EDITORIAL: Ceci tuera cela?- por Carlos Loures

 

Imagem2No seu romance «Nossa Senhora de Paris», Victor Hugo formula esta afirmação pela boca de um sacerdote que com a catedral à vista, folheia um incunábulo – Isto vai matar aquilo. A educação religiosa da família baseava-se muito nas esculturas e baixos-relevos que o interior do templo ostentava, Pais de família explicavam as Escrituras baseando-se nas expressivas imagens. Esposas e filhos escutavam a explicação, geralmente dada nas manhãs de domingo, após a missa. Ora, a prensa de Gutenberg, pondo ao dispor de todos a palavra divina «matava» a narrativa de pedra. A ideia de que as novas tecnologias da informação irão acabar com o livro, cada vez mais se revela errada. E a televisão? A televisão matou a rádio?

Num pequeno poema dedicado ao receptor de rádio, Bertolt Brecht deseja que as válvulas não se danifiquem e permitam que os inimigos possam continuar junto da sua cama a  dar-lhe conta das suas vitórias e, diz ele – as vitórias dos inimigos são as nossas preocupações. Porém, deseja que essa voz “The last thing at night, the first thing in the morning, a última coisa que ouve à noite e  a primeira que escuta de manhã” não fique de repente em silêncio..

A Ditadura Nacional, que depois deu lugar ao chamado Estado Novo, instalou-se um ano depois de a rádio iniciar as primeiras emissões regulares. As ondas radiofónicas foram amplamente usadas como mais um instrumento de repressão – a Emissora Nacional, o Rádio Clube Português, a Rádio Renascença, eram vozes que, usando a expressão de Brecht, multiplicavam as vitórias do salazarismo e aumentavam a nossa preocupação – a ditadura parecia não ter fim.

Até os aspectos aparentemente inócuos eram aproveitados – as canções, por exemplo. Mário Castrim designou por “nacional-cançonetismo” uma vaga de artistas que disputavam entre si os favores de um público e que o regime contrapunha aos cantores de intervenção que desde o princípio dos anos 60 começavam a aparecer. A Guerra Colonial punha laivos de drama na tragicomédia salazarista, enlutando dividindo famílias – mortos em África e emigrados – quase toda a gente tinha. E foi então que as rádios clandestinas apareceram. Vozes que vinham de longe e falavam das derrotas do fascismo e das nossas vitórias – às vezes exagerando. E uma noite…No Rádio Clube Português aquele de onde, bêbedo e obsceno, Queipo de Llano insultara a democracia e que fora o alvo da «Operação papagaio», uma noite de Primavera vieram palavras que todos esperávamos há muito tempo.. Na Ordem de Operações o RCP tinha o nome de código de MÉXICO. Diz, Otelo em Alvorada em Abril:

«Toca o telefone civil no posto de comando.– Fala ÓSCAR – atendo.– Aqui Grupo Dez. Informo MÉXICO conquistado, sem incidentes – diz Santos Coelho do outro lado do fio.Okay. Mantenham emissão normal. Preparem leitura primeiro comunicado hora prevista.Coloquei o telefone no descanso.– Já temos emissor – disse aos camaradas – O Rádio Clube é nosso. São três horas e vinte minutos da manhã»

O papel da rádio continua a ter um grande protagonismo como meio de informação e como meio de difusão cultural. Muitas vezes, a informação radiofónica completa a informação visual que a TV proporcionou. Nem sempre uma imagem vale por mil palavras.

Temos entre nós um amigo com grande saber nesta área específica da cultura. Dentro de dias, iniciaremos uma série por ele organizada na rubrica A NOSSA RÁDIO.

Bertolt Brecht

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: