Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado: uma exposição e uma análise crítica – Introdução, por Júlio Marques Mota

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640

Jan Brueghel, the Younger Satire on Tulip Mania, c. 1640

Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado: uma exposição e uma análise crítica.

Introdução, por Júlio Marques Mota

 

Uma nova série, desta vez sobre a opacidade no mundo da alta finança. O tema só por si justificaria que já a tivéssemos concebido e publicado há muito tempo. Mas opacidade é opacidade, e ver alguma coisa neste mundo da alta finança para quem não é iniciado neste campo nem tem a capacidade de saltar para o outro lado do espelho e ficar por dentro a descorticar o que para quase toda a gente é opacidade total, não é tarefa nem fácil, nem sequer agradável.

E a ideia de fazer uma série sobre a opacidade na alta finança foi sendo sucessivamente adiado. Porém, um pequeno acidente motivou-nos para o fazer, e agora. Tinha trabalhado sobre um longo texto da Finance Watch sobre titularização para editar em 2105. Mas não foi possível editar o referido texto. E seria uma pena perder este trabalho de divulgação pelo que, em conjunto com o meu editor Francisco Tavares, discutimos qual seria a melhor forma de editar este trabalho da Finance Watch. Na sua opinião este poderia ser editado sozinho mas na condição de ter em paralelo uma longa introdução explicativa. Uma outra hipótese era criar uma série sobre a finança que teria como objetivo levar a que cada leitor de A viagem dos Argonautas ganhasse a capacidade de entender o texto sem grande esforço. E tanto mais útil seria a série com este objeto quanto o texto de base nos fala de matéria sobre a qual não é habitual a nossa imprensa falar, nem sequer é muito habitual que seja matéria discutida nos cursos universitários que deveriam versar sobre estas matérias.

Aliás, dois banqueiros deste país que leram o texto sobre titularização editado por Finance Watch consideraram que este deveria ser um texto obrigatório na formação de qualquer bancário que se preze. Mas não faz de nenhum curso de formação bancária até porque, tanto quanto eu sei, estes cursos são genericamente feitos para ocupar altos quadros mais do que para formar seja quem for. Se não é assim hoje, garantidamente já foi assim.

Criámos assim uma série em quatro partes;

  1. O básico na finança de hoje.
  2. Compreender a alta finança.
  3. A finança ao serviço da sociedade e não a sociedade ao serviço da finança.
  4. A titularização como meio para continuar na trajetória da crise.

Tomámos como textos de referência, artigos de Laura Kodres, subdirectora do Departamento de Mercados Monetários e de Capitais do FMI, de Randall Dodd, fundador e diretor do Financial Policy Forum em Washington, de Finance Watch, para muitos a organização Greenpace da finança, de Peter Whal da organização WEED e de Myriam Vander Stichele da organização SOMO.

Na primeira parte, mais didática, serão abordados temas como o que é a banca paralela, ou sistema bancário sombra, o que são as bolsas sombra ou bolsas paralelas, a inovação financeira e a opacidade dos mercados, o que são os mercados de balcão, os mercados ditos over-the-counter (OTC), o que é o trading de alta frequência, o mercado de derivados e a regulação, a regulação e os fundos especulativos ditos de cobertura, o que são os mercados monetários, o que se deve entender por instituições demasiado grandes para poderem falir e o que se fez em termos de legislação na Europa face a esta questão. Esta parte terminará com um texto sobre a necessidade separar as atividades comerciais dos bancos das suas atividades especulativas.

Na segunda parte publicaremos quatro grandes trabalhos de Finance Watch, intitulados “Compreender a Finança” a que se acrescentam duas análises sobre as reformas dos sistemas bancários em França e na Alemanha, de 2103, e duas outras análises sobre o mesmo tema, de 2015. Estes documentos mostram-nos que, basicamente, os trabalhos de reforma dos sistemas financeiros nacionais e globais podem ser resumidas na seguinte expressão: é preciso que alguma coisa mude para que tudo possa ficar na mesma. E foi isso que o ministro Schauble, da direita pura alemã e o ministro francês Moscovici, da esquerda caviar francesa, fizeram. E continuamos todos a temer que um dia destes rebente uma nova bolha. Ainda no passado dia 31 de julho Luís Teles Morais se interrogava no jornal Público: “Estará pronta a Europa de Macron (e Costa) para futuros incêndios financeiros?“ (ver aqui).

Na terceira parte trataremos temas como O interesse público e o sistema bancário, Investir não é apostar, 10 anos depois o que há de novo na banca, os factos e a ficção na alta finança no quadro europeu, questões à volta de Basileia, a aplicação de Basileia III na União Europeia, a atividade bancária e a financeirização: a necessidade uma reforma urgente.

E como quarta parte temos então o texto de Finance Watch sobre a titularização a que se seguirão um conjunto de pequenos textos de Finance Watch, de Weed e de SOMO publicados nos anos seguintes à edição do texto sobre titularização e que o completam. Terminaremos com um artigo de Finance Watch intitulado Política financeira para as gerações futuras.

Contrariamente ao que é nosso hábito não faremos aqui nenhuma exposição sobre a série, sobre o que tratam os textos que a constituem. Não falaremos deles. E isto por uma razão bem simples. Ao compilarmos a série de textos encontrámos um deles com um título que nos deixou boquiabertos: Light touch’ reforms [Reformas mínimas] de Myriam Vander Stichele. Ficámos tão espantados como quando ouvimos falar pela primeira vez neste tema para os mercados financeiros. Ficámos bloqueados a olhar para o título tentando recordar onde e quando é que havíamos lido um título semelhante pela primeira vez. Ao fim de minutos lembrámos: foi quando, por sugestão de Christien Anderson de Pax and Justice, lemos o discurso de Gordon Brown no santuário do capital financeiro, em Mansion House, na City, por ocasião de um jantar anual. Imediatamente optei por escolher estes textos como principal alvo para a minha crítica.

