De uma crise a outra, dos anos de Mitterrand aos anos de Hollande, da tragédia de outrora à farsa de agora: Uma outra série de textos 3ª Parte: Os tempos da ascensão de Hollande, tempos do desprezo. Texto 3.3 – Entrevista sobre o relatório Terra Nova: O que resta da maioria política sobre a qual o think tank Terra Nova convidava a esquerda a tomá-la como a sua base de apoio?

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

3ª Parte: Os tempos da ascensão de Hollande,  tempos do desprezo

Texto 3.3 – Entrevista sobre o relatório Terra Nova: O que resta da maioria política sobre a qual o think tank Terra Nova convidava a esquerda a tomá-la como a sua base de apoio?

Entrevista feita por Atlantico a François Chérèque(*) e a Guillaume Bernard(*), publicada em 6 de maio de 2013.

O think thank Terra Nova teve alguma influência durante as primárias do Partido Socialista. A estratégia eleitoral que este think tank sugeriu ao Partido Socialista – apoiar-se sobretudo nos eleitores diplomados e nas minorias mais do que sobre a classe trabalhadora – ainda tem relevância hoje? Vejamos o que sobre isto nos dizem François Chérèque e Guillaume Bernard.

Atlantico: o think tank Terra Nova teve alguma influência durante as primárias do PS e, em menor grau durante a campanha de François Hollande. Um relatório, intitulado “Gauche, quelle majorité électorale pour 2012”, (Esquerda, que maioria eleitoral para 2012) preconizava que o PS se virasse para as pessoas “diplomadas”, para “os jovens“, para as “minorias” e para as “mulheres“, em vez dos trabalhadores e das classes trabalhadoras. Um ano, dia após dia, depois da eleição de François Hollande, o que é que resta desta maioria sobre a qual Terra Nova convidava a esquerda a tomá-la como a sua base de apoio ?

François Chérèque: o senhor faz uma interpretação maliciosa deste relatório da Terra Nova. Não se tratava de abandonar as classes populares mas sim de sublinhar a importância de também abordar uma parte da população que a esquerda tende a ignorar. Estes que ganham demasiado para terem acesso a habitação social ou a alguns benefícios sociais mas ainda não o suficiente para ficarem a residir no centro das cidades. Eles têm a sensação de serem relegados para a periferia das grandes cidades, de serem esquecidos pelas políticas públicas e vítimas de uma desclassificação social. Quando às classes populares estão constituídas cada vez mais frequentemente por jovens e pelas mães a viverem sozinhas com os filhos. Esta análise é válida ainda hoje, os resultados das eleições provam-no e as prioridades do governo devem também dirigir-se a eles.

Guillaume Bernard: Esta estratégia é o resultado da conceção contratualista da sociedade que rodeia toda a classe política ou quase. Além do facto de que seja intelectualmente questionável, esta conceção artificial dos laços sociais apresenta , em termos de análise sociológico-política, uma fraqueza bem real: como os vínculos sociais são supostos serem construídos por um encontro de vontades, é muito difícil para os defensores desta ideologia entenderem as razões “ontológicas” de coesão ou, inversamente, da desintegração dos vínculos sociais. Eles só concebem a sociedade como um encontro de interesses particulares (o todo não existe enquanto tal mas não é senão a soma das partes) e recusam-se a considerar que a sociedade seja antes de tudo feita não de direitos (liberdades ou créditos) justapostos mas sim feita de relações, de interações e de atribuições (em função dos méritos).

Ora, em determinadas situações, a sociedade está em harmonia mas, com determinadas relações de força, os desequilíbrios podem prevalecer e podem fazê-la implodir.

