CARTA DO RIO – 150 por Rachel Gutiérrez

De volta à casa, a este Brasil tumultuado e violento, penso em minha  experiência no Teatro Alla Scala de Milão como uma extravagância quase surrealista. Sim, o contraste não pode ser maior: em Milão, conheci finalmente o tão famoso templo da Ópera, onde já foram produzidos centenas de espetáculos desde sua inauguração, em 1778!  E a obra de Rossini, que tive a oportunidade de assistir foi La Gazza Ladra, (que traduzo livremente como A Gralha Ladra porque o considero mais palatável do que A Pega Ladra).

Apresentei-me na bilheteria do Teatro apenas com uma folha impressa que comprovava minha compra da entrada pela internet. Para meu alívio, não houve qualquer problema e recebi o ingresso para o lugar escolhido por mim, no primeiro assento de um pequeno camarote do terceiro andar do maravilhoso teatro.  Mal tive tempo de ler um pouco sobre o libreto de Giovanni Gherardini, sobre as carreiras dos solistas, ou sobre o atual diretor e regente Ricardo Chailly.  Às 20h em ponto começou a conhecida Ouverture.

Rossini (1792-1868) compositor do início do século XIX, é considerado o pai do melodrama italiano com sua ópera La pietra del paragone, cuja estréia ocorreu em 1812. Mas suas obras mais interessantes, acredito, são Il barbiere di Siviglia e Guillaume Tell, que eu certamente teria preferido assistir, ao invés da ingênua e pueril La gazza ladra. Mas já foi uma façanha  ter conseguido uma entrada com mais de um mês de antecedência, graças à ajuda de um querido amigo italiano.

O libreto não pode ser mais inverossímil: uma empregada apaixonada (e correspondida) pelo filho do patrão, recebe a visita de seu próprio pai, desertor e foragido que ela procura proteger e por causa de quem é injustamente acusada de ter roubado uma colher de prata, o que a leva a ser condenada à morte! E para mal de seus pecados, é várias vezes assediada pelo prefeito, o chefão todo poderoso da cidade.  Apesar de tudo, a donzela é salva no último momento: seu pai é perdoado e ela casa-se com o filho do patrão. E descobre-se, afinal, que a autora do roubo da colher de prata foi uma gralha (gazza) que havia fugido da gaiola…

Na récita a que assisti, a gralha apareceu logo durante a execução da Ouverture, representada por uma acrobata, malabarista, que se exibiu subindo e descendo e equilibrando numa corda sua incontestável agilidade. Mas, para minha total surpresa, ao final da execução, aos aplausos esperados, juntaram-se assovios e vaias. O público não aprovou, aparentemente, o malabarismo da acrobata. A cenografia, com toques modernos talvez demasiado ousados e dissonantes com o enredo simplório do século XIX não parece ter convencido a exigente plateia. Nem a mim. Também não creio que tenha agradado a utilização de marionetes que ao invés de enriquecer a narrativa pareciam interrompê-la. É preciso dizer, no entanto, que os cantores foram todos convincentes, expressivos, e, por vezes capazes de nos emocionar. A música vibrante e cheia de energia compensou a fragilidade do libreto.

No fim de contas, foi uma bela escapada para o reino da fantasia, da arte e da beleza para quem acabava de sair de um país conturbado pelos seus incontáveis escândalos de corrupção. E uma grande ironia: na ópera, a heroína fora condenada à morte sob a acusação de ter roubado uma colher de prata!

De volta ao Brasil, ao rever com mais cuidado o programa do espetáculo, descobri que o tenor que fez o papel principal (e que se casa com a heroína na apoteose final) é um jovem de Rivera, a cidade do lado uruguaio da fronteira onde nasci. O excelente cantor, que se chama Edgardo Rocha, já desempenhou grandes papéis em inúmeros países da Europa e na América do Norte e acaba de ser contratado para contracenar com ninguém menos que Cecilia Bartoli, a famosíssima soprano-coloratura, com quem fará uma turnê, interpretando Una favola in diretta, outra ópera de Rossini. Fiquei muito feliz com a  encantadora coincidência.

A realidade, no entanto, pesa mais do que todas as escapadas e alegrias. Encontrei o Rio de Janeiro mais violento do que nunca, as pessoas que moram nas periferias e precisam trabalhar correm quase tantos riscos quanto os que enfrentam a guerra na Síria, tal é o agravamento do caos provocado pelos conflitos entre as facções de traficantes. No país, a crise da econômica continua tão grave quanto a da política.

Felizmente, do mundo e da França, chegou há pouco, neste 7 de maio,  uma rajada de esperança: Emmanuel Macron derrotou a extrema direita de Marine Le Pen! Foi emocionante vê-lo marchar sozinho, na esplanada do Louvre, ao som da Ode à Alegria da Nona Sinfonia de Beethoven.

Tenho mais coisas a contar sobre a viagem à Itália ainda na região milanesa:  o Laco di Como, Piacenza, uma pequena cidade adorável e a visita ao  feudo dos Visconti.

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