeiro é que a sociedade francesa não está “tão à direita” como se costuma dizer, mas sim “radicalizada” na acumulação de crises e de sofrimentos. O segundo facto relevante é que os franceses não reclamam tanto uma alternância entre a direita e a esquerda, mas antes a substituição do que eles sentem como um sistema político, uma forma de agir e pensar, velha, esclerosada, incapaz de ideias novas, e que eles pensam, não sem razão, que é enquanto sistema um fracasso total.

A hipótese de uma segunda volta Le Pen – Macron estaria de acordo com esta tese assinalando o fracasso do que foi já considerado “os grandes partidos de governo”.

Isto significa um sistema político com dois grandes partidos dominantes, um de centro-esquerda e o outro de centro-direita, ao qual a criação da UMP, no início de 2000, parecia ter dado os últimos retoques. Tinham- nos vendido a modernidade política sob a forma de dois cartéis eleitorais – PS e UMP – que deveria cada um deles criar uma rede muito ampla de militantes e simpatizantes e tranquilamente alternarem no poder no quadro do que nos anos 90 se chamava então o “círculo da razão”. Mas o seu defeito congénito foi que cada um deles reunia no seu seio um conjunto de correntes e sensibilidades que na verdade não tinham grande coisa em comum, e em que não se entendiam senão numa SÓ coisa: vencer em conjunto as eleições. Isto não correspondia nem ao génio político francês nem ao período da história em que estávamos a entrar. A situação de crise cada vez mais aguda do ponto de vista económico, cultural, social, identitário, exigia pelo contrário famílias políticas com identidades fortes.

Ora é nesta altura que se constroem partidos de identidade fraca ou mesmo sem identidade. Resultado, não somente se deixou o campo livre aos extremismos, como também estes cartéis eleitorais abafaram as segmentações que estavam a emergir como sendo as verdadeiras clivagens da época e que atravessavam todos os partidos desde a queda do Muro de Berlim: mundialização feliz contra a crítica da mundialização, europeísmo feliz contra euroceticismo, os que acreditavam na Nação e os que não acreditavam nela, os que pensavam em termos de civilização e os que se recusavam a fazê-lo, os que viviam penosamente a insegurança cultural e a crise identitária e os que consideravam que isso não tinha nenhuma importância, os adoradores do mercado e os que consideram que o Estado deve desempenhar um papel económico, etc. Estas clivagens não se puderam impor num sistema que, no fim, reduzia sempre tudo à clivagem direita- esquerda e de que o sistema das primárias é a sua expressão final. É este sistema que está a decompor-se entre as esquerdas “irreconciliáveis”, de Manuel Valls, e as direitas, todas elas igualmente “irreconciliáveis”.

Uma segunda volta entre Macron e Le Pen expressaria a emergência brutal de uma clivagem mais pertinente do que a existente entre direita e esquerda, uma vez que ambas as candidaturas se posicionam numa linha que não é nem de direita nem de esquerda. Mas se esta nova clivagem não se inscrever razoavelmente numa reestruturação ordenada do debate e do cenário político, ela impor-se-ia na sua forma mais radical, ou se quisermos, na sua forma mais caricatural: “a abertura contra o fechamento”, “Europeísmo contra o anti-Europeísmo”, “nacionalismo contra o mundo sem fronteiras”… É realmente dramático, porque já não há lugar neste debate para a menor nuance, para o mais pequeno pensamento que tome em conta a complexidade do mundo e da condição humana. Não haveria senão um confronto brutal entre duas visões de mundo em que nem uma nem outra se podem considerar autossuficientes.

Atlantico: De acordo com as últimas sondagens (BVA) publicadas a 7 de abril, Jean Luc Mélenchon estaria doravante capaz de poder estar a par com François Fillon, pondo-o portanto em posição de poder vir a discutir uma segunda volta. Como é que interpreta esta situação, e quais podem ser as consequências de um tal cenário?

