CONSTRUIR PONTES por Luísa Lobão Moniz

À medida que crescemos, vemos, ouvimos e lemos o que se passa à nossa volta e ao que acontece lá longe.

Lembro-me de se dizer às crianças “Come tudo. Há muitos meninos que passam fome e tu a deitares fora….”

Esta chantagem psicológica dava a muitas crianças um sentimento de culpa de que não era merecedora.

Crescemos, e os meninos barrigudos do Biafra não deixam a nossa memória colectiva. Biafra fica tão longe…

Bairros segregados pululam à volta das grandes cidades e reproduzem-se, com outras características, umas mais positivas do que outras relativamente às várias inclusões sociais, familiares, escolares…de vizinhança…

Nestes bairros é vergonha passar fome, apesar de servir, até à exaustão, para ter uma casa da C.M.Lisboa.

Nestes bairros o que é vergonha é não haver, efectivamente, o cumprimento do direito à Habitação.

Lá longe caem aos pedaços prédios e casas, há cidades que já o foram…”mas eu ainda estou à espera que a Câmara me dê uma casa.”

Quando conseguem o direito a essa casa são alvos de maledicência porque se cria um sentimento de injustiça, relativamente aqueles que também precisam de melhor tecto. A burocracia, e quantas vezes, alguma invejazinha, porque as casas da Câmara são melhores do que a casa dos atribuidores.

“ O galo da vizinha é sempre melhor do que o meu”

“ O ovo da minha galinha é sempre maior do que o teu”

Em tudo, durante as nossas vidas, o sentimento de finitude da Humanidade provoca ansiedade perante um direito que nunca mais se concretiza… mas no qual se acredita.

O planeta Terra está a sofrer alterações climatéricas que “baralham” a sequência das estações do ano. Já nenhuma se pode caracterizar como as conhecemos. Como se irá estudar as mudanças climatéricas? Como se irão adaptar os bandos de andorinhas que apareciam na Primavera? Como vão reagir as plantações de cereais?

O cidadão comum não sabe responder, nem eu.

Como se irá organizar a economia? O que vai acontecer às democracias tal como as conhecemos?

Comecei por pensar no que está perto e no que está longe. Terão o mesmo significado para todos os habitantes da Terra, da Europa, de cada país europeu.

Cada um de nós tem dentro si o perto e o longe, não esquecendo que o perto é o longe e que o longe pode ser o perto.

Na Educação Social das sociedades o longe aparece como uma ameaça, nem que seja a por causa da sopa.

O longe é diferente e, se calhar, quer vir para os nossos países à procura da felicidade prometida. “O Sol quando nasce é para todos”, mas quem são o todos?

No século XXI, tal como noutros séculos, as populações já não correm para a porta da felicidade, mas para as portas de alguma segurança, fogem das guerras, da fome, dos maus tratos, do abandono, das dores corporais e existenciais.

Hoje fogem da Síria, ontem os europeus fugiram das Guerras na Europa. Todos têm algo em comum, os olhos tristes e magoados, a crença num mundo melhor.

Calhou a mim e a ti desmontar preconceitos, xenofobias, discriminações (seja ela qual for), coube-me a mim e a ti chamar mais alguém para esta luta contra o abuso das vulnerabilidades das mulheres e dos homens, contra as desigualdades e a favor do reconhecimento positivo de cada um.

Cabe a todos a responsabilidade, enquanto cidadãos, de construir pontes entre os diferentes.

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