Trickle down ou trickle up eis a questão. E qual tem sido a opção? Parte II – 26. A meio de uma era. Por George Friedman

Uma nova série sobre as novas tempestades que se vislumbram já no horizonte

Imagem 2 Trickle-Down CADILLAC

 Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Parte II – 26. A meio de uma era

Por George Friedman george friedman gPF

GPF-Geopolitical Futures, em 27 de fevereiro de 2018

Tenho escrito em vários lugares sobre um paradoxo. Por um lado, se você tirar uma fotografia do mundo a cada 20 anos, mais ou menos, a realidade de como o mundo funciona e quais os assuntos considerados importantes terão mudado drasticamente em comparação com o instantâneo anterior. Por outro lado, a todo o momento há uma crença geral de que o mundo como está, no momento, continuará a existir por um longo tempo. Não é apenas o público, mas também os especialistas e os que governam, que tendem a falhar em ver quão transitória é a realidade presente. Como resultado – e é isso que o torna importante – à medida que o sistema geopolítico muda, há uma tendência a ver as mudanças como transitórias, uma interrupção temporária causada por eventos infelizes, até que estejam bem enraizadas, e assim tendemos adaptarmo-nos à mudança muito tarde.

Em 1900, a Europa era pacífica e próspera e dominava o mundo. Supunha-se que esta era uma realidade permanente. Em 1920, a Europa tinha-se desmoronado, empobrecido, numa guerra sangrenta. Assumiu-se que a Alemanha, tendo sido derrotada, estava acabada. Em 1940, a Alemanha ressurgiu e cavalgava a Europa. Supunha-se que não era possível resistir à maré alemã. Em 1960, a Alemanha era um país ocupado e dividido. Supunha-se que a guerra entre os mais fortes dos ocupantes, os Estados Unidos e a União Soviética, era inevitável. Em 1980, houve uma guerra, mas no Vietname, e não na Europa, e os Estados Unidos foram derrotados. Os EUA agora estavam alinhados com a China contra a União Soviética. Supunha-se que os soviéticos eram um inimigo permanente e perigoso para os dois países. Em 2000, a União Soviética já não existia. Supunha-se que o principal interesse de todos os países era o crescimento económico e que o conflito tradicional entre as nações se tornara um assunto marginal.

Vinte anos é um período de tempo arbitrário, mas historicamente é mais ou menos o comprimento de uma geração humana. O mundo muda radicalmente em cada geração, mas as datas podem variar. A última era começou em 1991 e terminou em 2008. No entanto, ainda hoje há muitos que estão esperando o retorno do mundo de 1991. Mais importante, só agora se está a sentir o total poder do que começou em 2008.

A vida após a Guerra Fria

Considere como o mundo mudou em 1991. A União Soviética entrou em colapso, e presumiu-se que o Estado da Rússia, a Rússia, não era mais um fator significativo na forma como o mundo funcionava. A Europa assinou o Tratado de Maastricht, que se acreditava ser séria e razoavelmente o prefácio para a criação dos Estados Unidos da Europa. Os Estados Unidos lideraram uma vasta coligação de nações contra a ocupação do Kuwait pelo Iraque, derrotando o Iraque com poucas vozes dissidentes. A China tinha adotado o capitalismo e iniciou a sua histórica expansão económica; parecia um trem imparável em direção à democracia liberal. O Japão, o milagre económico anterior que nunca terminaria, estava no meio de sua crise económica transformadora. Com o fim da Guerra Fria, os EUA eram a única potência global, e o mundo estava a remodelar-se à imagem americana.

O mundo estava cheio da promessa de que os horrores e perigos do século 20 tinham ficado atrás. E por um tempo, pareceu ser esse o caso. O primeiro sinal de que o mundo não era exatamente como parecia ocorreu em 2001, quando agentes da Al Qaeda atacaram os Estados Unidos e os Estados Unidos atacaram o mundo islâmico.

