José Fernando Tavares
A Liberdade, a cultura, a democracia e a justiça social são as nossas paixões.
Já o título desta exposição nos remete para uma multiplicidade na representação do homem. Não podemos considerar somente a representação exterior, embora seja para esta que o nosso olhar converge em primeiro lugar. Trata-se, de facto, de uma sinfonia de corpos: estes desfilam diante do nosso olhar como se contemplássemos uma pauta musical nas suas diferentes tonalidades sonoras, acompanhadas pelos cambiantes da cor, ou simplesmente pela pureza da forma acompanhada pela linearidade do seu contorno. É o caso da série de quadros a que intitula Os limites «in» visíveis do corpo, nos quais apenas apreendemos o contorno dos corpos, como se nada existisse para além deles. Mas é na posição do corpo, seja ela estática ou em movimento, serena ou expectante, seja na reverberação do grito ou no enigma do silêncio, que podemos vislumbrar a existência de algo mais: essa substância que confere sentido à humanidade e à qual podemos chamar «espírito», pois jamais um corpo se basta a si próprio por mais simples que se afigure a sua representação plástica. E dizemo-lo desta maneira porque o corpo mais não é do que a representação simbólica do ser que o enforma, esse ser ainda desconhecido (porque de difícil definição) mas que identificamos como pertença nossa: o corpo representado assemelha-se ao espelho onde vemos projectada a nossa imagem real. É a partir desta íntima identificação que o simbolismo da representação pictórica adquire o seu sentido mais amplo, sendo justamente o observador expectante que define um sentido à obra, tal como acontece através da leitura da obra de arte literária.
não retira à pintura de Dorindo Carvalho a sua actualidade, dado que se observam na obra do pintor outros momentos nos quais se afirma esse perene princípio da liberdade criativa. Veja-se a tela que o artista intitulou Deusa do Orinoco, na qual a presença figurativa do corpo é diluída e fragmentada na pujança da cor e na multiplicidade da forma. A presença do traço, longe de ser uma negação da suspensão da cor, diluída no espaço da tela (o que será o mesmo que dizer no espaço que é o mundo em si mesmo, na sua grandeza e na sua pujança germinadora da vida) sem a delimitação das fronteiras da forma, corresponde à iluminação de um caminho, a delineação de um percurso que é também um destino: o destino que subjaz à criação estética, a qual se confunde com o destino do próprio artista.
É desta maneira que podemos compreender essa pequena revolução operada pela série (exposta parcialmente) da qual fazem parte as composições que intitulou Retrato transfigurado (1985) e Fragmentos de uma ruptura aparente (1986). Em ambas as composições avulta a proeminência do traçado grosso a circunscrever a forma arredondada dos corpos. É na composição de 1985 que se vislumbra essa múltipla presença do humano, uma presença que parte da singularidade do indivíduo para a pluralidade espiritual que o enforma. A exposição da nudez, tópico comum na pintura de Dorindo, acompanhada pela face poliédrica da figura, confirma essa outra dimensão que está para lá do indivíduo, confirmando que o homem não se basta a si mesmo; que a sua existência não começa e não termina no ciclo biológico da vida. Em ambas as composições os corpos parecem formar algo que se assemelha a um puzzle, como se estivessem fragmentados em diferentes dimensões. São figuras sofredoras que expõem tragicamente a sua nudez; figuras que atingiram o limite da sua realidade e se transfiguraram para habitar outros universos de modo a afirmar a sua existência. Ao rosto poliédrico atribuiu-lhe o pintor a categoria da transfiguração, sem dúvida o fenómeno que acompanha os limites da realidade, para se converter numa realidade paralela. Quanto maior o poliedrismo do rosto, maior será o sofrimento que dele emana.
momento da solidão extrema; o momento do confronto com a obra de uma vida inteira; o momento do confronto com uma condição que é comum a toda a humanidade. A nudez com que o pintor se representa é a expressão da sua humildade face ao incomensurável. A presença de três luas, na parte inferior da tela, sobre um fundo escuro, dir-se-ia o espaço sideral, acompanha um sol incandescente, irradiante, que parece fugir da tela e que ilumina a mão da figura. É a fugaz iluminação da mão da criação: a mão de uma divindade fragilizada perante a adversidade da condição de ser homem.
Dorindo é um artista polivalente, extremamente livre em sua criatividade. Orgulho-me muito de ter tido alguns poemas ilustrados por ele aqui, na nossa “Viagem”.
Cumprimento, portanto, o José tavares, por seu belo texto, e o meu querido amigo Dorindo Carvalho, grande artista que tanto admiramos.
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A exposição de Dorindo Carvalho vai estar patente até 30 de Junho.