A lua brilhava e o sol nasceu, como todos os dias, mas não para todos.
O sol cumpriu o prometido, já cheirava a Primavera e a natureza toda ela se renovava abraçando vivos e mortos.
Como explicar o falecimento dos vivos e o nascimento dos mortos? Qual o sentido de um parto doloroso e de um esmorecer em vida até ultrapassar a linha que nos separa para sempre?
Não temos certezas, temos vários caminhos dos quais só alguns escolhemos pensando que, se for por aquele, ninguém nos vencerá mesmo que estejamos a pôr, muito devagar, a cabeça no laço da corda que um dia nos vai asfixiar.
Foram gargalhadas, noitadas, fumo, álcool, foram castigos desmesurados quando ainda era criança, foi a falta de carinho de quem o devia ter demonstrado.
Foi tanta coisa errada. Foi tanta coisa certa e alegre. Foram tantos os imprevistos. Foram tantos os momentos com emoções retraídas. Foram tantos os momentos em que as mãos se agitavam e só paravam nos corpos pequeninos que se atreviam a fazer o proibido.
Foi um parto doloroso para a morte quando ainda faltavam algumas luas e sóis para a renovação da Natureza.
Tudo é relativo, será que sessenta e duas Primaveras serão muito ou serão pouco?
Muito ou pouco, como e para quê? Talvez para a construção de um mundo feito por outros na negação, na tentativa da compreensão.
Mas há coisas que não se compreendem nem se aceitam, será que se esquecem? Talvez.
Não se sente obrigatoriamente um vazio, às vezes o que se sente é uma quantidade de emoções todas ao mesmo tempo, recordações, imagens.
Ai as imagens! As mais antigas ou as mais recentes? As que mais nos emocionaram e nos fizeram crescer.