UM MILITAR DA 1.ª REPÚBLICA NA LUTA PELA DEMOCRACIA – MANUEL ANTÓNIO VIEIRA (1874 – 1951) – por RUI ROSADO VIEIRA – II

Ano 2017

FOTO DA CAPA: SOLDADOS DA 1ª COMPANHIA DO BATALHÃO Nº 2 DA G.N.R., AQUARTELADOS NAS JANELAS VERDES, SOB O COMANDO DO CAPITÃO VIEIRA, JUNTO AO MIRADOURO DE S. PEDRO DE ALCÂNTARA EM LISBOA, NO DE CURSO DA REVOLUÇÃO DE 7 DE FEVEREIRO DE 1927 
(continuação)

Na sequência da participação na fracassada revolta, o Capitão de Infantaria Manuel António Vieira, Comandante da 1ª Companhia do Batalhão Nº 2, da G.N.R., sediada nas “Janelas Verdes”, foi preso e desterrado para Angola sem julgamento. Embarcando em Lisboa, no navio “Lourenço Marques”, em 21 de Fevereiro de 1927, conjuntamente com outros oficiais implicados na revolução.

                                                      Navio “Lourenço Marques”

Dessa experiência e dos sentimentos gerados pelo seu envolvimento na revolta fracassada, dá-nos conta Manuel António Vieira, em correspondência dirigida a seu sobrinho e amigo João Pedro Ruivo, também ele ex-combatente da 1ª Grande Guerra, então funcionário da Câmara Municipal de Campo Maior.

Em carta datada de 21 de Fevereiro de 1927, ainda em Lisboa, mas já embarcado no navio “Lourenço Marques”, escreve: “A bordo deste barco, ignorando o que à malvadez dos homens prover aplicar-me, vencido mas não convencido por esta ditadura de fantoches e pigmeus que governam o país (…), venho agradecer-te as tuas palavras amigas e todos os oferecimentos que me fizeram. Não sei ainda, me verei na contingência de os aceitar, pois para estes homens que tanto atraiçoam a República (…) comprometendo-a financeiramente, não há serviços prestados, não existem direitos (…).”

Em outra missiva, dirigida ao mesmo familiar, escrita em viagem no “Lourenço Marques”, em 9 de Março de 1927, diz: “(…) Eu sigo com óptima saúde, sofrendo, não com resignação mas com altivez, a penalidade ou penalidades que esses miseráveis, detentores do mando me aplicaram, sem processo, nem julgamento (…). Disse o Passos e Sousa ou o Carmona que nós eramos uma parte impura do exército! Traficantes! Quase todos os que tomámos parte no movimento Constitucional somos ex-combatentes da Grande Guerra. 15 somos condecorados com a Torre e Espada e há mais 27 Cruzes de Guerra. (…)”.

“Aqueles miseráveis é que não sabem como tais condecorações são ganhas. Aguardamos melhores dias para a República, que esses canalhas exploram e desacreditam, cometendo crimes de toda a ordem à sombra da sua honrada bandeira. Não queriam eles a revolta dos republicanos honrados! Não víamos o arbítrio tornado mando; a desordem chamada ordem; a derrocada financeira, chamada administração honrada; os monárquicos dizendo-se republicanos, para mandarem; a Constituição esfarrapada! E os que vivem pelas ideias e não pelas notas de banco deviam continuar impassíveis! Não! Fomos vencidos pelo número, devido à péssima organização do movimento, pois em Lisboa nada estava organizado. Só pelas 9 H ½ de 7 é que eu resolvi sair com a minha Companhia, a fim de aliviar o Porto (…).” (3)

Na luta contra a Ditadura, Manuel António Vieira tinha o apoio dos familiares mais chegados. Tal é o que se infere de uma carta de sua filha Lucinda, datada de 16 de Fevereiro de 1927, então com vinte e dois anos de idade e estudante do último ano do Curso Superior de Letras da Universidade de Lisboa, dirigida a um irmão de seu pai, residente em Campo Maior.

“Não pode calcular como estamos apoquentados e tristes, nem sei como ainda temos lágrimas para chorar, tal é o nosso desgosto. Como deve saber tem havido cá (Lisboa) grande revolução para salvar a República que está em perigo; o papazinho querido, bom português e republicano, valente como sempre saiu com a Companhia contra o governo; bateram-se como valentes, mas os traidores, infelizmente são muitos e quando estavam quase a ganhar, faltaram as munições aos revoltosos, por isso o governo ganhou com bastante mágoa para a população de Lisboa, que também era revoltada.          Os revoltosos foram por isso presos e o papazinho também foi preso esta manhã às 5 e meia 6 horas. (…). A consolação que nos resta é que o nosso papazinho é um preso que nos honra; mais uma vez deu prova do seu grande valor, da sua grande valentia; mostrou mais uma vez que o seu único pensamento é trabalhar pela Pátria e pela República. (…) Enquanto falsários, monárquicos disfarçados em republicanos andam à solta, o meu querido paizinho, combatente da Grande Guerra, se encontra preso, por ter batalhado para salvar a República. (…). Se quisesse tinha fugido, mas um homem honrado como o papá, não foge, entrega-se com toda a Companhia.

O papá, quando foi preso (…) encarregou-me de lhe mandar dizer o seguinte: não sabemos qual será o resultado disto, por isso vamos mudar-nos para dois quartos (até então tinham morado no Quartel das Janelas Verdes em instalações destinadas ao comandante da Companhia e sua família); o papá manda-lhe dizer para vir buscar a nossa avozinha (a mãe de M. A. Vieira) para ficar em sua casa, pois bem vê que a situação mudou.

