LUÍS DE FREITAS BRANCO E A ALEMANHA NAZI – UM ESFORÇO DE ESCLARECIMENTO, por JOÃO MARIA DE FREITAS BRANCO

1890 – 1955

Desde o início da semana que tenho vindo a recolher reacções à publicação de um artigo de jornal em que Luís de Freitas Branco, meu avô, é citado como tendo sido um dos “músicos portugueses que colaboraram com a Alemanha nazi”; é este, aliás, o título que se faz acompanhar de uma fotografia do compositor (foto de grande formato, ocupando 4 colunas), única imagem associada ao texto. O referido artigo apareceu, com grande destaque, na página dedicada à cultura, na edição de 16 de Dezembro do semanário Expresso (ainda nas bancas). É assinado pela jornalista Alexandra Carita. Na lista de músicos citados como tendo “colaborado” figura também o nome de outro meu familiar: o do maestro Pedro de Freitas Branco, meu tio-avô e irmão mais novo de Luís. Importa talvez recordar, principalmente para leitores mais jovens, que o uso, sob a forma de substantivo, adjectivo ou verbo, de termos como “colaboração”, “colaborador”, “colaborar” têm, neste contexto histórico, grave conotação pejorativa. Remetem para uma prática ou atitude política criminosa: o colaboracionismo, uma forma de apoio à barbárie nazi. É o contrário de resistência. A palavra francesa “collaborationniste”, que está na origem do termo português, foi utilizada por Pétain num célebre discurso de incentivo à traição nacional consubstanciada na submissão da França aos interesses e propósitos imorais do invasor nazi. Excluindo a hipótese de uma excessiva ignorância historiográfica e política, o título não pode ser considerado uma escolha ingénua do editor jornalístico. Acrescento também, e desde já, que não desconhecia o facto de meu Avô ter mantido contactos com a Alemanha mesmo depois do início da segunda Grande Guerra. Nem creio que isso constitua novidade para os musicólogos, investigadores universitários e/ou estudiosos da história da música em Portugal.

Ao longo dos últimos dias, tenho podido verificar, sem surpresa, que os leitores mais incautos, e até alguns menos desprevenidos, retiraram a seguinte conclusão geral: Luís de Freitas Branco, pessoa de reconhecida origem conservadora, monárquica, católica, e co-fundador do Integralismo Lusitano, nutria nesses idos anos 40 do século XX alguma dose de empatia com a Alemanha do Führer. Quando, com imaginável prioridade comercial, um jornal de referência cede à tentação de apimentar a titulação em detrimento do respeito pelo princípio do rigor e pelo valor da Verdade não nos podemos surpreender com este resultado de leitura. Mas não deixo de me sobressaltar com o facto de um órgão de comunicação social de referência ser tão permeável à contaminação pela voga sensacionalista, pelo kitsch que tem vindo a inundar muitos espaços da comunicação social. (Apresso-me a dar conhecimento de que o título do artigo não é da responsabilidade da autora, coisa que, podendo parecer estranha, é, porém, por boas ou más razões, prática corrente na esfera da edição jornalística. Essa ocorrência foi-me confirmada pela própria jornalista Alexandra Carita, que me merece toda a consideração e com quem tive o cuidado de falar antes de me lançar à escrita destas linhas.)

O que aqui me convoca é a total inveracidade da compreensível conclusão retirada por alguns, talvez muitos leitores. Não me move qualquer tipo de orgulho familiar ou de parti pris. Preocupa-me, tão só, e como sempre, servir a Verdade. Nada de mais espectável em um profissional da Filosofia, do amor pelo saber. Assim sendo, no esforço de esclarecimento que este escrito corporiza talvez a melhor opção seja relatar um acontecimento, contar um episódio da vida do nosso aclamado músico compositor que se me afigura bem revelador do seu pensamento político, assim como da sua acção enquanto cidadão praticante da cidadania. Aqui vai:

