CARTA DO RIO – 176 por Rachel Gutiérrez

O assunto não pode ser outro: discriminação e assédio sexual. E o perigoso mundo que as mulheres ainda precisam enfrentar na segunda década do século XXI.

Para começar, basta ler o que escreveu Rosiska Darcy de Oliveira, em seu artigo do último sábado: Ciro Gomes [candidato à Presidência da República do Brasil] decretou que as eleições de 2018 serão brincadeira de meninos. Marina [Marina Silva, que já foi candidata em 2010 e obteve a terceira colocação e, em 2014, chegando de novo em terceiro lugar, com mais de 22 milhões de votos] fica fora do jogo por falta de testosterona. Jogo agressivo, coisa de macho.

E a escritora acrescenta: Discursava para empresários, falava grosso. Será que alguém riu? OU protestou? Ou passou despercebida essa manifestação – Ciro, de novo – de machismo explícito?

É provável que tenham rido, como a própria ex-presidente Dilma Rousseff riu quando Lula fez uma piada extremamente grosseira sobre uma de suas principais colaboradoras. Foi no auge de algumas visitas policiais da Lava Jato, em 2016. Reproduzo apenas o que circula na internet desde então:

 Em (…) conversa, desta vez com Dilma, Lula critica as apreensões nas casas dos filhos e dos membros do Instituto Lula, como  Clara Ant (uma das fundadoras do PT e atualmente assistente pessoal do ex-presidente e diretora do Instituto Lula): “A Clara tava dormindo sozinha quando entrou (sic) cinco homens lá dentro, ela pensou que era presente de Deus, era a Polícia Federal, sabe?” Dilma ri e pergunta: ‘Ela pensou que era um presente de Deus?” 

Que aconteceu com Dilma Rousseff, “a primeira Presidente mulher que tivemos” e que exigia ser chamada de Presidenta, para nem sequer ficar calada e não rir de piada machista tão debochada e ofensiva?

Volto ao excelente artigo de Rosiska Darcy de Oliveira que lembrou que …

Outro pretendente à Presidência da República, parlamentar, disse à deputada Maria do Rosário que não a estupraria porque ela não merecia. Uma agressão que foi parar no Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro virou réu, mas seus possíveis eleitores aumentaram.

Rosiska reporta-se então aos escândalos hollywoodianos que acabaram por destruir a carreira do famoso produtor Harvey Weinstein, que exerceu grande poder durante décadas cobrando propinas sexuais às atrizes que catapultava ao estrelato. E explica que a antessala do sucesso era o quarto de hotel do produtor.

O que espanta nessa história sórdida é que só agora dezenas de mulheres oprimidas e humilhadas pelo predador contumaz tiveram coragem de denunciá-lo, após a primeira revelação, se não me engano feita por Rose McGowan, atriz que eu costumava ver, numa divertida série de TV intitulada Charmed, sobre bruxas boas às voltas com os males do mundo.  O estouro midiático incluiu denúncias das famosíssimas Angelina Jolie e Gwyneth Paltrow. Continuemos com Rosiska:

Agora, que elas ousaram falar, abriram-se as comportas de um mar de ressentimentos até então represados, que inundaram a imprensa mundial. As francesas ecoaram os protestos das americanas e publicaram na internet milhares de depoimentos sobre situações vividas de assédio agressões sexuais e estupros.

Vale a pena lembrar que entre nós, em abril de 2017, bem antes desse escândalo que “viralisou” no mundo inteiro, modelos acusaram sócios da Revista Playboy brasileira de assédio sexual. Um deles prometia fama e sucesso em trabalhos como modelo e atriz, mas, em troca, queria sexo e fotografias das candidatas a estrelato nuas. As mulheres foram contratadas em 2016 para trabalhar como recepcionistas em um evento como personagens clássicas da revista, as “coelhinhas”. Durante o evento, segundo a denúncia, os empresários fizeram propostas sexuais, constrangendo e assediando as garotas.

E o comentário do último artigo de Rosiska serve também para elas:

As propinas sexuais cobradas por quem tem autoridade sobre as mulheres são uma forma de prostituí-las.  E outra afirmação contundente é a de que o assédio e a violência sexual ainda são absolvidos pela cultura, mesmo quando proibidos por lei.

(Tudo isso me remete a uma de minhas obsessões: a de que é preciso educar meninos e meninas, desde a mais tenra infância, para que aprendam a respeitar uns aos outros, “numa relação de ser humano para  ser humano, não de macho para fêmea”. Para que o adolescente não seja levado a pensar que pode dominar e subjugar sua jovem namorada; para que a moça saiba defender sua autonomia e liberdade a ponto de exigir do parceiro, por exemplo, o uso do contraceptivo. Ah! quanta gravidez precoce seria assim evitada !)

Que cultura é essa? Que homens são esses, empregadores, chefes, ou simples parceiros que, no terceiro milênio da era cristã, continuam a pensar que a mulher é uma cidadã de segunda classe, que pode ser desrespeitada, explorada, violentada?

Como diz Rosiska, com absoluta propriedade:

Dar um basta nessa aberração é um imperativo civilizatório.

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