Uma nova série sobre as novas tempestades que se vislumbram já no horizonte

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
Parte II – 22. Aproveite isso enquanto pode (2ª parte)
Por John Mauldin ![]()
Publicado por
em 3 de fevereiro de 2018
(2ª parte)

Compulsões federais
Os nossos dirigentes no FED acreditam que manter a inflação sob controle é a sua principal missão. É justo. O problema é que a inflação não é agora uma ameaça – mas ainda assim eles continuam a sentir-se obrigados a eliminá-la. Pior ainda, eles estão a fazer isso ao mesmo tempo que desfazem no que desse ponto de vista estão a fazer com o seu programa de expansão monetária, com o seu estímulo feito pela quantitative easing (QE), que se torna assim muito maior do que o que deveria ter sido. Esta é uma experiência monetária massiva, e eles não têm mais nada para se apoiarem nesta política que alguns modelos que lhes asseguram que a redução do seu balanço de um milhão de milhões de dólares nos próximos 2 anos não terá nenhum efeito sobre o mercado de ativos.
Mesmo que eles nos digam e a maioria de nós acredite, que a QE é responsável pela inflação dos preços dos ativos em geral, de toda a maneira não é suposto que a pressão quantitativa (PQ) tenha o efeito oposto.
A principal justificação do FED para a pressão quantitativa é a taxa de desemprego persistentemente baixa. Eles acham que isso irá estimular a inflação salarial. Talvez sim, mas até agora não vimos senão esporádicas evidências. Os salários reais estão a cair, não a aumentar.

E aqui tenho que acrescentar: “Exceto o relatório sobre o trabalho publicado ontem”. Encontramos que em janeiro os salários aumentaram 0,3%, ou 2,9% em relação ao mesmo período do ano anterior. Mais alguns relatórios como este e os governadores do Fed terão uma desculpa real para falar sobre a inflação dos salários. Duzentos mil novos empregos significam um relatório muito bom, muito superior à média nos últimos dois anos. O barulho em volta do relatório resulta de este indicar que a média das horas caiu algumas décimas percentuais, de modo que os salários efetivamente pagos mudaram igualmente algumas décimas. Esse impacto estará relacionado com as condições meteorológicas? Vamos esperar pelos dados de fevereiro e março e decidamos depois.
Nada neste relatório de emprego irá desencorajar o Fed de aumentar as taxas de juros pelo menos três vezes este ano, e há motivos para preocupação com quatro aumentos nas taxas de juro. E talvez até mais aumentos se possam vir a verificar em 2019. O relatório de ontem certamente fez movimentar o mercado de títulos da dívida pública nos EUA, já que os rendimentos do Tesouro a 10 anos estão em 2,84% e os títulos a 30 anos passaram para 3,09%. TIPS está a sugerir que a taxa de inflação implícita está-se a situar em 2,2% nos próximos 10 anos.
O que está a acontecer aqui? Apesar dos números de hoje sobre o emprego, quando olhamos para os dois últimos anos, se o mercado de trabalho está tão fechado, então porque é que os ganhos salariais estão tão silenciosos? Isso é um mistério. Penso que as pessoas que deixaram o mercado de trabalho e as que trabalham a tempo parcial por razões económicas equivalem a uma oferta de mão-de-obra escondida que é bem considerável. Num qualquer momento, a economia terá absorvido essa oferta mas não parece ainda que tenhamos chegado a isso.
Na verdade, eu sei que muitos dos que nasceram depois do inicio da década de 80 estão a trabalhar dois e três empregos a tempo parcial para chegarem ao fim do mês. E se eles pudessem realmente conseguir um emprego a tempo inteiro? Com alguns benefícios? Eles iriam agarrar essa oportunidade. Agora, nada mudará na imagem do emprego quando esses trabalhadores passam de ser empregados a tempo parcial para serem empregados a tempo integral, porque continuam igualmente a ser considerados como “empregados”.
Atualmente, existem na América 96 milhões de pessoas potencialmente empregáveis que agora não estão contabilizados como força de trabalho – quase 30% da população. Esse é um número anormalmente elevado para este tardio ciclo de crescimento do PIB, mas espero que o número caia se as oportunidades se desenvolverem. Nem todos no grupo de “não fazem parte da força de trabalho” recusariam um emprego se este estivesse disponível. Não consigo encontrar nenhum dado ou investigação real sobre isso, mas parece-me uma questão de bom senso.
Eu posso entender a subida das taxas do Fed do nível quase zero para algo mais normal. Isso faz sentido. O que não precisamos é de aumentar as taxas e de ao mesmo tempo tirar o mercado de títulos da sua garrafa de flexibilização quantitativa. No entanto, é isso que o Fed está a fazer.
Eu acho que muitos investidores não percebem que o reverso da flexibilização quantitativa, aquilo a que meu amigo Peter Boockvar chama de “pressão quantitativa”, está agora apenas a começar. O gráfico abaixo de Investopedia mostra o caminho projetado. No momento, ainda estamos no topo dessa grande linha a roxo.