Essa época durou mais alguns anos, até que dois eventos separados por algumas semanas finalmente a quebraram. Em 8 de agosto de 2008, a Rússia e a Geórgia entraram em guerra, pondo fim à ideia de que a Rússia havia caído numa irrelevância permanente e miserável, ou que a guerra convencional era obsoleta. Depois, em 15 de setembro de 2008, o Lehman Brothers entrou em colapso, destruindo a ilusão de que a economia global só poderia subir. No espaço de pouco mais de cinco semanas, os pressupostos centrais da época começaram a mudar.

A Rússia deixara de ser uma superpotência, mas certamente ainda era uma potência regional. Ainda tinha uma esfera de influência além das suas fronteiras e protegeria seus interesses pela força. O império que os czares haviam criado não iria esperar silenciosamente uma possível morte.

A principal fraqueza da União Europeia foi revelada: não era um Estado-nação, mas apenas um tratado unindo Estados soberanos cujos líderes eram eleitos pelos seus cidadãos e cuja lealdade era para com os seus eleitores, não para com Bruxelas. A UE era um instrumento perfeitamente projetado para o sucesso económico, mas não conseguia lidar com a disfunção económica porque a dor económica não se distribuía ordenadamente pela vasta geografia do bloco. Cada estado membro procurava cada vez mais os seus próprios interesses e frequentemente considerava a UE um obstáculo em vez de uma ajuda. 2008 foi o ponto alto da Europa.

A China descobriu em 2008 que uma economia baseada nas exportações não estava nas suas mãos, mas nas mãos dos seus clientes. A estagnação económica que se seguiu transformou a China de um poderoso motor despejando mercadorias para clientes ansiosos para uma nação lutando para apagar incêndios financeiros, fantasiando sobre estradas sem fim e inteligência artificial, tudo isso enquanto se transformava numa ditadura que provavelmente a definiria para a próxima era. O Japão, em vez de cair em desastre, usou a sua solidariedade social para resistir à crise aceitando a ideia de que uma população em declínio e um crescimento estável levariam a uma renda per capita mais alta.

E os Estados Unidos descobriram que estar montado no mundo era uma receita para tropeçar e cair. A guerra contra o jihadismo não terminaria; os russos não aceitariam seu lugar na ordem mundial; os chineses seriam menos um problema económico do que um potencial problema militar; e os europeus seriam egoístas e provincianos, como seria de esperar da sua posição. Os Estados Unidos perceberam que não estavam prontos, institucional ou psicologicamente, para administrar o poder que adquirira e não podia delegar.

Uma Nova Era

O mundo em 2008, cerca de 17 anos após o início da última era, não se parecia com o que a maioria das pessoas esperava. Por muito tempo – para alguns até hoje – havia a expectativa de que o mundo pós-Guerra Fria (tão bom quanto para o que começou em 1991) era a norma, e que por inépcia de alguém ainda estaríamos lá e certamente voltaríamos a isso. Mas as épocas vêm e vão, e o mundo de 2008 estará em vigor nos anos 2020.

Após 10 anos, seu esboço já está claro. É um momento de disfunção económica, que se define por crescimento lento e distribuição desigual da riqueza, levando a tensão política interna e profunda fricção internacional. Os países estarão focados nos seus próprios problemas, e esses problemas criarão problemas no exterior. É um mundo cuja melhor descrição é: um mundo paroquial, tenso e zangado. Há coisas piores. Mas muito depende de quão rapidamente os Estados Unidos amadurecem no seu papel como país mais poderoso do mundo. Provavelmente o surgimento dos EUA a partir das suas raivas internas será a principal característica da próxima era.

Vinte anos não significam nada na história, mas significa tudo nas nossas vidas, daí que a nossa tendência para nos convencermos da imutabilidade da era atual é compreensível. Mas a história não terminou em 1991, e não terminou em 2008. Para melhor, ou para pior, isso também passará.

 

Texto em https://geopoliticalfutures.com/the-middle-of-an-era/

O autor: analista geopolítico americano, estratega de assuntos internacionais. Fundador e presidente de Geopolitical Futures. Bacharel em Artes, licenciou-se em Ciência Política. Doutorado em Governação pela Universidade de Cornell.

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