Henri Guaino: Seria uma outra versão do mesmo fenómeno, porque, contrariamente às aparências, isso não voltaria a ser o regresso da clivagem direita – esquerda. Esse resultado marcaria mais claramente ainda a derrota do pensamento único económico e social néo ou pseudo liberal que constitui o coração da ideologia da mundialização e da doutrina europeia. Esta derrota inscrever-se-ia sobre um fundo de confrontação entre nacionalismo e internacionalismo. Se quisermos bem reconhecer que eventualmente Macron não é senão a máscara juvenil da continuação do sistema sob outras formas, a confrontação à segunda volta Le Pen – Mélenchon estaria mais em sintonia com o contexto histórico, com o profundo mal-estar da sociedade e com a radicalização dos espíritos.

Atalantico: Quais seriam as consequências para a direita francesa? Numa tal configuração, qual será a sua escolha pessoal, e como conta participar, ou não, na renovação da sua corrente política?

Henri Guaino: Tudo depende do que acontecer na eleição presidencial e nas eleições legislativas. Se realmente a vida política se estruturar em redor desta linha de Frente, já não haverá mais direita francesa no sentido em que a ouve hoje pronunciar, isto é, no singular. E também não haverá mais esquerda no singular. Ver-se-á de uma maneira ou de outra a explosão do Partido socialista e da UMP que se intitulam hoje Os Republicanos. Será o fim destes grandes cartéis eleitorais que não poderão resistir às suas tensões internas. O Partido socialista será esquartejado entre a esquerda da esquerda e a esquerda macroniana. Os Republicanos serão esquartejados entre a Frente nacional e a direita macroniana. Uma outra paisagem política pode emergir destes escombros com correntes políticas cuja identidade será mais afirmada e que concluem alianças eleitorais em vez de perderem a sua personalidade e a sua alma, assentando em aparelhos unicamente dedicados à conquista do poder.

Talvez se possa voltar a ver duas famílias que se assemelhem com o RPR e a UDF de outrora,  com um polo gaulista ou gaulista-bonapartista e um polo europeu liberal. Não é esta, no fundo, a velha corrente gaulista-bonapartista que estruturou durante muito tempo as direitas, cujo desaparecimento organizado permitiu que uma grande parte do espaço político tenha sido ocupado pela Frente Nacional?

De qualquer forma, entre a Frente Nacional e o centro, há uma direita que deve libertar-se e escolher o seu destino entre um ideal que seria semelhante ao Gaulismo e uma deriva à direita que iria colocá-la a reboque da Frente Nacional.

Atlantico: Opõe-se regularmente uma clivagem esquerda-direita que pode ser ultrapassada por uma clivagem “abertura-fechamento”, quais são, na sua opinião, as causas de uma tal viragem ideológica? Quais são as condições para um regresso à divisão tradicional?

Henri Guaino: Nós já não temos de escolher entre o comunismo e a liberdade. Mas o erro foi acreditar que a queda do Muro de Berlim significava que a história e a política tinham acabado. Como se a gestão viesse substituir a tragédia. Como se o aprofundamento da democracia e do mercado fosse agora o único trabalho a fazer para tornar a humanidade feliz. E esquecemo-nos de tudo o resto: das razões de vivermos juntos, de partilhar um destino comum, de sermos também solidários, mas, ao mesmo tempo, daquilo que faz a legitimidade da autoridade, de um poder, seja ele político, económico, jurídico, cultural, moral, espiritual.

São pois os alicerces da civilização que foram abalados sem que nunca tenha sido possível debater esta questão porque, não será isto verdade, só havia direita e esquerda e nada mais que isso.

Mas quando não se podem pôr estas palavras ou pensar sobre um tal mal-estar, quando este é excluído do debate público, quando a política o ignora, quando a arte de governar o afasta, nada mais resta senão o radicalismo e a violência para o exprimir. Quando a política deveria proceder da reflexão mais profunda porque já não há consenso sobre os princípios, os valores, a relação com o mundo, a relação com os outros, ela, ao contrário, torna-se cada vez mais superficial, síntese já não do pensamento e da ação, mas da gestão e da comunicação. Daí que o retorno brutal dos recalcamentos seja inevitável. Isso é o que nós vivemos com a crise da política que afeta o Ocidente em geral e a França em particular.

