A GALIZA COMO TAREFA – lugares comuns – Ernesto V. Souza

Quando às vezes ponho diante dos olhos… Não sei que me evoca mais. Se a lembrança da imagem da página original, resseca e crepitante, moldurada com a força da impressão tintada sobre o papel; mais que lida, e agora na memória da edição original, naquela seção atafegante, aquele cheiro intenso do ar, como para mergulhar apenas tempo limitado, num cantinho da Biblioteca da Faculdade de Letras de Montevideu; ou o verso formoso, tantas vezes assobiado ou recitado, da cantiga, e daquelas outras músicas, do Fausto, que me acompanham desde os anos da Universidade da Crunha.

Quantas vezes diante dos olhos, quantos livros, quantos longos caminhos errados e de mais mentiras, quantos bons mestres gratuitos e quantas más escolas. Em chegando a uma idade podemos confirmar poucas cousas, mesmo que já vistas são suspeitas. Mas uma delas é que aquelas novidades e glória da ciência nova dos tempos da escola, da universidade, passam hoje por verdades entre as verdades de sempre sabidas.

Mesmo aquelas que somos conscientes de nós mesmos ter dito primeiro, espalhado ou simplesmente tirado dos nossos olhos, experiência e raciocínio, e são hoje lugar comum que ouvimos noutras bocas e lemos nos escritos doutros. Nalguns casos fascinantes e divertidos, alguns dentre os que hoje, passam por doutos, e explicam com paixão essas nossas velhas ideias, tratando-nos de advertir dos erros e fantasias em que hoje nos andamos, apenas por ter caminhado fora, por causas diversas, mais longe do que estávamos.

Passam as gerações de alunos e mestres neste jogo. Sempre tudo está sabido ao 80%, ao 90%, mas sempre está tudo por fazer, faltam trabalhos, faltam estudos. Há carreiras docentes, experiência académica, prestígios de escolas, formalismos e procedimentos rituais mais importantes que conteúdos, dados e razões e espera-se haver continuadores e discípulos fieis à forma e às doutrinas eternas. Mas há discípulos impacientes e eruditos agitadores, que protestam e quebram os lugares comuns, as verdades certas, mesmo a risco das suas carreiras, e com enfrontamentos no espaço académico que raramente se perdoam.

Repressões, sanções, exclusões, exílios, fogueiras, abandonos, fugidas. A história do pensamento, das ciências, das artes, das humanidades (afinal tudo são partes) está definida por estas duas coordenadas: uma academia imobilista, para a que nem há novidades e tudo está sabido, em tensão com reformistas, revolucionários, visionários e sábios modernistas que predicam uma e outra vez que nada se sabe e que cada nova descoberta não modifica apenas o futuro, quanto também a necessidade da reinterpretação da ciência, da história, do que era sabido, das doutrinas e procedimentos, dos movimentos, das biografias, das técnicas e em definitiva do cânone e das categorias.

Resulta interessante, nos tempos que correm, estabelecer paralelos. A época que decorre entre o Humanismo e a primeira imprensa, assemelha muito a aquela explosão de comunicação global e multiplicação do pensamento que foram os anos de fim dos 80 e a primeira época de internet. A reforma, a contrarreforma, a censura, a inquisição, a obsessão pelas unificações e pelo controlo da imprensa em poucas e privilegiadas mãos e interesses, as políticas de repressão e controlo dos Estados, tem suspeitosamente muito a ver com o ciclo, práticas e leis que nas asas medonhas do contra-terrorismo aprovadas depois do 11-S têm iniciado um controlo da internet, favorável a certos negócios, que aparelha também, após a explosão de liberdade e intercâmbio, uma volta a cenários conhecidos.

Humanistas, latim como língua código franca, a espiral de divulgação da primeira imprensa, a globalização da ciência, da medicina, das artes novas, das técnicas e da engenharia. Pirronismo, cepticismo, utopismo, erasmismo, traduções, livros de bolso, clinamem, livre leitura e comunicação. Não nos cansamos de peregrinar por essa época. Depois a história parece chegar até um ponto e aí dá a volta acanhada, evoluindo o mundo até a era dos nacionalismos, o fulgor das luzes e outra vez em repressão até o colonialismo e o imperialismo, e volta a começar.

Podia ter sido esta de hoje uma grande época para o pensamento, as artes e as ciências, para o mundo académico, porém os astros parecem anunciar escuridades neo-con, academicismos neo-escolásticos, burocracias imensas e controlo de dados pessoais, e novas formas de velhas censuras, ante as que mais conviria ir pensando em escrever de loucos, de cães ou de fantasias, descrições, surpresas, surrealidades, enormidades marítimas e peregrinações que passem por latinos arremedos inocentes.

One comment

  1. Abanhos

    Texto bem preciso

    Gostar

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