As ruas cheias de gente, longas filas para votarem, gente de todas as idades, condições e classes sociais aderindo o protesto e apelando destarte perante surdos e cegos. Os largos repletos de gente a cantar. Doutra banda a polícia, o estado no seu pior, a fiscalia, a maquinária mediática, as ameaças, as sanções, os paus.
Nunca mais, na Catalunha, este estado criminal (que afeito a reprimir e que lhe riam as ocorrências na imprensa e na cultura espanhola despertou agitado ante uma internacionalização das críticas) vai ser considerado válido.
Espanha perdeu na Catalunha, no estrangeiro mais ou menos civilizado, e também no imaginário da gente de bem no espaço minoritário da esquerda espanhola que ainda conserva os ideais (mais ou menos) da tradição republicana Federal.

A situação na Meseta, Andaluzia… Madrid… é mais irrespirável do que nunca. O revival de nacionalismo ultra, hipercentralista e castrense, invadiu intelectuais, políticos à esquerda e direita e agora preferem compartilhar espaço e discurso público com a ultradireita e ficam alporizados e surpreendidos das reações críticas da imprensa internacional.
A atuação da policia nacional e da militar (guarda civil) apoiada pelos políticos profissionais e os grandes médios de comunicação, fica absurda. Que contraste com a atuação de Mossos. Cumpre mais ofício e formação numas forças de ordem público numa democracia, para saber dialogar, para entender, mesmo contra ordens direitas (bem questionáveis) quando uma atuação repressiva, uma agressão desproporcionada sobre uma manifestação pacífica e não violenta vai causar mais problemas de ordem público. Policiais tranquilos, levantando atas, fotografando, identificando mesmo gente e até apresentando denuncias depois, pode ter até uma lógica. Malhar na gente acouraçados e com impunidade não.
Quanto ao rei. A personagem não dá mais, agora veremos os saudosos do Juancarlismo, dizer de novo que eram juancarlistas e que não eram monárquicos. Algumas pessoas, mais e mais, também nas ruas começam a dizer adeus.
E neste processo o papel das redes sociais e o uso de internet é fundamental e também pioneiro. A desconexão entre a gente que se informa e consume os média analógicos e digitais é enorme. O domínio do espaço analógico já não é avondo e a liberdade das tecnologias digitais revela-se como fundamental à hora de superar os discursos, esquemas e até o controlo social e informativo.
As redes sociais e a informação espalhada via internet desde dispositivos móveis têm documentado e confrontado os atos civis e a repressão; têm convocado e dirigido a reação popular e a organização do plebiscito e as convocatórias e têm nomeadamente contornado os bloqueios, as censuras e as tentativas de controlar por parte do estado a informação, e encaminhado a todas as partes do mundo a informação ao vivo e no momento e ritmo que a gente improvisava.
Neste sentido a modernidade documentada, socializada nas redes e compartilhada à globalidade do mundo é algo que nunca acontecera e que deixou abalado o Governo, a média espanhola e também às instituições europeias.
Os políticos “profissionais” após décadas de venderem gestão enquanto se repartiam os turnos de governo têm sido incapazes de dar qualquer solução, mesmo de entenderem o que está a acontecer numa Catalunha, chefiada por políticos não profissionais, por gente embarcada conscientemente num projeto de ilusão coletiva mas até cumprir seu fim.
O contraste é forte. Os independentistas ganharam a partida, o resto apenas estão preocupados de qual vai ser o seu rédito político direito em caso de eleições na Catalunha e na Espanha.
As últimas jornadas, para além, acontecer o que acontecer, conformam um momento histórico, definem um processo modélico e exemplar de Independência; e também muito original e interessante. Incruento pela parte convocante, pacífico, sem exércitos, sem mortes, sem sangue. Sem necessidade dessa fantasia perversa dos 10.000 mortos sobre a mesa só imaginável na mente sádica de Felipe González. No ronsel da Revolução dos Cravos, pois a Catalunha de velho atende para Portugal e sabe que uma vez que se movimenta o povo é quem mais ordena.
A independência da Catalunha não é que tenha recuo ou que seja possível (como alguns agora começam a acreditar) postergar ou começar a negociar. Não precisa de declarações, nem de reconhecimento internacional. É. Já aconteceu. Define um tempo. Está nas ruas, há dias: é a gente.
