CARTA DO RIO por Rachel Gutiérrez

No último sábado, resumindo a semana, Zuenir Ventura definiu a perplexidade da maioria dos brasileiros em sua coluna do jornal O Globo:

Foi uma semana para desafiar quem achava que já vira de tudo, e para confirmar a tese de que no Brasil não houve surrealismo nem realismo fantástico como movimentos literários porque eles existem na vida real.

Só a descoberta das malas e caixas de dinheiro num apartamento em  Salvador, logo apelidado de “caverna baiana de Ali Babá” já serviria para inspirar Gabriel Garcia Marquez. O dono do dinheiro – Geddel Vieira Lima, o ex-Ministro da Secretaria de Governo de Michel Temer, que já fora  Ministro da Integração Nacional de Lula e  vice-presidente de pessoa jurídica da Caixa Econômica Federal, no  goberno Dilma, foi demitido aos seis meses após virem a público denúncias de corrupção feitas por seu colega ministro da Cultura Marcelo Calero. Vieira Lima foi preso preventivamente no dia 3 de julho de 2017, na Operação Greenfield, e solto no mesmo mês para cumprimento de pena em prisão domiciliar. Mas voltou à prisão,  no último 8 de setembro, após a apreensão dos mais de 51 milhões de reais em espécie no apartamento que pedira emprestado a um amigo em Salvador.

Outra notícia bombástica foi a do depoimento de Antonio Palocci, ex-Ministro da Fazenda de Lula e ex-Ministro-chefe da Casa Civil de Dilma Rousseff, ao Juiz federal Sergio Moro, em Curitiba. Lembre-se que em novembro de 2016, Sergio Moro aceitou a denúncia do Ministério Público e Palocci, cofundador do Partido dos Trabalhadores e presidente do PT-São Paulo (1997-1998),tornou-se réu da Operação Lava Jato.  E que em junho de 2017, foi condenado a 12 anos de prisão.

Como observou Zuenir Ventura, o que mais causou espanto no depoimento do petista foi em especial o trecho em que ele classificou de “pacto de sangue” entre Lula e Emilio Odebrecht, envolvendo um presente pessoal- um sítio (em Atibaia) – palestras a R$200 mil, fora impostos, e uma reserva de R$300 milhões para atividades políticas nos anos seguintes ao fim do mandato.

E Rosiska Darcy de Oliveira, por sua vez, escreveu:

O depoimento de Palocci, o Italiano das planilhas da Odebrecht, quebrou definitivamente os pés de barro do ídolo nacional que foi Lula, posto a nu na sua verdadeira condição de cúmplice do poder econômico mais corrupto. Sem apelação possível, ficaram demonstrados a periculosidade e o cinismo de uma organização criminosa que, sob o seu comando, governou o país por 16 anos.

Outra notícia da semana foi a denúncia criminal da Procuradoria Geral da República contra o próprio ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a ex-presidente Dilma Rousseff, além de cinco ex-ministros, “por formação de uma organização criminosa para atuar no esquema de corrupção na Petrobrás, crimes praticados entre 2002 e 2016.”

E tudo isso aconteceu durante a “semana da Pátria”, enquanto o país pareceu tomado por um grande desalento.

Apesar de tudo, os menos pessimistas, entre os quais procuro me alinhar, podem repetir as palavras finais do livro de Eduardo Giannetti Trópicos Utópicos :

Que o mal e o pouco do tempo presente não nos deprimam nem iludam ou desanimem, O futuro se redefine sem cessar – ele responde à força e à ousadia do nosso querer. Vem do breu da noite espessa o raiar da manhã.

E essa última frase me remete àquela tão bela de Guimarães Rosa, que não me canso de repetir: “As coisas que estão para a Aurora são antes à Noite confiadas”.

 

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