O Fed pretende parar de comprar títulos precisamente no momento em que o Tesouro dos Estados Unidos emitirá mais títulos para financiar um défice orçamental crescente. O Tesouro anunciou na semana passada que o empréstimo líquido será estimado em US $ 441 mil milhões neste trimestre e outros US $ 176 mil milhões no segundo trimestre. Foram “apenas” US $ 282 mil milhões no 4º trimestre de 2017. Não seria surpreendente ver o défice oficial dos EUA em US $ 1 milhão de milhões, com outros US $ 500 mil milhões em aumento na dívida e a ficarem fora do registo do défice. Lembrem-se, estes são os números em tempos económicos relativamente bons, pelo menos em termos de PIB.
A dívida dos EUA é oficialmente de US $ 20.622.176.525.000, ou seja, um pouco mais que: US $ 20,6 milhões de milhões. Poderíamos facilmente superar US $ 22 milhões de milhões até 2019 (ou pelo menos andar perto deste valor) se a economia ainda estiver a ir bem. O que acontece quando entrarmos em recessão? Teremos uma dívida total de US $ 30 milhões de milhões no prazo de três a quatro anos. Utilizando as projeções do governo, poderíamos atingir este valor, mesmo sem recessão, um pouco depois de meados da próxima década.
Lateralmente: as receitas projetadas deste corte de impostos não estarão próximas das que o Congresso ou o CBO [Congressional Budget Office] esperam. O meu responsável pela contabilidade e eu próprio já analisámos as novas regras fiscais; e, irritantemente, se somos um pequeno empresário ou um empreiteiro médio, simplesmente não podemos deduzir as despesas que são reembolsadas pelo empregador. Não é assim tão simples, mas está-se perto. O negócio realmente tem que pagar por essas despesas. O que isso significa para mim é que o meu contabilista/associado terá que assinar mais alguns cheques no final do mês, tanto da minha conta pessoal quanto da minha conta comercial, a fim de não ter que declarar rendimento adicional. Posso garantir que uma qualquer pequena empresa que normalmente é reembolsada irá mudar a sua política para ajudar não só os seus proprietários, mas também os funcionários. Isso significará menos receita do que as autoridades federais provavelmente estão a projetar.
Os jogos sobre impostos praticados pelas empresas, sejam elas pequenas, grandes ou gigantescas, estão apenas a começar a entrar na consciência pública. Simplesmente não há como projetar quais as receitas atuais que serão o resultado desse corte de impostos. Mas penso ser seguro dizer que as empresas pequenas e grandes vão fazer o seu melhor para pagar o menor montante possível de impostos. E algo tão abrangente como esta nova lei fiscal abre a esse nível muitas novas oportunidades.
Como segunda questão lateral, isto parece-se agora como se esse “corte” nos impostos, que é suposto que deveria estar a receber, fosse uma espécie de incentivo, já que eles estão a tirar tantas deduções que eu realmente já não vejo aparecer mais dinheiro na minha conta bancária do que eu teria com o sistema antigo. E eu tenho que fazer muito trabalho suplementar para cumprir os novos requisitos. Estou a ouvir o mesmo de amigos de todo o país. Este foi realmente um corte de impostos que terá beneficiado mais as pessoas pertencentes ao grupo dos 50-70% de rendimentos mais baixos do que as pessoas no topo dos rendimentos. E as grandes empresas saem-se bem com esta lei. Agora, voltemos ao texto principal.
