A GALIZA COMO TAREFA – aquesta gent tan ufana i tan superba – Ernesto V. Souza

 

As ruas cheias de gente, longas filas para votarem, gente de todas as idades, condições e classes sociais aderindo o protesto e apelando destarte perante surdos e cegos. Os largos repletos de gente a cantar. Doutra banda a polícia, o estado no seu pior, a fiscalia, a maquinária mediática, as ameaças, as sanções, os paus.

Nunca mais, na Catalunha, este estado criminal (que afeito a reprimir e que lhe riam as ocorrências na imprensa e na cultura espanhola despertou agitado ante uma internacionalização das críticas) vai ser considerado válido.

Espanha perdeu na Catalunha, no estrangeiro mais ou menos civilizado, e também no imaginário da gente de bem no espaço minoritário da esquerda espanhola que ainda conserva os ideais (mais ou menos) da tradição republicana Federal.

al carrer

Ilustração de Manel Fontdevila

A situação na Meseta, Andaluzia… Madrid… é mais irrespirável do que nunca. O revival de nacionalismo ultra, hipercentralista e castrense, invadiu intelectuais, políticos à esquerda e direita e agora preferem compartilhar espaço e discurso público com a ultradireita e ficam alporizados e surpreendidos das reações críticas da imprensa internacional.

A atuação da policia nacional e da militar (guarda civil) apoiada pelos políticos profissionais e os grandes médios de comunicação, fica absurda. Que contraste com a atuação de Mossos. Cumpre mais ofício e formação numas forças de ordem público numa democracia, para saber dialogar, para entender, mesmo contra ordens direitas (bem questionáveis) quando uma atuação repressiva, uma agressão desproporcionada sobre uma manifestação pacífica e não violenta vai causar mais problemas de ordem público. Policiais tranquilos, levantando atas, fotografando, identificando mesmo gente e até apresentando denuncias depois, pode ter até uma lógica. Malhar na gente acouraçados e com impunidade não.

Quanto ao rei. A personagem não dá mais, agora veremos os saudosos do Juancarlismo, dizer de novo que eram juancarlistas e que não eram monárquicos. Algumas pessoas, mais e mais, também nas ruas começam a dizer adeus.

E neste processo o papel das redes sociais e o uso de internet é fundamental e também pioneiro. A desconexão entre a gente que se informa e consume os média analógicos e digitais é enorme. O domínio do espaço analógico já não é avondo e a liberdade das tecnologias digitais revela-se como fundamental à hora de superar os discursos, esquemas e até o controlo social e informativo.

As redes sociais e a informação espalhada via internet desde dispositivos móveis têm documentado e confrontado os atos civis e a repressão; têm convocado e dirigido a reação popular e a organização do plebiscito e as convocatórias e têm nomeadamente contornado os bloqueios, as censuras e as tentativas de controlar por parte do estado a informação, e encaminhado a todas as partes do mundo a informação ao vivo e no momento e ritmo que a gente improvisava.

Neste sentido a modernidade documentada, socializada nas redes e compartilhada à globalidade do mundo é algo que nunca acontecera e que deixou abalado o Governo, a média espanhola e também às instituições europeias.

Os políticos “profissionais” após décadas de venderem gestão enquanto se repartiam os turnos de governo têm sido incapazes de dar qualquer solução, mesmo de entenderem o que está a acontecer numa Catalunha, chefiada por políticos não profissionais, por gente embarcada conscientemente num projeto de ilusão coletiva mas até cumprir seu fim.

O contraste é forte. Os independentistas ganharam a partida, o resto apenas estão preocupados de qual vai ser o seu rédito político direito em caso de eleições na Catalunha e na Espanha.

As últimas jornadas, para além, acontecer o que acontecer, conformam um momento histórico, definem um processo modélico e exemplar de Independência; e também muito original e interessante. Incruento pela parte convocante, pacífico, sem exércitos, sem mortes, sem sangue. Sem necessidade dessa fantasia perversa dos 10.000 mortos sobre a mesa só imaginável na mente sádica de Felipe González. No ronsel da Revolução dos Cravos, pois a Catalunha de velho atende para Portugal e sabe que uma vez que se movimenta o povo é quem mais ordena.

A independência da Catalunha não é que tenha recuo ou que seja possível (como alguns agora começam a acreditar) postergar ou começar a negociar. Não precisa de declarações, nem de reconhecimento internacional. É. Já aconteceu. Define um tempo. Está nas ruas, há dias: é a gente.

 

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