EDITORIAL – O ATENTADO  EM BARCELONA,  A AUTONOMIA DA CATALUNHA, O CENTRALISMO CASTELHANO  E O COMÉRCIO DE ARMAS – UM PROBLEMA DE INFORMAÇÃO E DE DIFERENTES INTERPRETAÇÕES – por João Machado

No passado dia 17 de Agosto um acto medonho de barbárie ocorreu em Barcelona, contando-se até  este momento 16 mortos e uma enorme quantidade de feridos. Os métodos usados não deixam dúvidas a ninguém: o objectivo deste ataque selvático foi espalhar o terror entre as populações dos países ocidentais e não só. Com que objectivo(s)? Aqui cabem as mais variadas interpretações, que podem ir desde o gozo sádico, passando por dar vazão a sentimentos de vingança contra acções atribuídas ao Ocidente, até impor alterações dos modos de vida e dos sistemas políticos ocidentais. Há entretanto indícios de que os “resultados” (= morticínio) pretendidos seriam muito maiores do que os alcançados.

A escolha de Barcelona para alvo não foi por acaso. Se Paris, Londres e Nova Iorque são reconhecidamente grandes centros políticos, Barcelona é um centro civilizacional universalmente reconhecido. Há informações de que os “responsáveis” por este tipo de “façanhas” afirmam como objectivos principais das suas acções acabar com tudo o que possa ser tido como símbolo da civilização ocidental. Entretanto a manifestação de sábado passado, 26 de Agosto, realizada na capital da Catalunha, procurou deixar claro que a maioria das pessoas não está disposta a recuar perante estes ataques. Os seus promotores afirmaram-no repetidas vezes. Mas fica-se confuso ao ler, por exemplo, o cabeçalho de El País de domingo passado, 27 de Agosto que diz assim, em duas linhas, a toda a largura da página: El independentismo boicotea la marcha unitária de Barcelona (clicar no primeiro link abaixo). Pelo menos fica confuso quem não tem acompanhado a vida do reino espanhol, instaurado após a morte de Francisco Franco.

O problema das autonomias é fulcral para os povos e nações que vivem sob o trono da casa de Bourbon. Ultrapassá-lo requer uma resposta democrática, bem claramente democrática: consulta popular preparada com toda a transparência e amplamente participada. Será provavelmente vantajoso haver simultaneamente uma consulta sobre se a monarquia deverá dar lugar à república. O que não se pode é proceder de modo semelhante ao do governo de Aznar quando ocorreu o atentado em Atocha, em 11 de Março de 2004, e o atribuiu aos independentistas bascos, quando a sua autoria foi de indivíduos inspirados na Al-Qaeda.

No El País de domingo, 27 de Agosto, na página 15, está uma fotografia onde aparece um cartaz cujo texto é reproduzido na respectiva legenda: Felipe, quien quiere la paz no trafica com armas. Esta mensagem claramente que não diz respeito ao independentismo. Expressa uma ideia muito básica e muito importante, que quem quer a paz não deve andar a espalhar armas por todo o lado, por preço nenhum, ainda menos quando elas se podem virar contra quem não tem culpa nenhuma. É de lamentar que esta ideia não mereça uma análise aprofundada na grande comunicação social. A Arábia Saudita, um grande comprador de armas,  está a destruir o Iémen numa guerra imperialista e apoia o fundamentalismo islâmico de várias maneiras. Acabar com a venda de armas para esse país e para outros envolvidos em guerras e repressão de populações será sem dúvida um passo fundamental. Referi-lo na manifestação foi importante, embora isso custe a quem promove essa venda. Em democracia as chamadas de atenção aos governantes são muito importantes

A presença de símbolos independentistas na manifestação não significa necessariamente que se tenha querido transformá-la numa manifestação independentista. Poderá ser a expressão de condenação do terrorismo pelos independentistas. Graves sim são as questões referentes ao funcionamento da polícia autonómica, conhecida como “Mossos”, relativamente sobre as quais (acesso à Europol, recrutamento de novas unidades)  poderão ler clicando nos links abaixo.

https://elpais.com/hemeroteca/elpais/portadas/2017/08/27/

http://www.publico.es/sociedad/manifestacion-terrorismo-grito-ciudadano-barcelona-terrorismo-politicas-belicistas.html

http://www.publico.es/tremending/2017/08/28/twitter-un-fotografo-de-efe-denuncia-la-manipulacion-de-la-razon-usando-una-de-sus-fotos-de-la-manifestacion-de-barcelona/

http://www.publico.es/politica/casa-real-gobierno-siguen-cortejando-dictadores-busca-nuevos-negocios.html

http://www.dn.pt/mundo/interior/mossos-desquadra-no-centro-da-guerra-entre-madrid-e-barcelona-8726451.html

https://www.change.org/p/mariano-rajoy-gobierno-de-espa%C3%B1a-incluyan-ya-a-los-mossos-en-la-europol-o-dimita

https://catzona.com/rajoy-dona-allargues-i-diu-que-no-es-moment-que-els-mossos-tinguin-acces-a-leuropol

http://m.elpuntavui.cat/politica/article/17-politica/1225042-rajoy-no-veu-urgent-que-els-mossos-accedeixin-a-l-europol.html

http://www.vilaweb.cat/noticies/rajoy-es-remet-al-que-expliqui-hisenda-sobre-les-places-de-mossos-i-diu-que-no-poden-vulnerar-la-llei/

http://www.lefigaro.fr/international/2017/08/21/01003-20170821ARTFIG00255-le-terroriste-des-ramblas-abattu-par-la-police-espagnole.php

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

One comment

  1. Carlos A P M Leça da Veiga

    Consulta popular bem participada, sim, porém, apenas, desde que só os catalães, por direito próprio, possam votar. Seria absurdo que o invasor tivesse poder de decidir sobre justeza da invasão – não há outro nome a dar-lhe – que, séculos atrás, cometeu. CLV

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