CARTA DO RIO – 159 por Rachel Gutiérrez

Em meio a tantas notícias ruins, do mundo e do Brasil, esta novidade é uma extraordinária compensação: os versos da poeta, escritora e dramaturga Hilda Hilst acabam de ser finalmente reeditados. Já está nas livrarias, Da Poesia, livro com toda sua obra poética, inclusive textos inéditos, editado pela Companhia das Letras. Vários desenhos de Hilda, um posfácio inédito de Victor Heringer, textos de Lygia Fagundes Telles, Caio Fernando Abreu e uma entrevista que Hilst deu a Vilma Arêas e Berta Waldman, publicada no Jornal do Brasil, em 1989, completam a edição.

Sabe-se que Hilda Hilst (1930-2004) sempre gostou de arranjar confusão com editores – em várias entrevistas, ela os culpava pelo fato de sua obra ser mal distribuída. “Não consigo me acostumar com isso (a ideia de só ser lida depois da morte)”, lamentou, em entrevista ao Estado em junho de 1992. E seguiu: “Amigos dizem que eu devo aparecer na televisão, que devo frequentar a vida literária, brilhar. Mas o que deve aparecer é o meu texto”.

              O presidente do Grupo Companhia das Letras, Luiz Schwarcz, reconhece que a nova edição é uma reparação de um erro no passado – Hilda chegou a enviar os livros para ele no início dos anos 1990, buscando uma publicação pela editora, mas acabou rejeitada. “É a reparação de um erro cometido no passado”, diz o editor, agora – são 6 mil exemplares, número alto para os padrões brasileiros. “Na ocasião, a linha editorial da Companhia das Letras em poesia era bem mais restrita. Fico feliz em reparar esse erro e é uma pena que não tenha acontecido com a Hilda ainda em vida.”

Essa não é a primeira retomada editorial da obra de Hilst: em 2000, quando a escritora tinha 70 anos, a Globo começou a publicar suas obras completas com organização do crítico literário Alcir Pécora, processo que terminou em dezembro de 2014 com Pornô ChicDa Poesia é, porém, a primeira vez que seus 25 livros de poemas (entre Presságio, de 1950, e Cantares do Sem Nome e de Partidas, de 1995) estão no mesmo volume.

Sem qualquer modéstia, eis uma avaliação que Hilda fazia da própria obra, especialmente nos anos 1990: “Maravilhosa. Fico besta de ver como as pessoas não entendem o que escrevi”. Daniel Fuentes, presidente do Instituto Hilda Hilst, é claro, concorda. “Ela sempre esteve muito à frente do seu tempo, me parece que as vanguardas são absorvidas mais tarde mesmo. É uma obra fundamental da literatura brasileira.”

O que não nos impede, acrescento eu, de compará-la a outros grandes poetas e escritores. Suas culminâncias me fazem pensar nas maçãs de ouro e prata de Yeats ( the silver apples of the Moon / the golden apples of the Sun ) ou no  infinito que ressoa na poesia fulgurante  de Ungaretti (m’illumino d’immenso). E penso também que ela é parente de Colette e de Teresa d’Ávila, de Clarice Lispector e de Lou Andreas-Salomé, de George Sand e de Karen Blixen, sem deixar de ser ela mesma: originalíssima, inimitável e, para alguns, pouco acessível.

Folheio agora um de seus livros mais belos: Amavisse, dedicado à memória de dois grandes pensadores: Ernest Becker e Vladimir Jankélevitch.

