A ALEMANHA, O SEU PAPEL NOS DESEQUILÍBRIOS DA ECONOMIA REAL. O OUTRO LADO DA CRISE DE QUE NÃO SE FALA. UMA ANÁLISE ASSENTE NA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO [1] – Uma coleção de artigos de Onubre Einz. V – Será a Alemanha o modelo para uma saída da crise através das exportações? Uma análise desmistificadora (parte 3)

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

mistificação realidade

V – Será a Alemanha o modelo para uma saída da crise através das exportações? Uma análise desmistificadora (parte 3), por Onubre Einz

 

 

Publicado por criseusa.blog.lemonde.fr em 23 de maio de 2013

Reedição revista dos artigos publicados em A Viagem dos Argonautas em 9 de abril de 2015 https://aviagemdosargonautas.net/2015/04/09/a-alemanha-o-seu-papel-nos-desequilibrios-da-economia-real-o-outro-lado-da-crise-de-que-nao-se-fala-uma-analise-assente-na-divisao-internacional-do-trabalho1-v-sera-a-alemanha-4/ e em 10 de abril de 2015 https://aviagemdosargonautas.net/2015/04/10/a-alemanha-o-seu-papel-nos-desequilibrios-da-economia-real-o-outro-lado-da-crise-de-que-nao-se-fala-uma-analise-assente-na-divisao-internacional-do-trabalho1-v-sera-a-alemanha-5/

 

(continuação)

     3° Exportações comerciais na Europa.

O enorme espaço entre o comércio da Alemanha com a Europa, por um lado, e com a Ásia e a América, por outro, continua a conferir àquela o papel motor essencial no comércio externo alemão. Os avanços da Alemanha nos mercados não europeus continuam sujeitos a cautela.

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As exportações para a Europa mostram, em primeiro lugar, uma baixa das exportações para os países da zona euro composta dos 17 países que adoptaram o euro como moeda comum (UE17). Em comparação, as exportações para os países da União Europeia que não fazem parte da zona euro (Azul = Exportações comerciais para a Europa comunitária fora da zona euro) e para os países externos à UE (Verde = Exportações comerciais para a Europa extra-comunitária) parecem desenvolver-se muito rapidamente.

A Alemanha parece ter estado a desenvolver as suas exportações em direção aos países que se encontram fora da zona euro.

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Um exame das balanças comerciais — permitindo medir o enriquecimento líquido realizado sobre os outros países ou a parte de crescimento que estes perderam a favor da Alemanha — permite ter então uma medida do desequilíbrio das trocas entre a Alemanha e os seus vizinhos.

Primeira constatação: o saldo da balança comercial com os países que pertencem à Europa extra-comunitária é relativamente modesto (Verde = saldo da balança comercial Europa extra-comunitária). Segunda constatação: o saldo da balança comercial da Alemanha com a Europa a 27 é cada vez mais excedentário. O enriquecimento líquido da Alemanha fez-se no essencial sobre as costas dos países da União Europeia. E entre os países europeus, são os países da UE17 que mais têm estado a contribuir para esse enriquecimento líquido.

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Se se considerar a parte dos países da zona euro e dos países da UE que não aderiram ao euro no total dos excedentes comerciais da Alemanha com o resto da Europa, as reformas Schröder associadas à moeda europeia ganham um outro relevo.

Antes da chegada de Schröder ao poder, a parte dos excedentes comerciais da Alemanha com a zona euro no total de excedentes comerciais da Alemanha com a Europa estava em queda regular. Era a parte da balança comercial com os países da Europa comunitária fora da zona euro que tendia a aumentar.

Os anos Schröder e as reformas destinadas a moderar os custos do trabalho tiveram o efeito de inverter as tendências verificadas até 1999. Os excedentes com os países da Europa comunitária fora da zona euro caíram enquanto os excedentes com os países da zona euro dispararam e mantiveram-se depois em níveis elevados. A moeda comum e as reformas Schröder amoleceram o ventre dos outros países da UE que sofreram em cheio uma concorrência preço-qualidade dos produtos alemães particularmente terrível.

Os anos de Schröder, portanto, foram marcados pelo acabar de um reequilíbrio das trocas comerciais entre a Alemanha e a UE17. A Alemanha, ao moderar fortemente os seus custos salariais num espaço monetário homogéneo conseguiu, assim, fazer com que funcionassem ao máximo as suas vantagens competitivas, e acentuou os desequilíbrios que tinham diminuído na zona euro antes da chegada ao poder de Schröder, tendo depois estes desequilíbrios permanecido fortemente elevados, apesar da crise. Por outro lado, inversamente, o desequilíbrio das trocas comerciais que foi sendo constituído com os países da Europa comunitária fora da zona euro reduziu-se e depois estabilizou.