Gordon Brown um dos ideólogos ao serviço da alta finança

O filme da crise que rebentou em 2007 começou a ser projetado desde 2008. Passados são já nove anos, não nove meses, um tempo longo para cada um de nós ter já amadurecido as suas ideias à volta das razões desta crise, das políticas erradas que foram aplicadas e que mais a reforçaram, ter também uma ideia das políticas que deveriam ter sido aplicadas e que se o tivessem sido, talvez não estivéssemos mais uma vez à beira de uma nova crise. A leitura de cada um dos textos, dado o nível pedagógico de cada um deles far-nos-á lembrar factos recentes desta década. Valerá a pena recordá-los e confrontar o que se pensa deles com o que nos dizem cada um dos autores por nós utilizados nesta série dedicada ao mundo opaco da finança, e que nos vão desenrolando, um após outro, verdadeiros sketchs de um outro filme sobre a mesma crise, com os relatos, as interrogações, as críticas que não leu seguramente na nossa imprensa, mesmo na especializada. Os meios de comunicação social são uma componente da crise, não o podemos esquecer, e o seu comportamento serviu, e bem, como um grande difusor das teses neoliberais e da mistificação produzida para se justificarem as políticas de austeridade seguidas até agora.

Não falaremos pois dos textos. Mas uma coisa é certa, eles falam-nos das pressões que dia após dia vão sendo feitas para se dar à finança a mesma força que esta tinha em 2007e para se avançar numa ainda mais profunda financeirização do espaço europeu. É essa a função da União dos Mercados de Capitais, de criação bem recente. Fazer do espaço europeu um supermercado financeiro como o queria McCain para os Estados Unidos. Os resultados são o filme da crise de que se fala acima, mas de que rapidamente os senhores do dinheiro nos querem fazer esquecer, porque é que esta existiu, porque é que ainda existe e porque é que ainda vai continuar a existir. E há muita gente, e bem paga, a trabalhar para que assim seja.

Por isso decidimos apresentar, em primeiro lugar, uma longa síntese da política neoliberal de Gordon Brown porque bem explicitada pelo seu autor. Não esqueçamos que se trata da política neoliberal de uma das economias dominantes na economia globalizada.

Uma política neoliberal emblemática a dois níveis:

1.Brown exerceu uma política de emprego assente na mistificação, na manipulação, para a sustentabilidade da qual muito contribuíram os media britânicos e não só. A análise cuidada da sua mistificação ao nível da política de emprego, como a que será aqui apresentada e sintetizada pelo trabalho de universitários ingleses, dirigidos por Stephen Fothergill da Universidade de Sheffield, levar‑nos‑á a ter uma noção bem clara do ridículo a que ele se expunha ao defender, até ao limite do impensável, a financeirização, a globalização.

2.Uma politica de financeirização da economia para a qual se vangloriava de reduzir os controlos do sistema. Dois anos depois assistiu-se ao desastre total da sua política.

Relativamente a este ponto apresentaremos uma longa síntese dos discursos de Gordon Brown proferidos na Catedral do Capital Financeiro, na Mansion House na City de Londres, em que Brown defende até ao limite do absurdo a globalização e a financeirização das economias.

Estes textos representam uma enorme homenagem feita por Gordon Brown ao Deus dinheiro. Estes são textos notáveis, porque revelam até que ponto vai a euforia pela financeirização, mas também até que ponto vai a mistificação organizada por um homem que tem mais respeito pelo dinheiro, mesmo que dos outros, do que pelos cidadãos para quem deve governar. Uma euforia que não terá sido muito diferente da euforia que assaltou a Holanda com a especulação sobre os bolbos de túlipas ou a França com as aventuras de John Law e as empresas no Mississipi.

A este texto de síntese da política neoliberal inglesa, e não só, chamámos “O capitalismo da modernidade, da falsidade: um exemplo”, dividido em duas partes, a saber:

Parte A: a política de trabalho e da mentira de Gordon Brown, uma mistificação emblemática;

Parte B: A financeirização feliz dos banqueiros da City e de Gordon Brown

 

Visão da modernidade do capitalismo financeirizado a partir da Grécia da Antiguidade

Em seguida, e por confronto com as ideias de Brown e de tantos outros neoliberais igualmente, apresentaremos uma visão desta mesma modernidade do capitalismo financeirizado a partir da Grécia da Antiguidade, o que será feito através de longos excertos da peça de teatro de Aristófanes, Pluto, o deus da maçaroca, pontuado por duras imagens da realidade dos últimos anos.

A este segundo texto demos o titulo de O capitalismo financeirizado: da antiguidade grega à modernidade da City e de Wall Street.

Com estes dois textos iniciaremos, pois, esta série, sendo certo que estes dois textos dão-nos uma imagem amarga do processo histórico uma vez que, afinal, vinte e quatro séculos depois de Aristófanes, nada parece ter mudado desde então até à explosão do capitalismo financeirizado dos tempos que correm, a não ser as coordenadas espaço-tempo. Personagens de hoje, dominantes no campo político, económico, financeiro, têm a sua imagem bem explicitada, bem caracterizada, por Aristófanes na sua peça Pluto, escrita há já 24 séculos. Tanto tempo passado, entretanto! Inacreditável, inimaginável, é o que temos vontade de dizer.

Coimbra, em 7 de setembro de 2017

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