CARTA DO RIO – 180 por Rachel Gutiérrez

O mundo é mágico.

                                                                João Guimarães Rosa

Já me referi algumas vezes ao ano de 1992, que passei todo na França e na Alemanha a fim de realizar uma pesquisa para escrever minha tese de Doutorado em Filosofia. Devo ter contado também que a projetada tese foi abandonada e transformou-se na minha primeira peça de Teatro, que leva o nome da escritora e pioneira da Psicanálise – Lou Andreas-Salomé. A vida fascinante da grande intelectual da belle époque sobrepujou, naquele momento, o interesse por sua obra da qual eu havia pretendido extrair uma Teoria do Poético, hipótese, aliás, que ainda considero válida.

Lembrei o ano de 1992 porque foi naquele período, no final dos quatro meses que passei em Hannover, estudando Lou Salomé que ao me encontrar distraída lendo, sentada num bonde, um agilíssimo batedor de carteiras levou todo o dinheiro que eu tinha na bolsa e, o que foi mais grave: roubou-me também o passaporte.

Depois de um fim de semana dramático, com apenas alguns tostões num porta níqueis – (tudo o que sobrara) – pedi dinheiro emprestado a uma secretária da Universidade, que era também a senhoria do quarto que eu alugava, e tratei de entrar em contato com a Embaixada do Brasil em Bonn porque Hannover só possui um Consulado não autorizado a fornecer passaportes. A Embaixada de Bonn foi rápida e eficaz. Porém, solucionada a primeira questão, surgiu outro problema: com o passaporte roubado, perdera-se o Visto de permanência na França, sem o qual eu seria considerada clandestina. E a Alemanha, evidentemente, não poderia me dar um visto francês. Corri um primeiro risco viajando num trem noturno para entrar em território francês. Por sorte,  ninguém examinou meu passaporte. Minha situação, porém, era delicada e perigosa. Foi então que uma querida amiga de passagem pela França, a sexóloga e escritora espanhola Fina Sanz, companheira feminista que eu conhecera no Rio, sugeriu que eu fosse a Bruxelas, onde uma sua amiga diplomata talvez pudesse me ajudar. Falou com ela por telefone. E lá fui eu, com meu novíssimo e virginal passaporte, bater à porta de uma desconhecida (embora amiga de minha amiga) que me recebeu de braços abertos em seu pequeno apartamento, com um bolo feito especialmente para me recepcionar. A jovem extremamente amável e simpática, tratou logo de me encaminhar a uma Secretaria que tratava de assuntos alfandegários.  Infelizmente, nada consegui. Os belgas não quiseram me ajudar.  Em dois dias, contudo, pude conhecer um pouco da bela Bruxelas, ciceroneada pela nova amiga, cuja disponibilidade e generosidade muito me comoveram e sobre quem desejo falar. Antes, porém, preciso terminar o relato daquele imbróglio causado pela perda do passaporte. Cruzei de volta a fronteira da Bélgica com a França ainda na condição de clandestina, mas em Paris, lembrei-me de outra amiga feminista, a jornalista Claude Charon, que trabalhava no Ministério des Affaires Extérieures e que foi quem finalmente me facilitou o bendito visto francês que eu tanto necessitava.

Amigas e amigos são absolutamente preciosos!  E aqui é inevitável que eu  evoque mais uma vez a frase do anjo Clarence no filme clássico de Frank Capra, A Felicidade não se compra: No man is a failure who has friends! (Nenhum homem é um fracasso se tem amigos).

Pois bem. 25 anos depois, eis que tive a alegria de rever minha amiga  Paola Amadei neste último fim de semana. Eu já havia tido a oportunidade de retribuir sua acolhida, recebendo-a em meu apartamento do Leme, no Rio, faz alguns anos. Desde aqueles idos de 1992, pouco nos vimos, mas nunca chegamos a perder o contato.  A diplomata, nascida em Gênova, que sem me conhecer, em 1992, me hospedou na Bélgica com carinho é  agora uma senhora, casada com um psicólogo colombiano, mãe de um rapaz de 14 anos e tem vivido em várias partes do mundo: África do Sul, Jamaica, Colômbia, Chile, Estados Unidos… Atualmente está sediada em Hamburgo, na Alemanha. E veio ao Brasil como Diretora Executiva da EU-LAC Foundation, (Fundação Europeia e da América Latina) em visita a São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, para uma série de encontros e conferências. A sede da Fundação é em Hamburgo e foi criada em 2010 por Chefes de Estado e de Governos da União Europeia de 28 países, e pela CELAC (Comunidade de Estados Latino Americanos e Caribenhos) , que representa 33 países da América Latina e do Caribe. Essa Fundação encontra-se em processo de transformação num Organismo Internacional com mandato para incrementar e fortalecer as relações da União Europeia com a América Latina e o Caribe.

E o tema abordado na Conferência por minha amiga Paola Amadei foi sobre Desenvolvimento Sustentável e Democracia na era Trump. (!) (Pedi-lhe que me mandasse uma cópia de seu trabalho).

Alegrou-me também nesse reencontro, a oportunidade que tivemos de visitar, juntas, o Museu do Amanhã, na zona portuária lindamente revitalizada, mas não tão bem cuidada como deveria estar.

Diz o Google, na Wikipedia:

A proposta da instituição é ser um museu de artes e ciências, além de contar com mostras que alertam sobre os perigos das mudanças climáticas, da degradação ambiental e do colapso social. O edifício conta com espinhas solares que se movem ao longo da claraboia, projetada para adaptar-se às mudanças das condições ambientais. A exposição principal é majoritariamente digital e foca em ideias ao invés de objetos.

Paola visitou todas as salas, leu a maior parte dos textos explicativos, apreciou e admirou o trabalho dos artistas e cientistas que contribuíram na criação dessa maravilha que é o nosso novo Museu, assim como a belíssima realização do projeto arquitetônico de Santiago Calatrava.

Depois, tivemos o prazer de fazer um pequeno passeio utilizando o confortável VLT e pude observar que os bondes continuam limpos e bem conservados. De acordo com uma notícia dos jornais de hoje, fiquei sabendo, além disso, que mesmo sem cobradores, apresentam um índice baixo (10% ) de calote. (Respira-se ao verificar que nem tudo está perdido.)

Almoçamos excelentes frutos do mar no antigo restaurante Albamar, da Praça XV, que tem uma vista maravilhosa sobre a baía da Guanabara. Só lamentei que tenham-lhe trocado o nome para Ancoramar.  E pudemos matar saudades conversando bastante.

Hoje, minha amiga partiu para Brasília e, de lá, retornará à Alemanha. Só posso dizer que sua visita, como dizem os franceses, m’a réchauffé le coeur. E desejo-lhe muito sucesso em seu importante trabalho.

One comment

  1. Desfrutei um pouco deste convívio com Paola e afirmo, com alegria, que esta amiga europeia me trouxe golfadas de civilização e esperança neste Rio de Janeiro tão derrotado. Obrigada Paola, Edda Gutiérrez, Rio, Brasil.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: