ALMINHA DO ARQUIPÉLAGO, por CÉSAR PRÍNCIPE

 

No âmbito das denegrições e celebrações da Revolução de Outubro, evocaremos, no fechar do centenário, um cabeça de cartaz anti, um tal Alexander Soljenytsine.1 Este guarda-branco da Intelligence foi fonte inquinada de citação. Enfeitou estantes de leitores Readers Digest.2 Aqui se faculta o perfil. AS faria hoje (11 de Dezembro) 99 anos. Recomenda-se a divulgação do elogio fúnebre. Os amigos ocidentais premiaram-no por razões encobertas e desvalorizaram-no por razões de incontinência verbal e esgotamento de ciclo. Afinal, se o houvessem honrado por causa da literatura, continuariam a abrir-lhe as portas e as páginas da perenidade. Mas interromperam os actos de culto do apóstolo Alexander. Deixou de ter cotação na Bolsa das Letras. E obviamente: para quê um AS sem URSS?

 

A genialidade de Soljenytsine foi obra de fabricantes e vendedores de best-sellers. Contou com o beneplácito de agências especiais e das chancelarias que mais ordenam, entidades que costumam primar pela fineza exegética e pelo rigor hermenêutico. AS foi lançado como foguetão editorial. Entreabertos os panos de fundo da temporada, ficou a nu que o novo Dostoiévski e terçador de rights não passava de um produtor de escrita mediana, dissidente profissional, fanático religioso, homem das cavernas políticas, egocentrista delirante, não apenas nostálgico do czarismo3 e inimigo jurado e conjurado da Revolução Russa, mas inimigo da Revolução Francesa e defensor das Ditaduras Exemplares de Franco e Pinochet (e para que não escapasse qualquer movimento de emancipação à superfície do planeta) também se mostrou bilioso e belicoso adversário da Revolução Portuguesa e até instou os Estados Unidos a intervir militarmente. E de furor em furor, a criatura incitou os USA a regressar ao Vietname para, desta feita, ganhar a guerra. Não tinham chegado três milhões de mortos e um país napalmizado. Para AS, a lição ficou por dar. AS sentia-se desconsolado: afinal, os USA é que a receberam uma Aula de História. E para mais ilustrar as incompatibilidades com a civilização e os ensinamentos dos séculos, AS não deixou de vincar a verbe anti-semita.

Eis o literato do Pavilhão dos Cancerosos.4 Eis o cavaleiro das cruzadas de papel. Imagine-se até onde iria Alexander, o Pequeno, se Deus Nosso Senhor não houvesse convocado a sua alma penada. Os céus, tementes da degradação deste activo, emanaram, in extremis, um mandado de apresentação.5 Na Terra, tirando alguns apanhados pelo clima, já ninguém o lia nem ouvia. Nem sequer as beneméritas fundações e as eméritas universidades dos USA e da Europa-Anexo dos USA que lhe enalteceram a tecelagem novelesca e nobelesca, dramatizaram a biografia e esmaltaram a fotografia: quando fixou residência na Suiça e nos Estados Unidos e se revelou um desbocado e mal-agradecido, um crescendo de promotores iniciou um processo de distanciação e desclassificação da alminha penada do Arquipélago, apontando o laureado como doido varrido. Os mais corteses reduziram-no a autor geopolítico. Soljenytsine nunca foi um bom texto. Foi um bom pretexto. Perdida a utilidade, foi desligado da máquina.

Ícones? Não faltam. Nos tempos que correm, basta expor certas glândulas.6

 

  1. Alexander Soljenytsine (1918-2008). Prémio Nobel da Literatura, 1970. Livro mais difundido: Arquipélago de Gulag, 1973. Independentemente do teor da narrativa-perspectiva sobre os campos de reeducação, a obra deveria ter sido editada na URSS e sujeita a escrutínio. A hostilização do autor sem publicação da obra conferiu-lhe uma aura de mártir das letras.  Ora, as letras é que foram martirizadas pelo escritor.

  2. The Reader`s Digest/Selecções. Revista norte-americana. Fundada em 1922. Propriedade de um dos empórios editoriais USA. Bem sincronizada com aparelhagens sistémicas (finança, economia, serviços secretos, estado). Apregoadora da excelência imperial. Vertida em 35 línguas. Distribuída em 120 países. Tiragem: 45 milhões de exemplares. A linha editorial vai do anticomunismo catequético até às propriedades curativas do alho. Também selecciona gracinhas para a classe-média.

  3. AS fez-se devoto da despótica estirpe Romanov. Radicalizado contra o socialismo em particular e a democracia em geral, revelou toda a compreensão relativamente a Nicolau II (1894-1917), consumado patrocinador de massacres, deportações, guerras interimperialistas, beneficiário do parasitismo fundiário e fiduciário, do jugo tributário, do estado de calamidade social (trabalho sem direitos, fome generalizada, analfabetismo massivo, drama sanitário), acirrador do anti-semitismo. James Ramsay Macdonald (1866-1937), líder do Partido Trabalhista Britânico, considerou o agora São Nicolau uma criatura manchada de sangue, um vulgar assassino. Na mesma linha, Theo Aronson (1929-2003), historiador real, esclareceu que Jorge V, primo direito de Nicolau II, abandonou o czar à sua sorte devido à reputação de tirano e sanguinário. O rei inglês temeu um levantamento operário no seu país no caso de acolher o imperador russo. E para se demarcar e livrar de tão incómodo parente, retirou-lhe o convite de asilo a título pessoal e diplomático.

  4. Pavilhão dos Cancerosos, 1968. Relata-recria a ambiência de um hospital oncológico em Tashkent (Uzbequestão), onde o autor, em 1954, foi reconhecidamente tratado com sucesso, embora o conteúdo do romance viesse a ser lido como metáfora do regime. Política da doença. Doença da política.

  5. O cadáver foi depositado no Mosteiro Ortodoxo de São João de Donskoi (ao lado do altar), Moscovo.

  6. O grupo Femen, com sede cosmopolita em Paris, fundado na Ucrânia, em 2008, é flagrante e fulgurante exemplo das novas modalidades e actorias de protesto. O Sextremismo é o seu programa político-empresarial. Dizendo-se fervorosas feministas, são lideradas por um homem e pelas suas cenografias da zaragata. E terá sido o homem o congeminador-inventor da trupe. As meninas de Victor Svyatski protagonizam a mais desenfreada corrida aos armamentos. Marcam a transição da guerra fria para a guerra quente. Sem aviso prévio, lançam as bombas anatómicas em recintos fechados, nas ruas ou na cara de alguns estadistas. Fazem agenda. Um dos alvos tem sido o ditador Vladimir Putin. As Femen de Kiev são mais consensuais e mais baratas do que os santinhos de Donskoi.

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Nota de A Viagem dos Argonautas

Pedimos desculpa a César Príncipe e a todos os leitores de só hoje publicar este texto, que está connosco há uma semana. O atraso de oito dias deve-se única e exclusivamente a problemas nossos, nomeadamente do responsável pelo presente post. A sobrecarga de trabalho e de problemas de ordem pessoal, está na origem desta situação.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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