  Amigos queridos da poeta, Ernest Becker  (1924-1974) foi um escritor e antropólogo cultural norte-americano, que se tornou muito conhecido ao receber (ironicamente pós mortem) o Prémio Pulitzer de Não Ficção Geral por seu livro A Negação da Morte; Vladimir Jankélevitch (1903-1985), foi um filósofo e musicólogo francês, que qualificava a vida como “um parêntese de sonho na rapsódia universal”, talvez apenas “uma melodia efêmera” recortada do infinito da morte, mas que por ter sido vivida subsiste como um “fato eterno que nem o desespero nem a morte podem aniquilar”. E ao pé da página da dedicatória, uma curta epígrafe:

                                     … ter um dia amado ( amavisse)

                                                Vladimir Jankélevitch

  Na página seguinte, outra epígrafe-poema diz nas duas últimas estrofes:

(…) Do verbo apenas entrevi o contorno breve:

É coisa de morrer e de matar mas tem som de sorriso.

Sangra, estilhaça, devora, e por isso

De entender-lhe o cerne não me foi dada a hora.

 

É verbo?

Ou sobrenome de um deus prenhe de humor

Na péripla aventura da conquista?

 

E no primeiro poema da primeira parte do livro, que se intitula, como o livro, AMAVISSE, os últimos versos dizem:

Não cantei cotidianos. Só te cantei a ti

Pássaro-Poesia

E a paisagem-limite: o fosso, o extremo

A convulsão do Homem.

 

Carrega-me contigo.

No Amanhã.

E foi com esse livro que ela se despediu de seus leitores para entregar-se a um movimento de raiva e revolta e escrever pornografia! Na quarta capa, onde ela aparece numa foto com o editor Massao Ohno,  lê-se:

O escritor e seus múltiplos vem vos dizer adeus.

Tentou na palavra o extremo-tudo (…)

(…) Poupem-no o desperdício de explicar o ato de brincar.

A dádiva de antes (a obra) excedeu-se no luxo.

O Caderno Rosa é apenas resíduo de um “Potlatch”. *

E hoje, repetindo Bataille:

“Sinto-me livre para fracassar.”

 

Retorno, agora, ao primeiro poema da segunda parte, VIA ESPESSA:

De cigarras e pedras, querem nascer palavras.

Mas o poeta mora

A sós num corredor de luas, uma casa de águas.

De mapas-mundi, de atalhos, querem nascer viagens.

Mas o poeta habita

O campo de estalagens da loucura.

 

Da carne de mulheres, querem nascer os homens.

E o poeta preexiste, entre a luz e o sem nome.

 

Não sendo crítica, não procuro contabilizar as assonâncias ou a métrica, nem sou capaz de “decifrar”um poema. O que me espanta e encanta em Hilda Hilst é a desenvoltura com que ela junta o injuntável, o disjunto, o díspare, o que só no sonho se congrega. E de repente tudo se combina, um novo mundo é criado, um cosmo onde o caos ainda ressoa presente, forte.

Para terminar o que foi apenas um passeio, copio ainda este poema que muito me emociona e que parece evocar um amor ferido, perdido e talvez  reencontrado:

(De AMAVISSE, IX 🙂

Amor chagado, de púrpura, de desejo

Pontilhado. Volto à seiva de cordas

Da guitarra, e recheio de sons o teu jazigo.

Volto empoeirada de vestígios, arvoredo de ouro

Do que fomos, gotas de sal na planície do olvido

Para reacender a tua fome.

 

Amor de sombras de ocasos e de ovelhas.

Volto como quem soma a vida inteira

A todos os outonos. Volto novíssima, incoerente

Cógnita

Como quem vê e escuta o cerne da semente

E da altura de dentro já lhe sabe o nome.

 

E reverdeço

No rosa de umas tangerinas

E nos azuis de todos os começos.

 

Como não sermos gratos a tanta beleza?

 

*”O potlatch é uma cerimônia com caráter de festa, no decurso da qual um chefe indígena oferece ostensivamente uma quantidade enorme de riquezas a um rival, para humilhá-lo ou desafiá-lo.

(… )Praticado no decurso de uma iniciação, de um casamento, de funerais ou de ascensão ao poder, o potlatch muda de forma segundo as tribos e segundo a importância de quem o organiza.”

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