Veja-se a questão da imigração: considerar que ela possa ser fator de desintegração social é automaticamente analisado como racismo uma vez que nunca existe, para esta ideologia, qualquer identidade própria (que ultrapassa os cidadãos do momento), mas apenas uma identidade feita de justaposição de identidades particulares que estão presentes num momento dado no território de uma Nação. Da mesma forma, veja-se o argumento contra os opositores do casamento gay: a posição destes não seria legítima uma vez que não lhes é retirado nenhum direito; portanto, eles são “homofóbicos”, uma vez que se recusam a que os gays tenham os mesmos direitos que os heterossexuais.

Os ideólogos do contratualismo social são surdos ao argumento segundo o qual um homem não pode desempenhar o papel (social, concreto, e não jurídico e abstrato) de uma mãe ou, contrariamente, uma mulher não pode desempenhar a função de um pai. A ideia de Terra Nova consiste em construir uma maioria por uma adição de minorias (supostos “bem-pensantes”) enquanto que as categorias populares, porque desejam permanecer enraizadas, devem ser deixadas de lado, abandonadas ao seu triste destino “de reacionários”. É assim que o discurso político foi segmentado, de maneira a poder ser dirigido a diversas “comunidades” ao mesmo tempo que satisfaz algumas das suas reivindicações. Como o homem François Hollande não era, ao que parece, particularmente favorável ao casamento homo, o candidato Hollande integrou esta ideia no seu programa para captar um certo eleitorado. Por discutível que esta estratégia seja deontologicamente, ela funcionou em parte dado que 90% dos “muçulmanos” teriam votado pelo candidato socialista. Mas, o mais delicado é, evidentemente, ter de gerir, seguidamente, por um lado, as incompatibilidades possíveis entre diferentes promessas e, por outro lado, conservar e fidelizar eleitorados meramente “clientelistas”.

 

Atlantico: Hoje, as sondagens mostram que as classes populares, que François Hollande tinha em parte conseguido reconquistar durante a campanha, são os primeiros a afastarem-se do presidente da República. Além disso, François Hollande não tem a maioria necessária para fazer passar certas reformas preconizadas por Terra Nova como a do direito de voto dos estrangeiros. Pode-se falar de derrota ideológica de Terra Nova? Ou pelo contrário é a confirmação que o eleitorado popular está definitivamente perdido para o PS?

François Chérèque: Os senhores fazem uma amálgama engraçada entre reformas de tipo direito de voto dos estrangeiros e apoio das classes populares. Como se uma reforma vá obrigatoriamente a par com a outra! A deceção das classes populares tem primeiro que tudo a ver com o aumento do desemprego, com a perda de peso da indústria e com o sentimento de que o governo não faz o suficiente para dar resposta ao problema. O encerramento de uma parte da siderurgia de Florange e Pétroplus fazem mais pelo sentimento de desagrado destas populações que o debate sobre o voto dos estrangeiros. Mas quanto a este tema é a ausência de maioria que bloqueia a modificação constitucional, isto chama-se: a democracia parlamentar. Pode-se fazer sem ela?

Guillaume Bernard: Ainda que uma parte dos eleitores seja suscetível “de ser determinada” nas suas escolhas (por fatores socioeconómicos), grande parte deles são “flutuantes”: pronunciam-se em função das circunstâncias e da oferta eleitoral que lhes é proposta. As categorias populares que Nicolas Sarkozy soube captar em 2007 afastaram-se dele em 2012; mas, isso não significa que aderiram à personalidade e ao programa do seu concorrente. A espetacular (porque rápida e muito importante) queda da quota de popularidade do presidente da República é bem o seu sinal. Contudo, é difícil dizer que um clã terá “definitivamente” perdido um eleitorado dado que os resultados eleitorais dependem, em grande parte, das forças em presença: um partido só é o que é (em especial o seu discurso e a sua imagem) porque está integrado num sistema partidário, ou seja, evolui no contexto de relações de concorrência com outros partidos. Contudo, porque a esquerda moderada é “pró-europeísta ” e a extrema‑esquerda é “pro-imigracionista”, a esquerda como um todo vai provavelmente ter dificuldades em atrair e fidelizar, em termos de médio e longo prazo, o eleitorado popular que considera a mundialização como sendo um perigo. Contudo, para o construtivismo, não há nunca derrota ideológica, há simplesmente malogros eleitorais aos quais é perfeitamente possível sobreviver.

