Sobre o espírito do capitalismo. Introdução, por Júlio Marques Mota

imagem Deus mercado

Sobre o espírito do capitalismo

Introdução

Por Júlio Marques Mota julio-marques-mota

 

Dedico esta série à minha neta que me encheu a cabeça com o espírito de Natal, tão preocupada que anda em entender o mundo e a si própria através, sobretudo, da literatura e do cinema.

Júlio Marques Mota

26 de Dezembro. Fui com a minha neta de 15 anos ao cinema, ver o filme O Homem que inventou o Natal, um filme muito bem feito a explicar-nos como terá sido o processo de criação dessa obra espantosa de Charles Dickens conhecida na língua portuguesa com o título Um conto de Natal. 

Antes disso, vimos os dois o filme Um conto de Natal em duas versões. A primeira versão vimo-la na noite de 24 de Dezembro tendo como realizador Robert Zemeckis e como ator principal Jim Carrey. Desistimos a pouco mais de meio, por acharmos que se trata de uma versão um pouco fria, demasiado virtual para o nosso gosto. Na noite de 25 visionámos uma versão já antiga que ela tinha visto quando era pequena, no final da escola primária, na sequência da leitura do livro, na época editado numa edição de bolso. Tratava-se aqui de uma realização de Ronald Neame, com Albert Finney no principal papel.

Armados com estes visionamentos fomos então ver o filme O Homem que inventou o Natal. E não considerámos nenhum do tempo gasto como tendo sido tempo perdido. A revisão do filme da obra de Dickens permitiu-nos ver não só como foi criada a obra de Dickens, Um Conto de Natal, decalcado da realidade do capitalismo de então na Inglaterra, como também nos permitiu ver como é que foi criado o próprio filme O Homem que inventou o Natal. Quanto ao Conto de Natal, fica-se a saber que este conto é o resultado, por um lado, da interseção da imaginação espantosa de Dickens e dos seus sonhos, ligados pela sua enorme sensibilidade face ao que viveu como criança e face ao que presenciava na vida quotidiana de Londres e, por outro lado, pela influência que assume nesta obra o seu contacto com a cultura irlandesa, através de uma órfã que foi contratada como doméstica interna para trabalhar na casa de Dickens e que terá sido recolhida num dos muitos orfanatos de Londres. Quanto ao Homem que inventou o Natal, é todo ele um entrecruzar de cenas do filme O Conto de Natal com a vida pessoal de Dickens. Magistral é a cena dos fantasmas que a empregadinha conta aos filhos de Dickens, magistral é a cena em que Dickens lhe dá um livro, A lâmpada de Aladino, magistral é a cena mais tarde em que ela lhe devolve o livro que lhe foi dado e em que ela mesma assume o conto de Natal como uma espécie de segunda realidade, mas realidade produzida pelo autor e sentida por ela como “realidade”, tal como a noite em que os vivos e os fantasmas se cruzam na Irlanda sem se verem.

Em O Homem que inventou o Natal, assistimos a uma articulação da imaginação fértil de Dickens com a violência do capitalismo inglês de então, assim como com os dados biográficos da juventude terrível de Dickens, o percurso de uma infância infernal nas casas de trabalho infantil, no fundo a não ter tido o direito de ser menino. Filho, penso eu, de uma média burguesia, com um pai carregado de dívidas e preso por isso mesmo, Dickens foi tratado como muitos filhos de ninguém em plena efervescência do capitalismo inglês, uma mão-de-obra gratuita que se poderia explorar. Tudo numa linguagem direta e violenta, tudo a fazer-me lembrar a Grande Transformação de Karl Polanyi, todo o filme a criar-me uma enorme vontade de reler esta obra magistral. Uma ideia a levar a cabo mais tarde.

Acabado o filme, levantámo-nos e descemos lentamente os degraus da sala, em direção à saída. Quando piso a parte plana da sala, eis que me aguardava uma senhora com o seu neto para me disparar, com um ar de zangada, uma pergunta: “sabe se o filme é para maiores de 6 anos? Se é assim, então isto está errado, não pode ser assim. O meu neto tem 9 anos e está fortemente incomodado com a violência a que assistiu”. “Sabe, disse-lhe eu, penso que este filme a ser visto com crianças, deve exigir que se veja primeiro o filme O Conto de Natal de Dickens. A não ser assim torna-se difícil que a criança entenda o filme, e as imagens aparecem-lhe como sendo apenas expressão da violência sem que tenha alguma perceção do que elas representam, do que elas significam”.

