Trickle down ou trickle up eis a questão. E qual tem sido a opção? Parte II – 24. O fim de uma era de tranquilidade para os mercados financeiros (1ª parte).  Por Nicole Bullock, Eric Platt e Alexandra Scaggs

Uma nova série sobre as novas tempestades que se vislumbram já no horizonte

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 Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Parte II – 24. O fim de uma era de tranquilidade para os mercados financeiros (1ª parte) 

Por Nicole Bullock, Eric Platt e Alexandra Scaggs

Financial Times em 9 de fevereiro de 2018. Republicado por Gonzalo Raffo Infonews.

 

Wall Street sofreu a sua pior semana desde há anos, já que os investidores perceberam que a era do dinheiro barato está prestes a desaparecer

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© FT montagem; Getty Images

 

Por mais de uma década, Mike Schmanske ganhou a vida com a “volatilidade” na negociação financeira – apostando no tamanho e na velocidade das mudanças no mercado acionista dos EUA. Após 2014, o mercado ficou calmo por tanto tempo que ele passou a maior parte do tempo a navegar num iate de luxo tipo Swan [famoso fabricante finlandês de iates]. Ele sentiu a sua adrenalina a fluir de uma maneira diferente: na sua primeira viagem das Bermudas a Newport, Rhode Island, ele apanhou pelas costas um furacão que o trouxe ao porto onde chegou com 12 horas de avanço.

Agora, um novo período turbulência está a puxá-lo de volta a Wall Street. Um forte disparar de volatilidade apagou mais de US $ 5 milhões de milhões no valor das ações mundiais em menos de duas semanas e Schmanske está a falar com os seus antigos amigos comerciais sobre como voltar ao mercado.

“Este é o maior número de chamadas que recebi desde há anos”, diz Schmanske, um pioneiro de alguns dos primeiros produtos de comercialização sobre volatilidade, enquanto trabalhava no Barclays e é agora consultor. “As coisas estavam calmas. Eu estava literalmente num barco há algumas semanas atrás.”

O catalisador do aumento súbito da volatilidade ocorreu às 8h30 de sexta-feira passada, quando o relatório de emprego do governo dos EUA mostrou um aumento surpreendentemente forte nos salários, levando o rendimento das obrigações a aumentar fortemente e o preço desses mesmos títulos a cair. Em poucas horas, as perdas no mercado de tesouraria sobre o valor das obrigações de dívida pública de US $ 14 milhões de milhões transmitiram-se às ações, preparando o cenário para a pior semana de Wall Street em dois anos. Na quinta-feira, as ações dos EUA entraram no que se conhece como uma correção – uma queda de pelo menos 10 por cento. Muitos investidores que se encheram de instrumentos esotéricos que lhes permitiram apostar na calma contínua no mercado foram pura e simplesmente dizimados.

As perturbações nos mercados financeiros ocorridas na semana passada atraíram muita atenção porque atacaram a questão que tem assombrado os mercados nos últimos dois anos – o que acontece quando a economia voltar ao normal? Desde a crise financeira, os mercados foram impulsionados por uma mistura sem precedentes de taxas de juros ultra-baixas e de compra de ativos pelos bancos centrais numa tentativa de afastar a ameaça de deflação. Mas com o crescimento global robusto e a inflação a começar a aparecer novamente, os bancos centrais estão a recuar.

A questão a que os investidores estão a tentar responder é saber quanto é que da queda acentuada nos preços das ações se deve a uma reação técnica impulsionada por um nicho muito mediatizado no mercado que aposta na volatilidade versus parte de um ajustamento mais amplo relativamente a uma realidade económica diferente.

“O sistema mudou”, diz Jean Ergas, estratega-chefe da Tigress Partners, que disse que o mercado atuou mais como um “repensar” do que como uma correção. “Esta é a reversão de uma massiva estratégia de negociação em que as pessoas contraem empréstimos a zero por cento e colocam o dinheiro em ações de um rendimento de 2 por cento”.

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O ano começou com uma nota eufórica, uma vez que um grande corte na tributação sobre as empresas americanas, proposto pela lei fiscal de Trump, levou os investidores a acumularem as suas expectativas quanto ao crescimento dos lucros. A economia estava já a começar a fazer-se ouvir por todo o mundo em termos de saída da recessão, e isto pela primeira vez desde a crise financeira.