É, portanto, às custas dos países da zona euro que a Alemanha conseguiu criar a maior parte dos seus excedentes comerciais desde o início do novo século, a moeda única transformou os países da zona euro numa zona mole permeável à penetração de produtos alemães. Os países da Europa comunitária que não fazem parte da zona euro viram a sua quota no total dos excedentes diminuir. O euro tem assim facilitado a penetração nos mercados da UE17, o que permitiu à Alemanha ganhar uma proporção crescente do seu crescimento em detrimento destes mesmos países. A Alemanha privou-os assim de uma parte do crescimento europeu de que ela própria se apropriou.

Portanto, não surpreenderá vermos que a única área onde as reformas Schröder desempenharam um papel claramente positivo foi na Europa comunitária. Os Estados-membros da UE17, privados de qualquer liberdade de manobra em termos de política monetária, encontram-se assim convidados a cultivar um modelo de crescimento através de exportações inspirados pela Alemanha, quando este modelo lhes tem sido prejudicial. O passe de mágica que consistiu em substituir a questão dos efeitos da concorrência pela competitividade-custo do trabalho pela crise orçamental tem aqui a sua origem. Este passe de mágica, na impossibilidade de escamotear a crise, acaba por estar a alargá-la pelo jogo das restrições orçamentais que são uma forma de esconder o tipo de relações de forças económicas que se desenrolam na Europa.

     4° As performances do comércio alemão: Uma pequena síntese.

As análises até aqui feitas levam-nos às seguintes constatações:

Foi somente na Europa que se fizeram sentir realmente os efeitos das reformas Schröder. O seu efeito foi máximo na zona euro, mais modesto nos países da Europa comunitária fora do euro, fraco nos países da Europa que não pertencem ao euro. É isto que mostram as balanças comerciais. Se examinarmos as exportações e os saldos comerciais é a Europa que está no centro do crescimento alemão estimulado pelas exportações. Mas para que este centro permaneça dinâmico, a Alemanha teve de recorrer a reformas radicais que melhoraram a sua posição nas trocas europeias. Sem isso, o seu crescimento teria sido mais fraco; a Alemanha efetivamente fez o seu crescimento em detrimento do crescimento dos países da Europa comunitária, tendo os 17 países da zona euro pago o preço mais elevado.

E registou a Alemanha resultados deslumbrantes noutros lugares?

O exemplo americano mostra desde logo os limites de um crescimento estimulado pelas exportações. A Alemanha apenas penetra um mercado norte-americano já aberto a todos os ventos. A Alemanha não conseguiu expandir-se fortemente no dinâmico mercado sul-americano e teve de se contentar com um resultado positivo na América Central. O saldo da balança comercial está em conformidade com isso, ainda para ser considerado de bom.

O exemplo asiático confirma a nossa análise moderada. Os países asiáticos desempenham um papel crescente nas trocas comerciais da Alemanha, mas este papel não deve ser sobreavaliado. E, sobretudo, a Alemanha permanece deficitária com países agressivos como a China e o Japão. O futuro quanto a esta zona é tudo menos risonho para as exportações europeias.

A análise da situação do comércio alemão leva-nos a formular uma tese. A penetração do comércio alemão nos mercados externos varia na razão inversa do seu dinamismo e da sua dureza. A zona euro é típica de um mercado permeável onde as reformas Schröder atuaram em pleno, sendo a sua eficácia ainda sensível na Europa comunitária fora da zona euro. Ela deixa de ser visível fora deste espaço económico.

O que podemos ver na Ásia e na América é que o dinamismo de uma região não é acompanhado por uma penetração ou formação de excedentes comerciais equivalentes por parte da Alemanha. É a razão pela qual a diferença entre o papel dos países europeus e dos países não europeus no crescimento alemão permanece assim tão importante.

Pode interpretar-se assim o peso sempre determinante da Europa no comércio alemão e a fraca penetração deste nos mercados dinâmicos da América e da Ásia: a Alemanha não constitui em nada um modelo de crescimento pelas exportações em que todos os países europeus se deveriam inspirar. Este modelo, com efeito, mostra que as variações dos salários e dos encargos indiretos não produzem nenhum efeito milagroso visível e é por isso que as reformas Schröder foram somente eficazes na Europa e que o seu efeito é pouco perceptível nas trocas com as regiões mais dinâmicas do planeta.

Assim, aplicar este modelo à letra não é só a melhor garantia de mergulhar a Europa numa recessão e na deflação que se lhe segue, ao associar-se a redução das dívidas e dos défices públicos e a moderação salarial. É também propor aos europeus um relançamento da economia pelas exportações que será um impasse a médio prazo. A miragem alemã permite prometer aos europeus uma retoma pelas exportações que justificam sacrifícios que mostrámos já que estão mal correlacionados com as exportações, esforçando-se em encontrar no sector exportador uma eficácia tangível das reformas Schröder.

(continua)

Texto original “L’Allemagne est-elle le modèle d’une sortie de crise par les exportations : Une analyse démythificatrice” em http://criseusa.blog.lemonde.fr/page/11/

[1] Título principal da responsabilidade do tradutor.

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