Autópsia de uma morte já anunciada, a do PSF. XV – O vazio ideológico do Partido Socialista – Parte II

François Mitterrand: “A luta de  classes não é para mim um objetivo. Procuro que esta deixe de existir!”

Lionel Jospin:  “Eu sou um socialista de inspiração, mas o projeto que proponho ao país  não é um projeto socialista. É uma síntese do que é necessário hoje. Ou seja, é  a modernidade. ”

François Hollande   “Vivi cinco anos de poder relativamente absoluto. (…)  Eu naturalmente impus ao meu campo que, sem nenhuma sombra de dúvida, só iria aprovar as políticas que eu consideraria serem justas.” 


Autópsia de uma morte já anunciada, a do PSF

A farsa acabou. O povo francês, Macron escolheu. Um outro ciclo de tragédia e de  farsa já começou.

O vazio ideológico do Partido Socialista  – Texto XV – Parte II 

(Por Rafaël Cos, in Revue Mouvements,  2017/1, n° 89)
REVUE

 

Resumo do artigo

O quadro desolador do mandato de  François Holland não pode somente  ser atribuído ao contexto econômico internacional. É também o resultado de recomposições  ideológicas do Partido Socialista desde o fim da era Mitterrand e do desinvestimento do trabalho programático pelos seus quadros responsáveis.  A ausência do corpus doutrinal original, a crescente dependência sobre os esquemas dos adversários  e o crescente entrelaçamento das elites partidárias com o campo do poder económico são todos  fatores que conduziram ao  esvaziamento da palavra ‘socialismo’ de todo e qualquer conteúdo identificável.


Dos remendos identitários  aos deslizes ideológicos

Se o PS e os seus representantes governamentais chegaram a capitalizar sobre um conjunto de reivindicações de ordem social (tratando-se principalmente dos direitos dos homossexuais), o discurso dominante caracteriza-se agora pela ausência de qualquer referenciação sociológica clara e consente, por conseguinte, uma forma de desarmamento simbólico.

A retração das redes militantes, a recomposição das classes populares   –   sentida mas pouco ou mal analisada  –   ou a emergência de um  tropismo individualista [3]  constituem   tantos elementos que contribuem para desligar  o partido de uma leitura sociológica das evoluções da sociedade francesa. A pressão de um improvável “ super-ego marxista” empreendido pelos intelectuais de partido melhor posicionados (Alain Bergounioux, Henri Weber ou ainda Laurent Baumel, antes deste se ter aproximado dos contestários, os  “frondeurs”) contribui também, à sua maneira, para baralhar os captores do partido. Em 2014, a Carta do progresso humano preconizava assim, sem nenhuma  hierarquização que “operários, empregados da função pública e do sector privado, engenheiros, empresários, camponeses, artesões, inventores, devem juntar-se  numa aliança dos produtores”. Para remediar o estado de insegurança doutrinal nascido do desfasamento entre o discurso anticapitalista dos anos 1970 e a gestão ortodoxa dos anos 1980, o PS também agarrou-se a diversos de expedientes simbólicas   –   em especial a referência republicana. Totem consensual e plástico, esta referência republicana surgiu  como um meio arranjado para garantir a permanência da identidade socialista, doravante encurralada entre a invocação   –   abstrata   –   dos valores de igualdade e a   fixação mais ou menos conservadora à laicidade, e a reivindicação “do direito à segurança”.

