A VIDA NÃO SE INVENTA – Entrevista com MANUEL DA FONSECA, em Julho de 1969, conduzida por MANUEL SIMÕES

 

(1911 – 1993)

20151109_154327Raras vezes um escritor terá estado tão perto das suas raízes como nesta conversa que travámos com Manuel da Fonseca. Homem modesto, duma modéstia que não é falsa, sente-se nele toda a franqueza do alentejano que, segundo o autor de Seara de Vento, é vertical porque é da planície, pisa um chão sem acidentes. É em tudo isto que vamos pensando enquanto se desenrola o nosso diálogo. E como o nosso interesse incidia exclusivamente sobre a sua obra poética (e possíveis relações com alguns textos poéticos de García Lorca), é dela naturalmente que vamos falar.

MANUEL SIMÕES – Do confronto entre Romancero Gitano, de Lorca, e a sua poesia pareceu-me encontrar homologias profundas. Que tem a dizer acerca disso?

MANUEL DA FONSECA – O aparecimento de um escritor sem influências é anti-dialéctico por natureza: basta pensar na influência de Góngora sobre Lorca. De qualquer modo há alguns contrastes entre Lorca e a minha poética. Estou a pensar na riqueza formal de Lorca; em mim, a poesia é mais seca e árida, devido à contensão do poeta perante os factos, muito embora eu caia, apesar de tudo, num certo lirismo. Esse lirismo é uma amálgama de coisas sentidas, de contensão, o que exclui a explosão de Lorca.

MS – Mas admite um contacto entre as duas poéticas?

MF – A certa altura da minha vida vou a um médico. Vejo uma revista brasileira. Tinha uns quinze anos e já escrevia poemas. Na revista existia um poema: foi a primeira leitura de Fernando Pessoa. Mais tarde vi o anúncio de um livro numa revista francesa. Comprei o livro, era de García Lorca, em edição francesa. Então cantei Lorca por toda a parte, encontrei-me com Lorca, o do Romancero Gitano.

MS – Mas há entre a Andaluzia e o Alentejo muito de comum, aspectos até de sentido dramático…

MF – García Lorca dá-nos perfumes, frutos, cores. Esse lado era-me estranho. Mas o aspecto do Romancero era comum. Acontece que, no Alentejo, o povo canta acontecimentos. Canta sempre um facto, mesmo quando é mulher. Cantam-se, como disse, acontecimentos, às vezes violentos. Quer exemplos?

Quem me dera ser um boi

o animal mais maior

para ir dar um berro

à porta do meu amor

ou então:

Ó Beja, terrível Beja,

Beja da minha desgraça,

eram quatro horas da tarde

quando lá assentei praça.

MS – Admite, então, a influência de Lorca na transformação da sua primeira poesia…

MF – Sim, por exemplo, a influência dos camponeses que depois fui reencontrar no Lorca. Também a gente do campo que entra na poesia de Lorca viveu uma situação semelhante à do alentejano, condicionado pelo latifúndio. Encontrei-me no García Lorca, perdeu-se em mim um certo pendor para o abstracto, daí o facto de passar a dar nomes às personagens: Jacinto Baleizão, Maria Campaniça. etc.. É esta a mais válida influência de Lorca. Mas a musicalidade minha é mais do nosso “romanceiro”, embora me ficasse um pouco a musicalidade de Lorca. Resumindo: primeiro a inspiração popular, depois o confronto com Lorca e sua influência. Já nada poderei adiantar sobre a linguagem, isso será para os estudiosos.

MS – Como era o ambiente cultural na Lisboa daquela época?

MF – Apesar de tudo, Lisboa era diferente do que é hoje. Vivia-se numa noite negra. Com a vinda dos turistas, os costumes começaram a alterar-se. A “Suíça” nasceu nessa altura, as mulheres expunham-se ao sol do Rossio e as portuguesas imitaram-nas. Dá-se uma série de conhecimentos em cadeia. A malta invade o Café Madrid, aqui conheci o Mário Dionísio, o Soeiro Pereira Gomes, etc.. Estabelece-se aí um convívio. Havia nessa altura o Diabo, tomámos conta do jornal. Começámos todos a escrever.

MS – Portanto, foi da sua ligação com Mário Dionísio que veio a integrar-se no Novo Cancioneiro?

MF – Estávamos todos integrados mas foi assim que apareceu o meu livro Planície.

MS – Liam autores estrangeiros, obras de referência ou, como alguma crítica pretende, era tudo intuído?

MF – Líamos o Alberti, o Antonio Machado, o Lorca, no original, em edições da Calper, editora argentina. Não é verdade que fosse só intuído, o homem atento lia realmente obras teóricas que estão na base do nosso fazer literatura. Éramos interessados, queríamos fazer uma arte voltada para o povo. Não há monstros na literatura. Penso que li muito bem, medindo circunstâncias.

MS – Mas tem havido tanta controvérsia sobre o conceito de neo-realismo que se justifica a pergunta: considera-se escritor neo-realista?

MF – Pois é, é uma pergunta difícil. Posso dizer que sou e não o digo por vaidade. A minha interpretação do neo-realismo é a que dou nos meus livros: é este estar com os outros. E como o neo-realismo não é uma escola, ainda estou mais à vontade para o dizer. Depois, se a minha obra é ou não conseguida, dentro desse conceito, isso não me cabe analisar.

MS – Poderia precisar melhor o seu conceito de neo-realismo?

MF – Um novo realismo, é vago. Digamos que faz uma análise social, uma literatura revolucionária, de intenção, pelo menos. O neo-realismo trouxe para a literatura portuguesa uma vasta camada de gente que até aí não entrava na literatura: o homem pintor, o homem ceifeiro, o homem operário. Tudo isto com uma formação teórica na base da criação.

MS – Acha que tem hoje (1969) significado a designação de neo-realismo?

MF – Nada mudou, o país tem as mesmas estruturas sociais, continua vivo o neo-realismo. O  neo-realismo não tem a estreiteza que alguns lhe dão. O neo-realista olhou para o campo ou para a fábrica porque era o mundo originário do escritor. O neo-realismo é um olhar sobre um mundo onde quem fala pretende integrar-se nele, há um olhar sobre…

MS – Dois movimentos neo-realistas? O que lhe parece?

MF – Talvez tenha havido um pendor para a quantidade em detrimento da qualidade. Não falarei de nomes. Mas a certa altura houve uma mudança, às vezes desvio da linha ideológica inicial.

MS – Parece-nos, pois, que sendo a poesia uma aprendizagem, uma oficina…

MF – Nos autores válidos, a inspiração tem um nome: o trabalho persistente. A experiência humana, que inclui trabalho e estudo, é para mim a génese da obra de arte. A vida não se inventa.

(Nota: esta entrevista ficou inédita. Apesar de vários encontros com Manuel da Fonseca, na sua casa da Penha de França, para rever a versão definitiva, o poeta tinha sempre deixado na casa do Alentejo o texto original. MS.)

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