No seu pico em 26 de janeiro, os valores de mercado das empresas S&P 500 subiram US $ 5 milhões de milhões em relação ao ano anterior, enquanto as ações globais cresceram em quase US $ 14 milhões de milhões. Os ganhos atraíram pequenos investidores para o mercado, com mais de US $ 350 mil milhões em fundos de investimento no ano, de acordo com o rastreador de fundos EPFR.

Mas já haviam aparecido sinais de disfuncionamento no mercado de obrigações. Os investidores começaram a fazer barulho e exigiam maiores rendimentos. Bill Gross e Jeffrey Gundlach – dois bem conhecidos gestores de grandes fundos de dinheiro bem conhecidos nos mercados de rendimentos fixos – ambos declararam o mês passado uma nova era após um “mercado em alta” de 36 anos em obrigações, que tem visto os seus rendimentos a ficarem regularmente mais baixos.

Foi contra esse pano de fundo que os mercados reagiram às notícias da sexta-feira passada de um aumento de 2,9 por cento nos salários dos EUA – nada dramático numa era diferente, mas ainda assim o maior aumento anual desde que rebentou a crise financeira. Os temores de inflação aumentaram. Os investidores começaram a marcar as probabilidades de que a Federal Reserve pudesse apertar a política monetária num ponto percentual total este ano, de forma mais agressiva do que se pensava anteriormente. O crescimento robusto na Europa e no Japão também levantou a questão de quando o Banco Central Europeu e o Banco do Japão começarão a remover o estímulo da era da crise.

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“Os receios de inflação a regressarem ao mercado e a atingirem basicamente todos os ativos num mercado que tinha subido significativamente é uma história bastante plausível e simples”, diz Clifford Asness, co-fundador da AQR Capital Management. “Você não precisa ir à procura de Alger Hiss nesta abóbora[1]“.

No final de sexta-feira passada, os rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA de referência a 10 anos ultrapassaram 2,8 por cento pela primeira vez em quase quatro anos. Em termos anuais, os rendimentos aumentaram mais de 40 pontos base, aumentando a apetência pelas obrigações em relação às ações. O índice Dow Jones Industrial Average perdeu 666 pontos – um presságio inquietante para traders de uma certa mentalidade religiosa.

“O otimismo sobre o crescimento global sincronizado e as condições macro favoráveis levou a ganhos enormes nos mercados de ações para começar o ano”, diz Craig Burelle, analista de pesquisa de estratégias macro da Loomis Sayles. “Mas, mais recentemente, alguns investidores estavam preocupados com o impulso económico considerando-o demasiadas coisas boas, e o otimismo nos mercados deu lugar a preocupações sobre o futuro caminho da inflação e das taxas de juros”.

Em pouco tempo, a ansiedade tornou-se global. No domingo à noite, muitos americanos estavam a ver os Philadelphia Eagles a incomodarem os New England Patriots na Super Bowl: ao mesmo tempo, os mercados asiáticos estavam a abrir na segunda-feira com um aumento nas taxas de obrigações.

“Em qualquer outro domingo à noite, qualquer um de nós poderia estar mais ansioso com o que estava a ver”, diz Matt Cheslock, operador de mercado de Virtu e veterano de 25 anos na Bolsa de Valores de Nova York. “O jogo proporcionou uma boa distração”.

 

(continua)

Texto original em https://www.ft.com/content/803335d4-0d82-11e8-8eb7-42f857ea9f09

Republicado em THE END OF AN ERA FOR MARKET TRANQUILITY / THE FINANCIAL TIMES COMMENT & ANALYSIS

 

Nota

[1] N.T. Referência a Alger Hiss (1904-1996). alto funcionário do Departamento de Estado dos EUA, denunciado em 1948 como espião ao serviço do governo soviético, tendo sido condenado a 5 anos de prisão. Tinha sido acusado por Whittaker Chambers, ex-comunista, que declarou ter ocultado microfilmes que lhe havia entregue Hiss numa abóbora.

 

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