Atlantico: Que vos inspira a forte subida de Jean Luc Mélenchon destes últimos dias? O candidato da França Insubmissa é o único a ter sabido “captar” a tensão relativa ao alargamento das desigualdades?

Henri Guaino: Acredito que seja apenas isso. Certamente, há as desigualdades. Mas sobretudo ele coloca em evidência a fraqueza dos outros porque Jean‑Luc Mélenchon, independentemente do que se possa pensar das suas escolhas ideológicas, faz  precisamente política dando um lugar importante à reflexão, ao pensamento. Não faz nenhuma concessão sobre o terreno da linguagem, nem sobre o da exigência intelectual que nos impõe o profundo mal-estar contra o qual a política é confrontada. Mélenchon faz política como todos a deveriam fazer. É hoje o único candidato a mobilizar inteligência e cultura. E é impressionante que os franceses quando são interrogados digam que o compreendem melhor do que aos outros. Nunca se ganha nada em baixar o seu nível de exigência no debate político. Talvez as pessoas sintam que um menor grau de exigência no que lhes diz respeito revele uma falta de consideração para com elas.

Atlantico: Na noite de quinta-feira, Donald Trump escolheu bombardear uma base síria. Qual é a sua reação em relação a esta reviravolta?

Henri Guaino: Inquieto. Donald Trump é decididamente também um dos rostos do mal-estar do Ocidente, da crise intelectual e moral que atravessamos. Quando se é o chefe do país mais poderoso do mundo, quando se é o chefe da mais poderosa armada do mundo, não se toma decisões desta natureza por dá cá aquela palha! Simplesmente porque se fica comovido pelas imagens que passam na televisão. É necessário ganhar alguma distância, algum recuo, refletir, pesar as consequências. Régis Debray diz “o homem de Estado é o que quer as consequências do que ele quer”. Senão, quando se tem um tal poder e se trate de questões tão graves, o perigo é imenso. Porque bombardear uma base aérea num outro país não é uma decisão que se tome sozinho por simples capricho. Não sei se foi realmente o caso, mas é realmente a impressão que tudo isso dá.

Atlantico: Que pensa do apoio dado pela França e pela Alemanha, por François Hollande e Angela Merkel a este bombardeamento?

Henri Guaino: Há uma forma de pusilanimidade nesta reação que é irresponsável porque conforta Donald Trump no sentimento de que pode permitir-se tudo. Alimentar esta embriaguez da omnipotência é sempre perigoso.

Além disso, é necessário que nos interroguemos sobre um sistema político que já só permite que se exprima a revolta de um povo senão pela eleição de um personagem como Donald Trump. Este questionamento leva-nos de volta à nossa própria eleição presidencial, uma ninguém se interroga mais sobre o que deve ser um presidente da República, porque no fundo o que conta é que um nome saia do chapéu e, depois logo se verá. Os mais otimistas, que não acreditam na importância da política, pensarão que não é grave. Os mais lúcidos dirão que numa altura em que o trágico da História nos ressalta para a cara, as consequências podem ser muito pesadas e que um sistema que produz tão poucos homens de Estado dignos deste nome é mortífero. A história não nos ensina ela a que tipo de desmoronamento uma tal redução da política conduz sempre as nossas Democracias? Ao vermos o desenrolar da nossa eleição presidencial dir-se-ia que infelizmente tudo se passa como se em política nunca se aprenda nada.

Leia o original em http://www.atlantico.fr/decryptage/henri-guaino-second-tour-macron-pen-serait-dramatique-car-aurait-plus-place-pour-moindre-pensee-qui-prenne-en-compte-complexite-3013865.html#0Z1SPIlIUWZKjCVi.99

 

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