Olho para a criança meio assustada, toda ela agarrada às saias da avó, com a avó a ter-lhe a mão por cima da cabeça. E acrescento: isso foi o que eu fiz com a minha neta, mas sabe, dou-lhe um conselho: se não tem o livro compre-lho, deixe que ele o leia ou leia-lho a senhora e, depois, quando puderem, voltem a ver este filme. O seu neto perceberá que a violência não está no filme mas na vida que nós produzimos e lhe disponibilizamos, o seu neto saberá então que a grande violência é haver crianças, muitas crianças que não têm direito a Natal, na Inglaterra do século XIX como em Portugal no século XXI ou algures. Esta é a trajetória ideal para o conhecimento nestas idades, quer do conhecimento do seu neto como no da minha neta. É, de resto, o que estou a fazer aqui, alimentando desta maneira a sua inquietação intelectual.

Estou com pressa, digo ainda à senhora, Feliz Natal, e são essas mesmas palavras que ouço com outra sonoridade quando me estou já a afastar da senhora e do neto que entretanto pareceram ter ficado pregados ao chão.

Chego a casa e revejo mentalmente este diálogo, sobretudo a parte final, sobre os ricos e pobres. A partir daqui lembrei-me de editar um pequeno conjunto de artigos que nos explicassem porque é que a grande tragédia dos tempos modernos é exatamente a exclusão na dinâmica social do espírito de Natal, ou seja do espírito da solidariedade. E é exatamente assim, excluído de todo este espírito de solidariedade, porque se considera que a dinâmica social no capitalismo moderno não deve assentar na solidariedade social mas sim que deve assentar na polarização entre pobres e ricos, onde os mecanismos da concorrência devem ser exacerbados ao limite do selvagem entre os mais pobres enquanto os mecanismos de segurança devem ser fortalecidos também eles ao limite mas entre os mais ricos. A flexibilidade brutal e total entre os primeiros, a segurança total entre os segundos, e isto país a país. Mundos diferentes, portanto.

Assim, iremos editar 4 textos:

  1. A realidade dos ricos vista de Londres, onde a burguesia vive assustada com o medo da vitória de Jeremy Corbyn, retratada pelo Financial Times (“Armageddon fora daqui”), com medo da política económica e social que ele possa seguir e com ela retome o percurso inverso do que durante mais de 30 anos tem sido imposto pela City de Londres. Com Corbyn perspetiva-se uma verdadeira política social, o que, no contexto deste texto, poderíamos chamar de reativação do ”espírito de Natal”.
  2. A mesma realidade do texto anterior, a dos ricos, vista do outro lado do Atlântico através da análise de Paul Krugman, “As reduções de impostos do pai Natal”. Trump é um herdeiro de Bush filho, defensor da política dita de Trickle-down que nos diz que mais vale proteger os ricos que os pobres, porque do excesso de riqueza daqueles irão beneficiar todos estes. A subida da maré faz subir todos os barcos, dir-se-á então como emblema desta política.
  3. Um artigo de Washington Post sobre os precários dos Estados Unidos, o país dito mais rico do mundo, onde por efeito de redução de custos se dá o direito de os reformados ficarem sem direito à reforma, para a qual pagaram durante quase toda uma vida. E a sua precariedade, com a destruição do muito pouco que resta do Welfare State, anuncia para breve uma crise não de subprimes, mas de muitos reformados sem reformas. (“Espero poder deixar de trabalhar dentro de alguns anos: uma antevisão dos americanos sem pensões de reforma”)
  4. Por fim, um artigo de Open Democracy sobre Dez anos depois da crise em que se pergunta se Dez anos depois do rebentar da crise estará a sociedade civil pronta para enfrentar a alta finança?

 

Coimbra 27 de Dezembro de 2017

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