Quando a oferta de obrigações disponíveis aumenta e a procura cai, o resultado é então preços mais baixos, o que nos mercados obrigacionistas significa taxas mais altas. Para os títulos T-obrigações, em particular, isto significa maiores taxas de juros de longo prazo. Quanto mais alto ainda está para se ver. As expectativas de inflação – que, novamente, acho que estão equivocadas – também estão a elevar as taxas de juro. Mas as taxas de curto prazo estão a aumentar também, e a um ritmo ainda mais rápido por agor, de modo que a curva de rendimentos continua ainda a estar plana.
Esta tendência tem efeitos indiretos fora do mercado de títulos do Tesouro – nas hipotecas, é um exemplo. Aqui está o que nos diz Peter Boockvar na quarta-feira passada:
Com a taxa média de hipoteca mais elevada nestes 30 anos desde março de 2017 em 4,41% (e a movimentar-se ainda para valores mais altos), as aplicações de compra caíram 3,4% comparativamente com a mesma semana do ano passado (w/o/w – week over week), mas ainda estão a aumentar 10% ao ano. As aplicações de refinanciamento sobre hipotecas (Refi apps) caíram 2,9% w/o/w, mas ainda assim a aumentarem 3,2% ao ano. Talvez porque as taxas fixas de longo prazo agora estão a moverem-se para valores mais altos, houve uma recuperação no mercado ARMs ( mercado de taxas ajustáveis sobre hipotecas) em percentagem do total de empréstimos. As estimativas de Mortgage Banker Association (MBA) preveem que os volumes de refinanciamento serão de cerca de US $ 425 mil milhões em 2018, o que seria o menor montante desde 2000 e menor em 60% em relação ao valor alcançado em 2016.
Em algum momento, taxas mais elevadas levarão à redução de compra de habitação e, potencialmente, reduzirão a leve inflação que o Fed está a ver. Enquanto isso, outros bancos centrais estão, por seu lado, a começar a planear as suas próprias viragens de política monetária. O Banco da Inglaterra e o Banco do Canadá estão, por exemplo, já teoricamente em modo de pressão sobre as taxas. O Banco Central Europeu está a começar a reduzir o seu próprio programa de QE – um primeiro passo para o aperto na política monetária. O Banco do Japão pode fazer o mesmo em qualquer momento
Se percebemos que as condições globais de liquidez se reduzem, o impacto sobre as ações tornar-se-á mais grave. O rendimento do Tesouro a dois anos ultrapassou recentemente o rendimento de dividendos do S&P 500, pela primeira vez desde antes da crise. À medida que essa diferença se alarga, o incentivo para deter obrigações em vez de ações cresce.

(continua)
Disponível em http://www.mauldineconomics.com/frontlinethoughts/enjoy-it-while-you-can
John Mauldin: reputado especialista financeiro, com mais de 30 anos de experiência em informação sobre risco financeiro. Editor da e-newsletter Thoughts from the Frontline, um dos primeiros boletins informativos semanais proporcionando aos investidores informação e orientação livre e imparcial. É presidente da Millennium Wave Advisors, empresa de consultoria de investimentos. É também presidente de Mauldin Economics. Autor de Bull’s Eye Investing: Targeting Real Returns in a Smoke and Mirrors Market, Endgame: The End of the Debt Supercycle and How It Changes Everything, Code Red: How to Protect Your Savings from the Coming Crisis, A Great Leap Forward?: Making Sense of China’s Cooling Credit Boom, Technological Transformation, High Stakes Rebalancing, Geopolitical Rise, & Reserve Currency Dream, Just One Thing: Twelve of the World’s Best Investors Reveal the One Strategy You Can’t Overlook e The Little Book of Bull’s Eye Investing: Finding Value, Generating Absolute Returns and Controlling Risk in Turbulent Markets.
