Sobre o espírito do capitalismo. 3 – Espero poder deixar de trabalhar dentro de alguns anos: uma antevisão dos americanos sem pensões de reforma (2ª parte-conclusão). Por Peter Whoriskey

imagem Deus mercado

Sobre o espírito do capitalismo

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

3. Espero poder deixar de trabalhar dentro de alguns anos: uma antevisão dos americanos sem pensões de reforma (2ª parte-conclusão)

Por Peter Whoriskey

Publicado por Washington Post, em 23 de dezembro de 2017

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Coomer faz um bule de café na sua casa em Wagoner depois de um dia de trabalho no Walmart. “Desde que me sente cerca de 10 minutos hora a hora ou de duas em duas horas, eu estou bem”, diz ele do trabalho em turnos de oito horas com a doença de estenose espinhal. (Nick Oxford para o Washington Post)

 

“Estávamos espantados”

Os funcionários da McDonnell Douglas, no início dos anos 90, gozavam de um dos mais generosos tipos de pensões, conhecidos como “30 e fora”. Os empregados com 30 anos de serviço poderiam aposentar-se com uma pensão de reforma completa uma vez que chegassem à idade dos 55.

Mas, como os trabalhadores mais tarde aprenderiam, a generosidade dessas pensões fez deles, em tempos de vacas magras, um alvo atraente para a redução dos custos.

Estes tempos de vacas magras para a McDonnell Douglas começaram a sério no início dos anos 90. Algumas fábricas fecharam. Mas para os empregados que ficavam, incluindo os da fábrica em Tulsa, disseram os executivos, havia esperança: se o Congresso permitisse a venda multimilionária de 72 F-15s à Arábia Saudita, este novo negócio salvaria a companhia. Na verdade, a empresa disse no seu relatório anual de 1991, que iria salvar 7.000 empregos.

Para ajudar a ganhar a aprovação desta venda, os empregados de Tulsa escreveram cartas aos políticos. Realizaram uma reunião com os políticos locais e o governador de Oklahoma. Por fim, em setembro de 1992, o presidente George H.W. Bush aprovou a venda. Parecia que a fábrica de Tulsa tinha resistida à tempestade

O título principal no Oklahoman, um dos maiores jornais do estado, proclamava: “a venda dos F-15 à Arábia Saudita salva empregos de trabalhadores de Tulsa.”

Mas não salvou. Em poucos meses, os executivos da empresa voltaram a reduzir os custos. Eles consideraram fechar uma fábrica na Flórida, outra em Mesa, Arizona., ou a instalação de Tulsa. Tulsa, foi assinalado, tinha atualmente os empregados com idade, em média, mais alta – os empregados tinham em média 51 anos e tinham em média cerca de 20 anos de casa. Muitos estavam perto de começar a usufruir de pensão completa e isso significava que encerrar a fábrica representaria poupanças elevadas com a redução dos custos em pensões de reforma daí resultantes.

“Um dia em dezembro de 1993 os dirigentes da empresa através dos altifalantes disseram-nos: “atenção, empregados,” recorda Coomer. “Nós íamos fechar. Todos nós ficámos atordoados. Depois, andámos de um lado para o outro como se fossemos umas galinhas tontas.”

Alguns anos mais tarde, McDonnell Douglas, que continuou em dificuldades, fundiu-se com a Boeing. Mas os empregados tinham levado a McDonnell Douglas a tribunal e em 2001, um juiz federal concordou que McDonnell Douglas tinha considerado ilegalmente o custo das pensões de reforma na sua decisão de fechar a fábrica. A queixa dos empregados do construtor de aviões, apresentada pelos advogados Joe Farris e Mike Mulder, mostrava que a empresa tinha considerado as economias sobre as pensões de reforma na sua decisão de encerramento da fábrica.

O juiz considerou que McDonnell Douglas, além disso, tinha apresentado um testemunho enganador na sua defesa para o fecho da fábrica. O juiz, Sven Erik Holmes, acusou a empresa de ter uma “cultura empresarial assente na mentira”.

Os empregados eventualmente ganharam o seu processo – uma compensação de cerca de aproximadamente $30000 foi típica. Ajudou as pessoas a suportaram a falta de rendimentos enquanto andaram à procura de novos empregos. Mas o montante foi limitado para cobrir os benefícios de três anos de emprego – e este valor foi muito menos do que a perda de pensões de reforma e dos benefícios de saúde a que teriam direito se aposentados. Uma vez que as suas prestações para a reforma se acumularam mais rapidamente perto da idade da passagem à reforma, as pensões que recebem são somente uma fração bem pequena daquilo que os trabalhadores teriam tido até à plena elegibilidade.

“As pessoas foram trabalhar para estas fábricas pensando que iriam lá trabalhar toda a sua vida”, disse Farris, observando que as pensões tinham sido altamente motivadoras para o empenho do pessoal para com o seu trabalho, para com a sua empresa. “A sua confiança e lealdade, porém, não teve nenhuma reciprocidade.”

 

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Ray caminha através de uma parte do lixo que ele recicla na sua casa em Claremore. (Nick Oxford para o Washington Post)

 

A sonharem com trabalhar

Os efeitos económicos foram, é claro, imediatos.