   Colar de Torre Espada, atribuído a Manuel                                     António Vieira

Deve vir buscá-la logo que receba esta carta, para nós nos mudarmos. Não sabemos que resultará disto, enquanto este governo não cair. Não sabemos sequer o que farão aos revolucionários; o papazinho e mais oficiais da G.N.R. estão na Cadeia Nacional por enquanto (…).”

A preocupação de M. A. Vieira em se assegurar que a sua progenitora, então viúva, continuaria a ser acolhida pelos familiares mais próximos, consta também numa nota enviada, num daqueles primeiros dias de Fevereiro de 1927, certamente, ao mesmo interlocutor da carta anterior, residente em Campo Maior.

“Meu irmão e amigo. Tomei parte na última revolução e fui vencido. Estou preso, ignorando a sorte que me espera. Peço-te que tomes a mãe a teu cargo, enquanto a minha situação não melhorar. Não tenho casa. Recomendações a todos do teu irmão e amigo, M. A. Vieira”. (4)

Na sua viagem para o desterro em Angola, o capitão Vieira aportou em São Tomé, seguindo depois para Luanda, onde desembarcou em finais de Março de 1927. Ali foi recebido amistosamente e almoçou com o capitão Augusto Casimiro, então secretário interino do governo de Angola, intelectual, fundador da Revista “Seara Nova” e destacado opositor à Ditadura.

Em correspondência endereçada do Lubango, a seu sobrinho João P. Ruivo, em 27 de Julho de 1927, dá notícia que se encontra naquela cidade angolana em visita, certamente vindo de Luanda, onde se encontrava deportado, o seu “grande amigo paladino da Liberdade, valente soldado e republicano Agatão Lança”.

Na mesma missiva após lamentar o sofrimento moral dos familiares que deixou em Portugal e da doença que afecta uma das suas irmãs, acrescenta: “Mas eu não sou homem que se deixe arrazar nem moral nem fisicamente (…) e espero que ainda terei ocasião de, com esses canalhas, ajustar contas. Os meus 53 anos não envelhecem o meu ânimo, nem a minha alma de soldado e de republicano. Tenho 30 anos.” (5)

Ao Capitão Vieira foi lhe fixada residência no Lubango (ex-Sá da Bandeira), lugar de exílio durante o tempo que esteve em Angola. Com ele haviam seguido, deportados para outras povoações angolanas, os Tenentes Guedes Gomes, S. Ribeiro, Rodrigues, Garcês, e Ferreira; os Capitães Camilo de Oliveira, Flores, e Machado; o Comandante Agatão Lança e o Professor Ntº. Gomes, conforme fotografia tirada em Sá da Bandeira em 31 de Julho de 1927.

Cerca de nove meses depois de ter sido exilado para Angola, o Capitão Vieira é mandado regressar a Lisboa, onde chega em 2 de Dezembro de 1927, data a partir da qual irá continuar detido, agora em regime de prisão domiciliária, na Rua Dª Estefânia, 183-3º. dtº, a aguardar julgamento.

Pouco depois, em 8 do mesmo mês, tendo em consideração as dificuldades económicas que o afligiam – era casado, com três filhos e esposa a seu cargo e com o vencimento mensal reduzido para quantia inferior a 500$00 –  o capitão Vieira, em requerimento dirigido ao Ministro da Guerra de então, Tenente-Coronel Abílio Valdez Passos e Sousa, solicita que, enquanto se mantivesse preso no seu domicílio, lhe fosse “abonado o subsídio para alimentação de 14$39 diários, semelhantemente ao que se pratica com os oficiais presos na Cadeia Nacional e em São Julião da Barra”.

Pretensão indeferida, conforme nota exarada no próprio requerimento, em 14 do referido mês, pela mão do mencionado Ministro da Guerra. (6)

Em carta de Lisboa para seu sobrinho, João P. Ruivo, de 14 daquele mês e ano, relativiza os elogios que este lhe dirige e invoca as razões que o levaram a participar na Revolta de 7 de Fevereiro, permitindo-nos assim conhecer os traços principais do seu pensamento político:

    Oficiais implicados na Rev. de 7 de Fevereiro de 1927, deportados em Angola.                            (Foto tirada em Sá da Bandeira, em 31 de Julho de 1927)

“… Mas tu exageras. Eu sou apenas um leal soldado e um sincero republicano. E bastam estas duas qualidades para me bater com mocidade, galhardia e orgulho pela República. Ambições apenas uma: Pretender que a República seja uma democracia, servida só por republicanos; que a República tenha as suas raízes, as sua bases e a sua razão de ser, no Povo Português; que só dirijam os seus destinos e os negócios públicos, os competentes e não os cretinos e os malfeitores; que a Honra seja a nova religião; que a Moral tenha um culto; que o Povo que trabalha e produz tenha os seus direitos e o devido respeito. Foi com estes e só com estes intuitos que me bati. (…)” (7)

(continua)

________

(3) Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Campo Maior, Documentação de João Pedro Ruivo.

(4) Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Campo Maior, Documentação de João Pedro Ruivo.

(5) Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Campo Maior, Documentação de João Pedro Ruivo.

(6) Arquivo Histórico Militar, Processo Político do capitão Manuel António Vieira, Documento citado.

(7) Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Campo Maior, Documentação de João Pedro Ruivo.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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