FRATERNIZAR – Quando ventos ciclónicos, sismos e fogos nas florestas andam aí à solta, QUE ESPIRITUALIDADE NOS MOVE? por MÁRIO DE OLIVEIRA

Que espiritualidade nos move? A pergunta, mais do que oportuna, quase nunca é verbalizada. Ao Poder não interessa que a pergunta se formule, porque, para ele, só há uma espiritualidade. A que o move a ele. De modo que sejamos levados a pensar que fora dele é o nada. Nem sequer o caos. Simplesmente o nada. É bom termos presente que quem diz espiritualidade, diz espírito. Quem diz espírito, diz vento. Quem diz vento, diz ruah, um substantivo feminino, em hebraico bíblico. Convém também termos presente que sem vento ninguém vive. Até a matéria, toda a matéria, é animada. Desde o big-bang, o vento está presente no tempo. Nada do que existe é sem ele. E sem ele nada do que existe existiria.

Que espiritualidade nos move? As igrejas preferem religião a espiritualidade. Todas se auto-apresentam e fazem questão de serem apresentadas às populações e aos povos como religiões. E aquelas e estes é assim que as vêem. São muitas e quase sempre em guerra, muitas vezes até armada. O que leva, inclusive, um famoso teólogo europeu, de renome mundial, assumidamente cristão católico, Hans Küng, a defender a tese, “Não há paz entre as nações, enquanto não houver paz entre as religiões”. Estranhamente, esta tese não tem muitos seguidores nas múltiplas igrejas cristãs, a começar pela católica. Nem entre judeus e muçulmanos, no conjunto, as chamadas “três religiões do Livro”. Só que, apesar de todo o erudito saber de Küng, ou por causa dele, nem ele próprio consegue ver que as religiões são intrinsecamente más e fonte de guerras, pelo que, quando as promovem não fazem mais do que aquilo que está no seu ADN. A espiritualidade que as move é exactamente a mesma do Poder. Religiões e Poder são farinha do mesmo saco. Apenas se apresentam aos povos em diferentes máscaras.

Que espiritualidade nos move? São os frutos religiosos, académicos, económicos, políticos, culturais, sociais que produzimos, dia após dia, que dizem que tipo de espiritualidade nos move, como pessoas, povos e institucionais criados por nós. Os frutos, não os discursos. Os discursos também, mas muito menos. Ora, os frutos dos milhares de anos de presença do Homo sapiens que somos – mais demens do que sapiens – e de todos os institucionais a que demos progressivamente origem não abonam nada a nosso favor. E os dos três últimos milénios judeo-cristãos-islâmicos muito menos. São, indiscutivelmente, os frutos mais sanguinários e cruéis, graças sobretudo, ao progressivo desenvolvimento tecnológico e militar inventado pelo tipo de espiritualidade que tem movido as suas elites. Só porque, quando, no início, tomamos consciência de nós, formulámos demencialmente a hipótese “deus”, em vez de, como fragilidades que somos, nos religarmos sapientemente uns aos outros e ao cosmos que nos gerou.

Que espiritualidade nos move? Quando há dois mil anos o homo sapiens esperava a chegada do Poder invicto (= messias-cristo), eis que pelo ano 6-5 antes desta nossa era comum, acontece Jesus, o filho de Maria, concebido pela ruah, sopro feminino, todo fecundidade e cuidado. E, quando adulto, em vez da hipótese “deus”, como fazem todos antes dele, Jesus experimenta-se plena e integralmente habitado pela ruah-maiêutica que o leva a religar-se não a deus, mas a cada um dos outros iguais a ele, também habitados como ele, e a todos os demais seres que nos precedem no decurso da Evolução, sem os quais simplesmente não somos. Enquanto não acolhermos Jesus Nazaré e a sua Espiritualidade, mai-la sua Fé e o seu Deus Abba-Mãe, continuamos a auto-destruir-nos e uns aos outros e à Terra, nossa casa comum. Como os ventos ciclónicos, os sismos de grau máximo na escala científica e os incontroláveis fogos florestais estão aí hoje a gritá-lo. Quem tiver olhos para ver, que veja. Quem tiver ouvidos para ouvir, que oiça!

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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