Os trabalhadores, a maioria deles com mais de 50 anos, tiveram que encontrar outros empregos.

Alguns inscreveram-se em cursos de formação-requalificação para novas profissões, mas depois tiveram dificuldade em encontrar empregos nas novas aéreas dos seus cursos de formação. Eles questionaram-se, no meio de diversas rejeições, se os trabalhadores mais jovens não estavam a ser favorecidos.

Vários deles encontraram empregos noutras fábricas industriais. Um deles recomeçou a sua vida com um aviário de criação de frangos em Tyson. Um outro encontrou emprego num rancho a abater cavalos.

O Post obteve uma lista dos 998 empregados, revisitou os registos públicos destes mesmos trabalhadores e entrevistou mais de 25

Dos entrevistados, todos encontraram trabalho de um tipo ou de outro. No entanto, todos, exceto um punhado deles, disseram que os seus novos salários eram apenas cerca de metade do que eles tinham estado a ganhar. Tipicamente, os seus rendimentos caíram para metade, de cerca de $20 para hora $10 por hora.

O corte nas suas remunerações era duro, e tornou praticamente impossível poupar para a reforma. Na verdade, estes cortes tornaram a passagem à reforma quase impossível para alguns – eles têm de continuar a trabalhar para pagar as contas.

Alguns disseram, no entanto, que estavam a trabalhar porque detestam a ociosidade, e persistem em querer postos de trabalho que parecem exigir uma capacidade física notável.

Combs, por exemplo, trabalha no turno da noite, começando cada dia de trabalho às 1h30min da manhã. Os seus dias de folga são quinta e domingo. Trabalhou 25 anos na McDonnell Douglas, e com mais de 20 caminhões de carga.

Ele desdramatiza a dificuldade.

“Eu não me quero sentar e passar o tempo a jogar damas e ficar gordo”, diz Combs. “Eu costumava apanhar de algodão com 32º graus de temperatura. Isto é fácil. “

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Coomer relaxa em casa com a sua esposa Ellen depois de trabalhar no Walmart. Embora pareça gostar de trabalhar na Walmart, não deixa de acrescentar que realmente gostava muito de trabalhar na McDonnell Douglas e teve os seus olhos fixos na sua pensão de reforma durante os 29 anos que lá trabalhou. (Nick Oxford para o Washington Post)

Coomer, também, embora tivesse preferido reformar-se, parece genuinamente sentir-se bem no seu trabalho. Na Walmart, a sua alegria natural é posta em boa forma.

“Olá, Tom, como é que vai a vida?” diz-lhe à saída uma cliente numa scooter motorizada, um dos muitos que o cumprimentam pelo nome.

“Vai-se andando, bem… está um belo dia”, diz ele, sorrindo calorosamente.

Mais tarde, ele explica-se sobre o seu entusiasmo.

 “Gosto de falar com as pessoas. Gosto de visitá-las. Posso falar com qualquer um. Eu sempre fui assim, desde criança.”

Quando ele vê alguém triste, conta-lhe uma piada.

Porque é que o Pai Natal tem três jardins?

Para que possa dizer em vez de ho, ho, ho, diga hoe, hoe, hoe.

“As pessoas realmente gostam daquele”, diz ele.

Coomer cresceu numa quinta em Broken Arrow, casou-se quando tinha 17 anos – a sua esposa tinha 15 anos – e diz que sempre gostou de trabalhar.

“Eu realmente adorei trabalhar na McDonnell Douglas”, diz ele. Uma vez, disse ele, trabalhei 36 dias seguidos: 11 horas nos dias da semana e oito horas aos sábados e domingos. Eu brincava dizendo que a fábrica era a minha casa. Ao longo dos seus 29 anos de trabalho teve sempre um olho posto na pensão de reforma. E então, na sua maior parte, esta esfumou-se, evaporou-se.

Depois do encerramento da fábrica, Coomer trabalhou como guarda de segurança. Depois trabalhou para um amigo que tinha uma empresa de controle sanitário sobre pragas. Quando isso abrandou, agarrou trabalho sazonal na cidade, cortando arvores e fazendo achas de madeira.

Depois veio a Walmart.

Rapidamente disse a mim mesmo que tenho esperança de poder deixar de trabalhar a tempo integral e ter um emprego a tempo parcial, de 3 dias por semana.

Juntamente com o cheque Walmart, recebe US $ 300 por mês da pensão McDonnell Douglas. Se ele tivesse conseguido continuar a trabalhar no McDonnell Douglas, calcula que teria obtido cerca de cinco vezes esse valor.

“Depois de terem encerrado a fábrica, eu sonhava que voltaria para o McDonnell Douglas e conseguia receber a minha pensão de reforma”, lembrou Coomer. “No sonho, eu tentava marcar o ponto de entrada, mas não conseguia encontrar o meu cartão do tempo de serviço. E então acordei. “

No sonho, eu tinha-me reformado há já anos atrás.

 

I hope I can quit working in a few years’: A preview of the U.S. without pensions, texto disponível em https://www.washingtonpost.com/business/economy/i-hope-i-can-quit-working-in-a-few-years-a-preview-of-the-us-without-pensions/2017/12/22/5cc9fdf6-cf09-11e7-81bc-c55a220c8cbe_story.html?utm_term=.c23dcff5f99a

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