Atlantico: É a morte prematura do fundador da Terra Nova, Olivier Ferrand, um fator explicativo do que parece ser o fracasso desta estratégia?

François Chérèque: A morte de Olivier Ferrand é principalmente uma tragédia para a sua família e para as pessoas que fazem a Terra Nova diariamente. É evidente, que ele faz falta hoje no debate da renovação das ideias à esquerda. Terra Nova tem sempre defendido e continua a defender a aplicação de reformas nas estruturas do nosso modelo económico e social. Estas reformas não se fazem num só ano. Portanto, ninguém pode dizer hoje que esta estratégia está a falhar. O tempo da eficácia das reformas é um tempo longo. O tempo do desejo de satisfação dos cidadãos é um tempo curto. Como é que os podemos conciliar?

Guillaume Bernard: O fundador de um movimento tem, incontestavelmente, um papel motor tanto na dinâmica intelectual como na visibilidade do próprio movimento. E isto, tanto mais que a França não tem uma grande prática de think tanks. A ciência política considera que uma organização atingiu a sua maturidade, quando esta sobrevive à partida (não necessariamente morte) do seu ou dos seus fundadores: isso prova que adquiriu raízes sociais para além do carisma de uma personalidade. Será possível saber se Terra Nova desenvolveu ideias profundamente integradas por uma parte do pessoal político, se este utilizar novamente as suas recomendações em futuras eleições ou se suas ideias forem retomadas por outras estruturas. Pessoalmente inclino-me pela afirmativa.

Atlantico: Centrando-se a estratégia do PS nas questões identitárias e de sociedade mais do que sobre as questões económicas e sociais, o think tank Terra Nova terá contribuído de alguma forma para o agravamento do fosso entre as elites e o povo e para os ganhos eleitorais da Frente Nacional?

François Chérèque: Os senhores fazem uma leitura engraçada quanto às propostas de Terra Nova destes últimos anos. Recuso esta visão que nos acantona a uma postura societal sem nos preocuparmos com a desqualificação do nosso país comparado com alguns dos nossos vizinhos. Além disso, opor reformas de sociedade a reformas sociais não tem sentido e é ainda uma vez mais recusar ver a França como um todo. Terra Nova tem defendido desde a sua criação uma reforma da fiscalidade, uma reforma sistémica das pensões de reforma, uma outra do nosso sistema de saúde e uma nova etapa de descentralização, entre outras.

No que é que isto será antinómico com o casamento para todos e com o direito de voto dos estrangeiros? Exceto se se tem uma visão retrógrada da nossa sociedade, tudo deve ser tido em conta.

Guillaume Bernard: Ao promover as “minorias” contra a nação e os “educados” abertos contra os “franceses vulgares e incultos”, a estratégia de Terra Nova ajuda, é claro, a aumentar a fratura entre o povo e as elites, pelo menos, uma grande parte delas (porque há também exceções). No entanto, a dicotomia que Terra Nova estabelece entre as questões identitárias e as questões de sociedade de um lado e económicas e sociais por outro é, talvez, um tanto questionável. Basicamente, esta dicotomia não é sustentável. Há uma mesma lógica que anima o conjunto de questões que a dicotomia em si representa: progressismo, um termo elegante para substituir uma palavra que entrou em desuso e se tornou mesmo um pouco suspeita, a utopia. Haveria aqui como um certo sentido da história que levaria necessariamente ao “paraíso terrestre” (crises sendo apenas momentos fugazes). A ambição do construtivismo é pois a de apressar a realização de uma sociedade onde o homem seria, finalmente, totalmente livre, porque solto dos constrangimentos sociais particularizantes, o que equivale a dizer desenraizado: o multiculturalismo ( pondo em relevo as questões identitárias e as questões sociais) e a globalização (pondo em relevo as questões sociais e económicas) contribuem de forma diferente, mas funcionam em conjunto.

