A NOSSA PENÍNSULA – 10 – O “EL PAÍS” – por Carlos Loures

Hoje falo de um pormenor, de um jornal que foi um farol e que actualmente é como um sinal de trânsito fora de serviço – não orienta, confunde. Quando surgiu, em 1976, em plena transição do regime franquista para a democracia representativa, o jornal El País assumiu um papel importante nesse processo de transição de uma ditadura para uma democracia. Bons profissionais, secções bem organizadas, nomeadamente a que se ocupava da Cultura, com um saudável relacionamento com as instituições universitárias e uma rede valiosa de correspondentes espalhada pelo mundo. Depressa o El País passou a ser um jornal de referência, uma fonte de informação minimamente credível que nos orientava no complexo labirinto que o Estado vizinho constituía.

Mas quatro décadas são muito tempo e o El País foi transformando-se em força do poder instituído, numa face desse poder que hoje fala pela boca do jornal que atavicamente continuamos a considerar um «bom jornal». Um amigo que nos trai não perde necessariamente as qualidades que tinha quando nos ajudava a percorrer os caminhos que percorriam um Estado que é importante para nós compreender, sentir os ventos que dele sopram… Espanha tem sido para nós o filtro através do qual a Europa nos chega. E o El País um dos veículos dessa informação. Repetimos – quatro décadas são muito tempo. O El País não é o mesmo que era em 1976, em plena cavalgada socialista pela pradaria política europeia. François Miterrand vencia as eleições em França; na Grécia Andreas Papandreu triunfava. Felipe González e Mário Soares ganhavam também as eleições nos seus países. Em Itália, o Partido Socialista Italiano ganhava posições. No que se refere a França, enquanto a União Soviética manifestava preocupação pela derrota de Giscard d’Estaing, Reagan endereçava calorosas felicitações a Miterrand… E o El País criticava com severa lucidez contradições e inflexões direitistas.

Na crise que afecta a Catalunha tem sido um serventuário do poder instituído, um bobo da ridícula monarquia, face institucional de um centralismo madrileno que subjuga a Catalunha, o País Basco, a Galiza. Na sua edição de ontem inventava uma região catalã «catalanista, mas anti-separatista»…

Até onde vai descer o El País?

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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