Deste ponto de vista, se o posicionamento autoritário de Manuel Valls e de Bernard Cazeneuve deve evidentemente muitas às particularidades do contexto atual, ele  resulta igualmente da conversão recente do Partido socialista a um emblema histórico do campo reacionário. No meio dos anos 1990, a combinação de prioridades coletivas (reconquistar os votos populares depois de  várias derrotas eleitorais) e de características  individuais ( eleitos locais sensibilizados pelas  problemáticas de delinquência) favoreceram  assim o assumir  pelo partido de um tema, a segurança, durante muito tempo marcado como  um tema da direita e da extrema-direita. O ativismo das várias gerações sucessivas de líderes  políticos (Daniel Vaillant, Bruno Le Roux e Lionel Jospin primeiro, Julien Dray e Delphine Batho depois  e,  por conseguinte,  Manuel Valls depois) contribuiu para abrir um espaço crescente à este desafio: tratado aquando do congresso de Liévin em 1994, desenvolvido por ocasião de uma convenção nacional em 1996, erigido “em prioridade nacional”  um pouco  antes do colóquio de Villepinte em 1997, colocado como prioridade na   agenda da  campanha em 2002, retomado por Ségolène Royal em 2007, foi depois inscrito  como um  dos valores centrais  do partido na Declaração de princípios de 2008. Argumentando que a segurança é “um direito fundamental” (o que é errado no plano jurídico), que a insegurança é “uma desigualdade que atinge primeiro os mais fracos”, e que era necessário não ir na onda das  “desculpas sociológicas” supostas justificar a delinquência, muitos dirigentes  socialistas esperavam assim ligar  a referência republicana às reivindicações do eleitorado desfavorecido. Neste sentido, esta conversão progressiva constitui um bom revelador da relação oblíqua que o PS mantem a partir de agora  com as classes populares: dado que estas últimas já não parecem estar em condições de corrigir radicalmente as desigualdades sociais, a segurança apareceu como um meio de  preservar uma relação entre a oferta  discursiva  do partido e os interesses (ou supostos como  tais) das camadas populares. Esta convergência de temas  e, até certo ponto, as análises do adversário dão  também para ver  como é que  o partido deixou sobretudo de funcionar de cadinho de  contestação irrigado por diferentes subculturas ideológicas, como foi resumidamente o caso durante os anos 1970: o discurso socialista, libertado da ameaça comunista, aparece sem dúvida e mais do que nunca condicionado pela agenda mediática e pelas projeções dos seus concorrentes de direita   –   sem que seja mostrado que esta estratégia produza resultados tangíveis. No plano eleitoral, não é certo que as lógicas de triangulação tenham permitido ao PS parecer mais “credível” que os seus adversários e, a fortiori, subtrair-lhes partes de mercado eleitoral   –   as experiências de 2002 e de  2007 inclinariam mesmo antes a pensar o inverso.

Do ponto de vista da ação pública, nem a criação de um secretariado nacional temático em 2000, nem as audições dos  investigadores sociais, economistas, sociólogos e outros, nem a multiplicação das obras de dirigentes  socialistas sobre o tema,  nem os colóquios, relatórios e outros documentos programáticos  terão  permitido  organizar, após o acesso  ao poder, uma agenda de reformas “de esquerda” em matéria de segurança. As veleidades transformadoras de Jean-Jacques Urvoas, quando era secretário nacional entre 2009 e 2012, e os remoinhos   que estas podiam suscitar dentro da polícia conduziram o candidato François Hollande a  confiar o tema à François Rebsamen durante a campanha, que depois lhe foi retirado a favor  de Manuel Valls após a vitória, o novo ministro  chamando   finalmente… o sarkozysta  Alain Bauer para que este o aconselhasse.  As discussões havidas e as bases jurídicas pensadas sobre a formação da Polícia nacional, tidas em 2013, permaneceram sem nenhuma consequência. A instauração de recibos aquando de controlos de identidade foi bloqueada por Manuel Valls.   A reforma do cálculo das estatísticas da delinquência não pôs fim à gestão pelos números, que incita os polícias a visarem  os pequenos revendedores e consumidores de narcóticos. A maior  latitude atribuída pelo ministério aos comandos regionais e distritais da  polícia não conduziu a uma qualquer reformulação  doutrinal, nem mesmo a experimentação de novas práticas policiais: “a polícia de proximidade” resume-se hoje às carrinhas da Polícia de choque, os CRS,  que patrulham os bairros populares. Entretanto, a conversão do PS terá contribuído para banalizar  toda uma  série de motivos de segurança (o slogan, outrora lepenista, considerando que “a segurança é a primeira das liberdades”, o mito do aumento da violência, a denúncia regular “do direito do homismo” e a explicação sociológica, o interesse da videovigilância  etc.) que favorecem eles mesmos os deslizes mais  direitistas.

As deslocações que afetam as referências tradicionais do Partido socialista são igualmente referenciáveis sobre o plano económico. Numerosos índices atestam a estabilização, já antiga, de uma grelha de leitura dominante nos líderes socialistas onde se torna muito importante os axiomas neoliberais. Fixado aquando da “viragem para a política de rigor”, este conjunto de axiomas perdurou seguidamente ao longo dos  anos das décadas de   1990 e de 2000. A necessidade de tornar o aparelho produtivo “competitivo”, a moderação salarial, as privatizações de empresas públicas ou a focalização sobre os grandes equilíbrios orçamentais constituíam  tantas orientações afirmadas que se encontram  no balanço, por  vezes mistificado, de Lionel Jospin. Após  2002, esta permanência prosperou muito sobre a manutenção,  nas correntes do partido, de grupos  de peritos ligados aos  principais “presidenciáveis”. É em especial o caso das redes dos strauss-kahniens, durante algum tempo agrupados, durante os anos 2000, sob o rótulo “Á   Esquerda na Europa”.  No seio desta rede exclusivamente composta de pessoas que têm transitado pelas escolas do poder, reencontrava-se essencialmente antigos membros dos gabinetes dos anos 1980 e 1990, dos inspetores das finanças a aconselharem  junto da muito ortodoxa  Direcção-Geral do Tesouro ou os quadros do sector financeiro (BNP Paribas, McKinsey, Natixis etc.)   –   certos membros, como François Villeroy de Galhau, o atual governador de Banque de France que, de resto, tem podido assumir as  três etiquetas  [4] . Após a retirada do seu mentor, uma parte significativa desta rede aderiu ao think tanque social-liberal Terra Nova; outra, pela mediação de Pierre Moscovici, pôs-se ao serviço do candidato socialista (nomeadamente via o grupo dito “da Rotonde”, agrupando Emmanuel Macron e os economistas postkeynesianos Philippe Aghion, Gilbert Cette e Élie Cohen). As suas análises apareciam tanto  melhor ajustadas à candidatura de François Hollande quanto  a trajetória ideológica deste último se adequava  dificilmente ao seu pretenso  “sentido da síntese”. Passado pelo IEP  de Paris, HEC e ENA, durante algum tempo conselheiro no Tribunal de Contas, socializado  à decisão política no momento da “ viragem do rigor”, quando era conselheiro económico oficioso de François Mitterrand, muito tempo próximo do antigo presidente da Comissão Europeia Jacques Delors, coautor, a partir de 1991, de um tratado de economia político social-liberal [5]  L’Heure des Choix,  Odile Jacob, Paris, 1991, François Hollande é marcado  desde  há muito tempo pelo seu conformismo em matéria económica

