LACORRILHO NÃO CIGANO por Luísa Lobão Moniz

Fui professora num bairro lisboeta com grande predominância de meninos e meninas ciganos.

A escola dizia que eles andavam sempre sujos e iam para a escola só para comer. No entanto, tudo se resolvia no final do primeiro período lectivo, porque a partir desta data, as famílias iam para as feiras.

Já sabemos que muitas das coisas que vendiam ( e vendem) tinham origem duvidosa, tinham sido copiadas de roupas, as mais cobiçadas pela moda, e que eram muito caras no mercado legal.

As mulheres vendiam, os filhos ajudavam e os homens vigiavam para saber se a polícia estava por perto.

Há uns anos falou-se em fazer um dicionário calo/português não só para que as crianças e os jovens não se esquecessem da Língua Materna, e de certa maneira dar valor às palavras que os ciganos portugueses pronunciavam entre eles.

Este dicionário seria o reconhecimento da comunidade maioritária não cigana, seria o reconhecimento da igualdade de acesso à escola, e, de passar os seus viveres para a linguagem escrita.

Teríamos os ciganos portugueses possuidores da sua Língua Materna para poderem transmitir, por escrito, as suas tradições, as suas histórias…. Dando continuidade à sua História, à cultura, ao seu sentimento de pertença, à sua auto-estima e à sua especificidade enquanto cidadão.

Quando se fala em exclusão por parte da comunidade maioritária também se pode referir a auto exclusão dos ciganos neste domínio. Assim os não ciganos ficariam a saber o que eles diziam relativamente ao negócio.

Eles sabem o valor e o poder das palavras e, por isso, foram contra a divulgação da sua Língua Materna aos não ciganos, aos gadgés.

Os ciganos estão muito ligados a simbologias. Não há família cigana que não tenha sempre (quando podem) fruta em casa. Cada fruta traz consigo um significado, a maçã vermelha significa “paixão cigana”.

Me bushov… = Meu nome é…

Rom       homem

Romi       mulher

Estes são apenas exemplos de uma Língua, que pouco se conhece e, que teima em não se deixar conhecer.

Só a união muito forte entre todos os elementos da família e o secretismo de certas tradições e da sua própria Língua faz com que sejam uma das etnias que mais resiste à inclusão social.

 

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