FRATERNIZAR – Novembro, castanhas e vinho – MORTOS E SANTOS PARA QUE VOS QUERO?! – por MÁRIO DE OLIVEIRA

 

É preciso muito mau gosto cristão católico e ter um viver aterrorizado desde a infância perante a Morte, nossa irmã gémea, para, logo no início do mês dos magustos e da prova do vinho novo, impor aos seus castigados súbditos o dia de todos-os-santos e o dia da invasão aos mortos nos cemitérios. Só mesmo de clérigos celibatários à força, carregados de privilégios castradores, com viveres amargurados, tecidos de esterilidade e de solidão. Não suportam ver os seus súbditos “perderem-se” nas festas das castanhas e do vinho novo, para cúmulo, apadrinhadas por um tal de s. martinho que, depois de ter repartido o manto pelo mendigo nu, nunca mais teve emenda, ao ponto de acabar padrinho de todas elas. Nem sei como os clérigos do topo da pirâmide eclesiástica ainda não retiraram o nome dele do catálogo dos santos, cada qual com a sua especialidade, por sinal, todas prejudiciais. É tempo de gritar a uma só voz, Mortos e santos, para que vos quero?!

Devo reconhecer que não há fim mais desgraçado e absurdo do que alguém acabar um dia reduzido a santo-de-altar. Ou a morto cultuado num cemitério. Vejam só. Vai já para 20 séculos que s.pedro-e-s.paulo, por exemplo, permanecem naquela mesma posição de santo de altar. Um de chaves-na-mão e o outro de-espada-em-punho. O mesmo se diga dos mortos dos jazigos condenados a ter de apanhar todos os sábados com carradas de flores, as mais caras do mercado e com todas aquelas hipócritas lágrimas dos familiares e pseudo-amigos que, no primeiro dia do mês de novembro transformam os cemitérios num mar-de-vaidades e de desavergonhados desfiles-de-modas. Onde se combinam encontros proibidos a desoras, nos quais o sexo é furiosamente praticado, numa desesperada tentativa de afugentar o medo da Morte. Sem perceberem que desse modo mais não fazem do que gritá-lo aos quatro ventos! Porque tudo é feito sem um pingo de ternura, arte de cuidar e amor recíproco, sem dúvida as três expressões maiores da Vida humana.

Quando, afinal, a Morte é a irmã gémea que leva a vida de cada qual à plenitude.

Chegados ao terceiro milénio cristão, cumpre-nos reconhecer que o cristianismo, nas suas múltiplas igrejas, é o pior que, como Humanidade, nos aconteceu. Com ele, até as mais fascinantes obras de arte, nos múltiplos ramos em que ela se diz-revela – música, arquitectura, pintura, escultura, teatro, literatura – são portadoras de um sopro que envenena-acorrenta as mente-consciências e as mata. Ficamos deslumbrados perante elas, mas sempre e cada vez mais sem vez nem voz. Como bois a olhar para os palácios. Artistas houve que tentaram fintar os grandes eclesiásticos-mecenas, mas porque não cortaram o cordão umbilical que os ligava  a eles, acabaram pior que eles. Tudo o que criaram para eles foi logo utilizado por eles para manterem as populações e os povos acorrentados, infantilizados, tolhidos, submissos. Ao ponto de nascerem, crescerem, viverem e morrerem reféns deles. Como o dia de todos os santos e o dia dos mortos – dois no calendário, na verdade, dois-em-um – aí estão ainda a gritar, por mais laica, agnóstica, ateia que a nossa sociedade hoje se diga. Mantém-se demencialmente cristã.

Nem Lutero, há 500 anos, com o seu grito do Ipiranga contra o centralismo papal e o seu poder monárquico absoluto, conseguiu mudar as coisas na raiz. Pelo contrário, acabou por dar ao cristianismo popular o rosto elitista e erudito que lhe faltava, ao apostar forte e feio na Bíblia, com destaque para o Evangelho de S. Paulo que atira para a vala comum o Evangelho de Jesus, este sim, todo pró-seres humanos e povos maieuticamente religados entre si, sem deuses nem chefes, progressivamente sujeitos dos seus próprios destinos. Excomungado pelo papa de então, está em vias de canonização pelo de hoje. Francisco sabe, como jesuíta, que, com a unidade dos cristianismos e a Bíblia, o monárquico e infalível Poder papal é absoluto. Com os seres humanos e os povos reduzidos a robots!

P.S.

O MEU COMENTÁRIO AO TEXTO DE ANSELMO BORGES NO DN DE HOJE

Pecas, meu querido amigo e irmão Pe. Anselmo Borges, porque todo o teu discurso aqui é a invocar o nome de Deus até à exaustão. Aliás, na mesma linha do cristianíssimo papa Bento XVI que chega a perguntar, Por que Deus se calou perante todo aquele Horror. Os cristãos, como os ateus – são as duas faces da mesma postura – são lestos a virar-se, respectivamente, para Deus e contra Deus e com isso enredam-se nos seus discursos filosóficos e teológicos, sem nunca encararem de frente a Realidade, que são os milhões de vítimas, e muito menos as escutarem com o coração. Na verdade, Auschwitz está aí a acontecer a cada segundo, só que de maneira mais sofisticada e globalizada. Indignamo-nos com o de ontem, ao mesmo tempo que desfrutamos sem quaisquer remorsos dos privilégios que o actual tipo de economia-teologia que mata silenciosamente os povos e o planeta Terra nos garante. Totalmente blindados aos gemidos que dia e noite sobem da Terra até nós. Escrevi, Até nós, não até Deus que nunca ninguém viu. Sim, até nós que dizemos crer ou não-crer (em) Deus. Somos uns hipócritas, uns cínicos, uns racionais canibais. Numa palavra, a negação viva do HUMANO, só porque andamos demencialmente obcecados com a hipótese Deus que não vemos, em vez de sermos-vivermos, politica e maieuticamente religados uns aos outros, a cuidar dia e noite de nós, uns dos outros e do cosmos. Como se Deus não existisse.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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