Não se pode naturalmente referir a orientação  liberal do mandato presidencial de Hollande  que se conclui unicamente pela  existência desta nebulosa adquirida das  receitas de mercado. Esta permite no entanto explicar uma parte do desvio entre as espectativas  do eleitorado socialista e as reformas finalmente postas em prática : as tomadas de posições económicas dos líderes socialistas dependem hoje menos das arbitragens feitas  dentro do partido, do que daquilo que defendem certos peritos às margens do Partido.  A campanha de 2012 dava já claros e  numerosos sinais desta dualidade, que o ruido  mediático de  Bourget terá largamente enterrado: “um pré-relatório Galês”, elaborado confidencialmente a partir do think tank  Terra Nova em  março de 2012, defendia já a  “melhoria da competitividade-custo das empresas”; enquanto que era considerado pelos meios de comunicação social como um indicador distintivo do candidato socialista, “a revolução fiscal” e os seus contornos conscientemente não foram  objeto de precisões técnicas   –   de facto, François Hollande ele mesmo nunca mobilizou a expressão no curso da campanha. Este último em contrapartida não hesitou a afirmar, numa entrevista concedida  à imprensa anglo-saxónica, as reformas liberais realizadas pelos precedentes  governos socialistas; durante as semanas que precedem o escrutínio,  vários mandatários socialistas eles mesmos próximos dos meios financeiros de resto eram enviados a Londres e a  Berlim a fim de assegurar aos investidores institucionais a credibilidade económica do seu país. Se as reformas que se seguiram não tinham nada de inelutável,  tiram uma parte da sua lógica daquilo que os últimos anos tinham permitido preparar. Basicamente, o duplo processo de des-ideoligização   do partido e a  exacerbação da concorrência interna contribuíram para distanciar  a maior parte dos líderes socialistas do campo de inscrição partidário em proveito  de redes elitistas  anteriormente constituídas. Numa medida significativa, são por conseguinte certas componentes burocráticas, económicas e financeiras do campo do poder que, através da candidatura de François Hollande, preconizavam elas mesmas a maneira como deviam ser ou não atingidas  pelas reformas

O exame crítico e metódico do mandato de François Hollande está ainda para ser feito. Tudo funciona no entanto como se  esse sancionasse um conjunto de mutações que, articulando-se umas com as outras, estejam a disparar hoje sobre o  Partido socialista  no seu  todo.

A ausência de corpus ideológico original, a dependência crescente das representações do adversário e a interdependência em crescendo  das suas elites com o campo do poder económico são mais outros  fatores que fazem com que o socialismo possa   aparecer hoje como   sendo apenas uma etiqueta  dos que procuram demarcar-se dele.

 


Notas:

  • Rafaël Cos é doutorando em Ciência Política no CERAPS e na  Universidade  de  Lille.
  1. Lefebvre, F. Sawicki, « Pourquoi le PS ne parle-t-il plus aux catégories populaires? », Mouvements, n° 50, 2007.
  2. Outro membro que promete ter um futuro, Emmanuel Macron assinava já, desde 2006, notas confidenciais sobre a « competitividade da Universidade francesa  ».
  3. L’Heure des choix, Odile Jacob, Paris, 1991. L’ouvrage est co-signé avec Pierre Moscovici, alors qu’ils sont tous deux conseillers à la Cour des comptes et enseignants à l’IEP de Paris.



Artigo original aqui

 O décimo sexto desta série será publicado, amanhã, 18/09/2017, 22h


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