CARTA DO RIO – 153 por Rachel Gutiérrez

Mais escândalos, mais denúncias e delações. E a impressão de que continuamos mergulhados numa espécie de pântano com as dimensões continentais do nosso país. Fernando Gabeira intitulou o seu artigo dominical como O caos nosso de cada dia; Merval Pereira chamou o dele de Nossos malvados preferidos; e Elio Gaspari escreveu sobre As muitas badernas de Brasília. Ontem, a escritora Ana Maria Machado havia escrito sobre Afronta e indignação; Zuenir Ventura se disse À espera da razão ética; enquanto Cristovam Buarque recomendava: Rejuvenescer a juventude. E o noticiário internacional mencionou os últimos tumultos ocorridos na capital e a falta de credibilidade do agonizante governo de Michel Temer.

Porém, como se tivesse ouvido algum conselho de minha amiguinha Esperança, decidi que não escreveria sobre nada disso, mas em louvor de  uma grande Sala de Concertos flamejantemente reformada, de seu novo diretor e do recital de canto e piano, que assisti no fim desta brumosa tarde de domingo. Pois, no meio de todo o lodo do nosso pobre Rio de Janeiro, eis que refloresce a Sala Cecília Meireles, mais uma vez sob a direção entusiástica de meu querido amigo Miguel Proença, o celebrado pianista nascido, como eu, no longínquo e belo pampa das terras gaúchas.

O cantor que ouvi – Atalla Ayan – é um brasileiro de renome internacional, que nasceu em Belém do Pará e se apaixonou pelo bel canto ouvindo gravações de Luciano Pavarotti. Como o inesquecível italiano, o paraense possui uma poderosa voz de tenor e sua estreia europeia se deu como o Rodolfo da La Bohème, de Puccini. Membro do Met de Nova York, Ayan já se apresentou igualmente em Londres, na Royal Opera House, no Covent Garden, bem como nos melhores teatros de Genève, de Bologna, de Berlim, de Stuttgart etc. No recital que assisti, sua parceira foi a pianista e maestrina Priscila Bonfim, cujos estudos iniciais foram realizados em Portugal, que trabalha como pianista do Theatro Municipal e também como maestrina do Coro e Preparadora da Academia de Ópera Bidu Saião.

Um concerto, como uma viagem, é uma lufada de ar fresco para os nossos corações e mentes. Mais ainda quando o programa inclui Mozart, Beethoven, Rossini, Donizetti, Bellini e Massenet, Paolo Tosti e outros.

Em Milão, no Alla Scala, tive a oportunidade de ouvir, como já contei,  um tenor do pampa uruguaio; no Rio, na querida “Sala”, pude me encantar com o tenor paraense, que recebeu do público carioca a mais calorosa acolhida. Vária vezes aplaudidos de pé, cantor e pianista ouviram muitos bravos da plateia entusiasmada. Após o programa, o primeiro bis teve um gesto inusitado e simpático do jovem tenor, que chamou ao palco um cantor popular que se encontrava na plateia, Márcio Gomes, que também possui uma bela voz. Então cantaram, em dueto, o tango de Carlos Gardel El dia que me quieras. Foram ambos aplaudidíssimos, é claro.

Num segundo bis, Atalla Ayan cantou ainda, com todo o vigor de sua voz potentíssima, uma ária de La Bohème. Estrondosos aplausos e bravos se fizeram ouvir mais uma vez.

Como não sentir gratidão diante de artistas que nos proporcionam momentos assim, tão felizes? De um bom concerto, saímos sempre mais leves e ao mesmo tempo mais vivos, rejuvenescidos, convencidos de que a música é um alimento indispensável para a nossa saúde mental e espiritual. De um concerto como o que relembrei aqui sai-se literalmente “com a alma lavada”. Nessa trégua que a arte nos concede nos refazemos dos escândalos, das mazelas e da violência da realidade contemporânea. Por alguns preciosos momentos, ficam longe os atentados dos terroristas, os crimes, o vandalismo dos populistas e os desmandos dos nossos políticos. Tem-se a ilusão de despertar, por alguns instantes, do pesadelo da História a que se referiu James Joyce. Nesses preciosos momentos é como se tivéssemos um vislumbre de um mundo melhor. E podemos, então, nos orgulhar de um povo que apesar de todos os seus problemas continua a produzir arte e beleza.

Mais tarde, jantando com um amigo, no restaurante  La Fiorentina, que fica no meu bairro do Leme e é o preferido de maioria dos artistas, pude cumprimentar Miguel Proença, que ali fora também festejar, com a família e com os músicos, o grande sucesso do espetáculo.

 

 

 

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