Mais além dos truques das estatísticas….o exemplo de Espanha – Assim te manipulou a TVE desde que o Partido Popular chegou ao Governo em 2011 (II). Por Alejandro Torrús

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Seleção e tradução de Francisco Tavares

Mais além dos truques das estatísticas….o exemplo de Espanha – Assim te manipulou a TVE desde que o Partido Popular chegou ao Governo em 2011 (II).

Por Alejandro Torrús, jornalista e politólogo

Publico.es, 15 de fevereiro de 2017

(continuação)

A Venezuela como arma eleitoral

A campanha eleitoral de 26 de junho foi especialmente delicada. Pela primeira vez desde 1982, um partido político que não era nem o PSOE nem o PP tinha reais possibilidades de sair daqueles comícios com hipóteses de liderar um governo. E a máquina de lodo da RTVE pôs-se a funcionar a todo o gaz. Um dos temas favoritos foi a Venezuela e a situação de instabilidade de que sofre o país. 

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Nicolás Maduro

Tão só durante o mês de maio de 2016, ou seja, na pré campanha eleitoral, os dois principais telejornais da TVE 1 passaram 20 peças, 17 diretos/falsos diretos, 17 globais e 18 notícias breves sobre a Venezuela. Durante 19 dos 31 dias daquele mês houve sempre alguma notícia sobre aquele país caribenho em algum dos telejornais. Mas mais ainda, das 62 edições do TJ1 e do TJ2 de maio, em 35 delas, mais de metade, foi emitida alguma informação relacionada com a Venezuela. Catorze destas edições Venezuela foram emitidas nos sumários, quer dizer, foi considerada pelos responsáveis dos telejornais como uma das noticias más destacadas do dia.

No mês de junho até ao dia 26, em que se realizaram as eleições, em plena campanha eleitoral, a cobertura total sobre a Venezuela continuou na televisão pública. Uma simples busca na web da RTVE.es permite contabilizar até 12 peças informativas que dizem respeito direta ou indiretamente à Venezuela e que foram emitidas quer no TJ1, quer no TJ2, ou em ambos os canais.

A situação de caos que se projetou desde a RTVE sobre a Venezuela encontra sentido quando se relaciona com outras informações emitidas pelos telejornais públicos. Assim, durante o mês de junho a TVE deu várias notícias sobre as petições da Assembleia nacional da Venezuela para investigar o financiamento de Podemos; destacou, em pelo menos duas ocasiões, os comícios de Mariano Rajoy nos quais insistia na ideia de que votar no Partido Popular significava votar contra a instalação em Espanha de um modelo como o da Venezuela e seguiu passo a passo as tentativas da oposição venezuelana de conseguir a revogação do mandato do presidente Nicolás Maduro.

A partir da realização das eleições gerais em Espanha em 26 de junho, a Venezuela desapareceu da atualidade informativa. A simples comparação entre a quantidade de informação dada pela TVE 1 nos meses de maio e junho sobre a Venezuela e o seu total desaparecimento depois dos comícios permite sustentar a ideia de que a direção de informação  procurou influenciar a campanha eleitoral e, portanto, as eleições gerais através da televisão pública, que não pertence nenhum partido político mas sim a toda a sociedade.

A economia espanhola, um motor inesgotável

É possível, também, que se for um dos espetadores dos telejornais da TVE não tenha ficado a saber que a economia não está a funcionar assim tão bem como pretende o Governo. Pode ser que não saiba que os ‘ajustamentos’, como são chamados na televisão pública, provocaram uma descida extremamente importante na qualidade de vida de uma parte importante da população. Também é possível que não saiba que os dados de desemprego  continuam a ser insuportáveis. Sobretudo, é possível que não o saiba porque as explicações económicas da TVE não podem estar mais retorcidas para dar a sensação de que tudo vai bem. 

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Exemplos existem muitos. Muitíssimos. Por exemplo: os gráficos. Em 22 de janeiro de 2015 o espaço El debate de La 1, apresentado por Julio Somoano, apresentou um gráfico que não se ajustava visualmente à realidade (imagem acima). Era uma representação da evolução dos dados do desemprego, onde a curva marcava um mínimo enganador. O objetivo era colocar ao mesmo nível os 4.447.711 desempregados de 2014 com os 4.100.073 no final de 2009, quando ainda governava o PSOE.

Tão pouco era a primeira vez que a TVE se equivocava na  apresentação do desemprego. Em 2013, a cadeia pública também utilizou os dados como um ingrediente de um prato ao gosto do cozinheiro. A evolução desde janeiro até agosto desse ano foi visualizada de uma forma peculiar e parecia, à simples vista, que o desemprego se tinha reduzido quase a zero durante esses meses (Imagem abaixo).

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No mês de março de 2014, os telejornais esqueceram-se de assinalar que o relatório anual sobre o Fundo de Reserva da Segurança Social, que tinha sido entregue por Fátima Báñez, ministra do Emprego e da Segurança Social, no Congresso, indicava uma descida de 22% do fundo de pensões. Segundo assinalaram, então, fontes da casa, o Telejornal da 1 encomendou uma informação breve que afinal não foi emitida. “Ao cair essa notícia breve o erro de avaliação converte-se num evidente acto de censura”, afirmou o relatório do Conselho de Informação.

Em 2016 estas ‘desinformações’ foram constantes. A prática habitual foi a de apresentar aos espetadores uma tal amálgama de dados, números e percentagens que tornam impossível entender o que quer que seja e se não se entende nada é como se não se informasse. Neste sentido, chama a atenção o caso de 2 de setembro de 2016. Isto é literalmente o que disseram os telejornais daquele dia:  “Em agosto o desemprego subiu em um pouco mais de 14.400 personas e destruíram-se quase 145.000 empregos…. O número total de desempregados do mês passado… é o menor em agosto desde 2009…e a queda de inscritos constitui a maior perda de emprego… nesse mês desde 2008”. Vamos bem ou mal? 

Noutros casos a TVE o que faz é valorizar os dados económicos como se fosse ela o próprio ministro. Confundindo realidade com opinião todo o tempo. Assim, chama a atenção o telejornal de 2 de agosto de 2016. Nessa ocasião, na informação dos dados do desemprego utilizam-se expressões como “número récord” ou “dados históricos”. Mesmo assim, o telejornal apresenta somente a avaliação de Mariano Rajoy (censurando a de Pedro Sánchez) e é destacado o sobre os contratos indefinidos (7,6%) sem se dizer que 92% dos novos contratos são temporais.

Mostrar apenas um dos lados da moeda é outra das más práticas dos telejornais do Partido Popular. Em 4 de julho de 2016 o telejornal diz que a taxa de cobertura do desemprego é de 52,9%. Outra maneira de dizer que quase metade dos desempregados não recebem nenhum tipo de ajuda.

(continua)

Texto original em http://www.publico.es/economia/comunicacion/television-manipulado-tve-partido.html

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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