Estando um dia tranquilamente a trabalhar em casa, lendo e escrevendo à secretária, Luís ouviu entoar uma canção. Aguçando o seu treinado ouvido musical logo percebeu ser o seu único filho, João, quem estava a cantar; e concentrando mais a atenção auditiva pôde, sem grande demora, percepcionar algo que de súbito o sobressaltou: o que estava a ser cantado era de origem germânica, como indicavam as próprias palavras cantadas em puro idioma alemão; tratava-se de uma das principais canções dos camisas castanhas, um Lied da SA, a milícia paramilitar nazi liderada por Ernst Röhm que tão decisivamente contribuiu para o triunfo do Partido Nacional Socialista (em alemão e com denominação completa: NSDAP-Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei). Como podia uma partitura militarista da Sturmabteilung (o sinistro nome alemão da não menos sinistra milícia – nome que tem apenas o mérito de não enganar quanto às intenções), como podia tal música e letra estar a ecoar dentro de casa? Luís, com a melodia militarista na cabeça, levantou-se da cadeira em que estava sentado à secretária e avançou pela casa em direcção ao filho, perguntando-lhe: Por que estás a cantar isso? Onde é que aprendeste essa canção? Na escola, respondeu prontamente o rapaz de 11 ou 12 anos de idade. A escola em que estava matriculado era a Escola Alemã, em Lisboa, instituição ainda hoje existente. Decorria então o ano escolar de 1933/34. Hitler tinha chegado ao poder em Janeiro de 1933. Essa trágica mudança de governo na Alemanha começara a ter fortes reflexos nos regulamentos internos da Escola Alemã principalmente a partir do início desse ano escolar, meses depois do incêndio do Reichstag. A máquina de propaganda estava cada vez mais oleada. A ideologia nazi, o espírito militarista, os hábitos totalitários, o anti-semitismo, iam sendo incutidos nos jovens alunos da Escola Alemã de Lisboa, tendo passado a ser obrigatória a saudação nazi dentro do recinto escolar, bem como, claro está, a aprendizagem dos mobilizadores cânticos militaristas nazis que Luís de Freitas Branco agora escutava da boca do seu próprio filho. Não hesitou em passar da estupefacção à acção. O pai Luís tomou de imediato a decisão de retirar o filho da Escola Alemã, fazendo saber à respectiva direcção escolar as razões que o moviam: a completa discordância com a nova orientação ideológica. Tinha ali matriculado o seu único filho com o objectivo de o enriquecer ética e intelectualmente através do contacto com a alta cultura alemã, essa Cultura nacional que tanto admirava. A sua Alemanha era a de Johann Wolfgang von Goethe, Immanuel Kant, Ludwig van Beethoven; não a do Führer Adolf. Registe-se, a título de mera curiosidade na biografia de alguém que também veio a tornar-se figura pública, que a saída da Escola Alemã não fez com que o filho esquecesse a música e a letra de algumas dessas canções; isso permitiu que conseguisse cantá-las, mesmo que só parcialmente, até ao fim da vida. Facto que talvez nos diga qualquer coisa sobre o grau de eficácia desses cânticos nazis enquanto instrumentos de propaganda e galvanização.

Creio que este episódio biográfico, envolvendo, na sua dimensão de intimidade familiar, algo tão relevante como a educação/formação do seu jovem filho, diz praticamente tudo sobre o posicionamento ideológico de Luís de Freitas Branco já dez anos antes dos contactos referidos no artigo motivador deste texto.

Luís de Freitas Branco nunca teve a menor simpatia pelos movimentos totalitários de extrema-direita, e muito menos pelo Nacional-Socialismo alemão, pelo nazismo. Desde meados dos anos 1920, após a instauração da ditadura militar em Portugal, o músico compositor e destacado intelectual iniciou uma caminhada política para a esquerda, tornando-se cada vez mais um simpatizante dos ideais socialistas, tendo chegado a financiar de forma regular a acção clandestina do PCP – recorde-se que o seu melhor Amigo na década de 40 se chamava Bento de Jesus Caraça. Esta caminhada está solidamente documentada no Diário (um diário de ideias) que começou a redigir em 1930. Uma vez que o Diário ainda não chegou a ser publicado, remeto os interessados para o pequeno livro que publiquei em 2005, intitulado O Músico-Filósofo (ainda à venda nas Livrarias Bulhosa e em outros locais).Quem quiser, aí poderá aprofundar o conhecimento desta invulgar e muito singular metamorfose ideológica de uma figura marcante da cultura portuguesa do século XX.

No artigo do Expresso, baseado numa investigação recentemente levada a cabo por Inês Thomas Almeida num arquivo de Berlim, é revelado ao grande público, mas, ao que suponho, não aos especialistas, ter havido no início da década de quarenta do século passado, ou seja, em plena fase de guerra mundial, «uma entrega de partituras em troca de dinheiro» (sic) por parte de um conjunto de figuras do meio musical português. A expressão usada sugere a ocorrência de ilícito. Porém, estranho seria que assim não tivesse sido, pois em sociedades modernas, não esclavagistas, o trabalho é pago; de forma mais justa ou menos justa, é certo, mas entende-se dever ser pago. No caso vertente, o direito de autor é o salário do autor. Foi isso, precisamente, o que foi pago, com toda a legitimidade, aos autores das partituras utilizadas na Alemanha.

