EDITORIAL – ONDE FICA A COREIA DO NORTE? – por João Machado

A Coreia do Norte, oficialmente a República Popular Democrática da Coreia, tem estado na berra. Nas últimas semanas eclipsou mesmo nos cabeçalhos dos jornais e nas aberturas dos telejornais a Síria e a Venezuela, alvos habituais nos últimos anos daqueles noticiários e da propaganda que veiculam. As atitudes de Kim Jong-Un, responsável máximo  do país, e do seu governo, têm merecido ameaças, sanções e retaliações por parte das principais autoridades das potências ocidentais, começando por Donald Trump  e pelos responsáveis da União Europeia, e também pelos de outros países como o Japão. Nos últimos dias foi dado particular relevo ao lançamento por Pyongyang de um míssil que terá sobrevoado a ilha do Hokkaido, no Japão, e à explosão de uma bomba de hidrogénio, num teste claramente efectuado com fins propagandísticos.

Neste assunto será bom ter sempre presente que a Coreia do Norte fica numa península do Nordeste da Ásia, cercada pelo mar Amarelo a Oeste, o mar do Japão a Leste e o mar da China Oriental a Sul. Como o nome indica, ocupa a parte norte da península, estando separada da Coreia do Sul desde o fim da chamada Guerra da Coreia, que durou de 1950 a 1953  e causou centenas de milhares de mortos, por uma zona desmilitarizada de quatro quilómetros de largura, que segue aproximadamente o paralelo 38, linha estipulada pelas grandes potências desde o século XIX para dividir o país. A Coreia tem fronteiras a norte com a China (a maior parte) e também com a Rússia.

A história da Coreia remonta à Idade do Bronze. Durante milénios vários reinos se digladiaram entre si, até que, no século X, se unificaram sob a dinastia de Goryeo (a palavra Coreia ter-se-á formado a partir deste nome), que perdurou até ao século XIV, dominando toda a península. Depois, a dinastia Joseon governou o país até ao século XIX. Entretanto os conflitos com a China e o Japão sucederam-se. No fim do século XIX o conflito entre o Japão e a Rússia culminou com a vitória da primeira daquelas potências, que ocupou a Coreia em 1910 e a transformou numa colónia. A República da Coreia e a República Popular Democrática da Coreia foram proclamadas em 1948.

Estes factos, mesmo muito sucintamente apresentados, ajudam a compreender   como a separação de um país é tão vivamente sentida pelos seus habitantes. A Coreia tem cerca de 220 mil quilómetros quadrados, 120 mil a Norte e 100 mil a Sul, e cerca de 77 milhões de habitantes, 25 milhões a Norte e o restante a Sul (números estimados). A reunificação é um sentimento nacional, mas cada um dos governos das duas partes pensa fazê-lo à sua maneira. Uma Coreia reunificada teria uma área equivalente a quase dois terços da Alemanha e quase a mesma população. Em relação ao seu vizinho Japão, que a ocupou durante várias décadas e nela deixou recordações bastantes más, as proporções seriam semelhantes quanto à área e mais de metade quanto á população.

Claro que as potências que os suportam também estão divididas. Muitos dirão, reforçados pelos elementos resultantes da análise da história passada que são elas que impõem a separação.

O regime vigente a Norte tem com certeza muitas limitações. Mas é um erro muito grave apresentá-lo como o principal vilão da história. Vejamos um caso já acima referido: o do míssil que sobrevoou Hokkaido. Foi disparado quase no encerramento de uns gigantescos exercícios em que participaram militares norte-americanos, sul-coreanos e japoneses, e, durante três semanas, naquela ilha japonesa e na Coreia do Sul, simularam um ataque à Coreia do Norte. A este respeito propomos que cliquem no último link abaixo, e leiam o artigo de Mike Whitney, publicado no Counter Punch. Este, entre outros aspectos, acentua que o que se passa naquela zona do mundo faz parte da estratégia de Washington de cerco à China e a Rússia, que assenta num reforço da presença militar na península da Coreia. Dá a entender que Kim Jong-Un sabe que aquela estratégia é apenas uma variante da já aplicada da Síria, na Líbia, no Iémen e noutras partes do mundo. Assim procura reforçar a sua posição. Whitney afirma ainda que o líder norte-coreano nesta altura não tem outra escolha que não a de manter firme, para ter uma hipótese de não acabar como Sadaam Hussein ou Kadhafi. Que ele tem dado sinais de pretender negociar, na base de trocar a sua força nuclear pela saída dos norte-americanos da Coreia. O problema é a tal estratégia de Washington de cerco à Rússia e à China (que também está presente na Europa, acrescentamos nós).

Propomos que cliquem nos links abaixo, que dão acesso a alguns artigos com visões da Coreia do Norte diferentes das transmitidas pela grande comunicação social. Entre elas a do nosso compatriota o escritor José Luís Peixoto, que escreveu “Dentro do Segredo – Uma Viagem na Coreia do Norte”, publicado em 2012:

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/geral/47947/a+vida+dos+norte-coreanos+que+os+meios+de+comunicacao+nao+mostram.shtml?utm_source=akna&utm_medium=email&utm_campaign=Boletim_OM_06%2F09%2F2017

http://www.msn.com/pt-pt/noticias/mundo/se-os-eua-atacarem-a-coreia-avan%c3%a7aremos-com-resposta-proporcional/ar-AAroNAp?ocid=spartandhp

http://observador.pt/2017/02/01/coreia-do-norte-a-visao-polemica-e-simpatica-de-um-fotografo-ocidental/

http://visao.sapo.pt/actualidade/cultura/2013-04-10-Jose-Luis-Peixoto-na–des-conhecida-Coreia-do-Norte

http://www.esquerda.net/artigo/jos%C3%A9-lu%C3%ADs-peixoto-dentro-do-segredo-da-coreia-do-norte/25527

http://www.voltaaomundo.pt/2015/05/29/jose-luis-peixoto-na-coreia-do-norte-como-e-a-vida-num-dos-paises-mais-fechados-do-mundo/

https://www.counterpunch.org/2017/09/04/what-the-media-isnt-telling-you-about-north-koreas-missile-tests/

 

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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