O comunitarismo parece, à primeira vista, contrário ao ideal de um homem descontextualizado, mas é possível interpretá-lo como um instrumento ao serviço da identidade herdada pelo país. Da mesma forma, o casamento gay pode parecer como sendo totalmente anacrónico numa época de famílias recompostas , mas pode também ser analisado como um meio (de que o lóbi gay estaria, talvez, ele próprio um pouco iludido) de desarticular as relações intergeracionais, tornando-as totalmente artificiais: cada geração recomeça a sociedade e já não é a herdeira das gerações precedentes.

Atlantico: Para se ter sucesso nos próximos quatro anos do quinquénio presidencial, deveria a esquerda reformular completamente o seu software do pensamento, [digamos, a sua forma de pensar e equacionar as questões sociais e económicas]? Em que direção e para constituir que maioria?

François Chérèque: A Comissão Europeia reconheceu que o rigor excessivo e a obsessão de 3% para o défice desde 2013 sem políticas de investimento na atual situação económica bloqueava a esperança da retoma económica. O governo deve aproveitar esta oportunidade para levar a cabo as reformas que consideramos necessárias e que mencionei anteriormente, para ter sucesso amanhã e para que haja mais justiça social. Para isso é necessário coragem e fazê-lo com a maioria que esteja disponível para as apoiar.

Guillaume Bernard: Porque é que a esquerda mudaria ela de “software do pensamento” uma vez que ela considera encarnar a justiça? Para a doutrina dos direitos humanos, todos os homens têm a mesma natureza, e, portanto, têm todos os mesmos direitos. Mas a igualdade de oportunidades não parece suficiente para a esquerda; a política deve permitir a realização de uma verdadeira igualdade, igualdade de resultados. A herança, (seja familiar ou nacional) eis pois o inimigo! Se há disfuncionamentos na sociedade (como a delinquência) é porque o contrato social deixa subsistir ou promove mesmo as desigualdades.

Isso deve ser revisto de tal forma que as pessoas sejam – ao contrário do esquema contratualista liberal – completamente despojadas dos seus direitos individuais e que não tenham ou não disponham senão de direitos sociais distribuídos pelas autoridades públicas. É por isto que a visão do think tank Terra Nova sobre os laços sociais – defendida por aqueles que se proclamam “abertos” e “generosos” – não está em vias de desaparecer das mentes de esquerda: “moralmente”, não há outra solução que não seja, por um lado,  distanciarmo-nos daqueles que estão agarrados à defesa do seu património material (nível de vida) e sobretudo imaterial (estilo de vida) e, por outro, legitimar todas as reivindicações para a “igualdade” (mesmo se estas provocam, por contraponto, “discriminações negativas”).

Face a este esquema intelectualmente construído, é certo que a direita corre o risco de não convencer se ela apenas se opuser com um pragmatismo que pode aparecer como um fatalismo ou se se assumir como a defensora ou a cúmplice das desigualdades ilegítimas.

 

(*) François Chérèque, 1956-2017, sindicalista francês, secretário geral da CFDT de 2002 a 2012, foi presidente do conselho de administração do think tank Terra Nova.

Guillaume Bernard, palestrante no ICES (Instituto Católico de Estudos Superiores), professor. Autor e coautor de diversas obras [v.g. Les forces politiques françaises (PUF, 2007), Les forces syndicales françaises (PUF, 2010), le Dictionnaire de la politique et de l’administration (PUF, 2011), Introduction à l’histoire du droit et des institutions (Studyrama, 2e éd., 2011)].

Entrevista de Alexandre Devecchio, ver em:

http://www.atlantico.fr/decryptage/que-reste-t-majorite-politique-laquelle-terra-nova-invitait-gauche-appuyer-francois-chereque-guillaume-bernard-718076.html

 

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