O artigo apresenta uma lista de nomes de músicos que alegadamente “colaboraram”. Nomes que a jornalista afirma terem-lhe sido fornecidos por quem realizou a investigação e que figuram nos documentos que lhe foram mostrados, de origem alemã. Ficam assim atirados para o mesmo saco pessoas como, entre outras, José Viana da Mota, os irmãos Luís e Pedro de Freitas Branco, Armando José Fernandes, Ruy Coelho, Ivo Cruz e até um desconhecido Elísio que é bem provável ser Elisa. Uma mistura tão inaceitável como de mau gosto. Como se podem juntar como iguais os amigos e os inimigos da cultura musical portuguesa? Os que foram assumidamente fascistas, representantes do Estado Novo, e os que só por ignorância, por despudor ou por falta de honestidade podem ser rotulados de fascistas ou nazis?

Em nome de elementares princípios orientadores do trabalho científico, cada caso tem que ser historicamente contextualizado e analisado com máximo rigor. Até os irmãos Freitas Branco são casos bem distintos, convocando atenção separada.

Para José Viana da Mota, por exemplo, a Alemanha, com a sua extraordinária Cultura, era muito mais do que o Governo alemão, fosse ele qual fosse; e o regime nazi ou a guerra não faziam com que, em 1941/43, um cidadão alemão fosse necessariamente um nazi, independentemente da responsabilidade histórica que se considere pesar sobre o povo alemão na época da ascensão e do domínio do partido nazi. Viana da Mota e o seu amigo Luís de Freitas Branco mantinham contacto com pessoas de nacionalidade alemã que conheciam de tempos mais recuados, nomeadamente dos anos em que um e outro viveram em solo alemão. Anos decisivos para a formação intelectual de ambos. Esses laços consolidados antes de 1933 terão prevalecido durante alguns contactos realizados depois de o Partido Nacional Socialista ter assumido o poder. A isso se terá adicionado a vontade bem-intencionada de dar a conhecer a públicos estrangeiros obras de artistas portugueses, contrariando o asfixiante isolamento internacional a que esses criadores da arte dos sons estavam submetidos, também por efeito da quase total ausência de investimento na edição musical, circunstância que em muito dificultava a execução das suas obras.

Não me permito concluir este investimento de esforço em prol do esclarecimento sem fazer um outro reparo corrector. No texto publicado no Expresso o Instituto Ibero-Americano de Berlim é referido como sendo «uma instituição nazi que funcionou entre 1939 e 1943». No entanto, para benefício de numerosíssimos investigadores de todos os cantos do mundo, entre os quais me incluo, esse instituto permanece bem vivo, em plena actividade e oferecendo-nos, entre outras preciosidades, a maior biblioteca do mundo especializada em cultura Ibero-Americana. O Instituto foi fundado em 1930 e não em 1939. As muitas horas de trabalho por mim despendidas no interior do esplêndido espaço arquitectónico que ocupa desde 1977 foram, confesso com profunda sinceridade, momentos de verdadeira felicidade profissional e intelectual, pois sempre aí respirei ares de uma atmosfera de Liberdade, ecléctica, de grande abertura, de tolerância e de livre intercâmbio cultural. Por isso, e não só por isso, choca-me vê-la ser reduzida a uma única fase: essa que foi a mais negativa de toda a sua longa história ao serviço da Cultura.

Termino com outra confissão.

Considero que o meu Avô devia ter assumido em 1941/43 a mesma atitude do meu saudoso amigo Fernando Lopes-Graça que, como é sabido, foi seu discípulo. Ou seja, devia ter recusado o convite ou o pedido de envio de obras suas para serem tocadas numa Alemanha ensombrada pela barbárie nazi. Digo isto, mesmo estando consciente daquilo que ainda se ignorava, desde logo em relação ao holocausto. É claro que o conhecimento que hoje temos não é o que tinham os portugueses em 1941/43. Mas o que se sabia era mais do que suficiente para impor uma atitude igual ou semelhante à assumida pelo autor das Heróicas e que fica sintetizada na seguinte afirmação que lhe é atribuída:

«Enquanto a música de Paul Hindemith, considerada música degenerada, não for tocada na Alemanha, não quero que a minha música seja lá tocada».

Luís de Freitas Branco devia ter dito o mesmo ou algo parecido. Diante da barbárie e da institucionalização do Mal extremo só há uma coisa a fazer: resistir!

João Maria de Freitas Branco
Caxias, 20 de Dezembro de 2017
Artigo publicado no blog RAZÃO [razaojmfb.blogspot.pt] e, posteriorente, em páginas do Facebook

NOTA: A jornalista Alexandra Carita manifestou-me a sua disponibilidade para publicar novo artigo tendo em vista dissipar equívocos que possam ter sido suscitados pelo texto inserido na edição do Expresso do passado dia 16. Nesse sentido, e correspondendo ao que ela me solicitou, irei fornecer-lhe, em breve, documentação sobre o posicionamento ideológico de Luís de Freitas Branco.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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