AINDA SOBRE A ESCALADA DA GUERRA FRIA, UMA NOVA SÉRIE DE TEXTOS – TEXTO Nº 2. OS TEÓRICOS DA CONSPIRAÇÃO RUSSA NÃO APRESENTAM NENHUMA PROVA uma montagem a partir de um texto de CAITLIN JOHNSTONE

Selecção, tradução e montagem de Júlio Marques Mota

Os teóricos da conspiração russa não apresentam nenhuma prova

 

Montagem a partir do texto de Caitlin Johnstone

Russia Conspiracy Theorists Have Failed To Meet Their Burden Of Proof

Medium.com, 21 de Fevereiro de 2018

 

A   narrativa sobre a Rússia  feita pelo establishment é assustadoramente aborrecida. Oh, ei, chocante, chocante é a  revelação de uma bomba sobre algo que a Rússia fez, toda a gente entra em histeria e , a partir daí, as pessoas  olham mais atentamente  para a natureza da acusação e descobrem que esta deu em nada.. Espuma, limpeza, uma repetição. Uma soma interminável de nulos, dia após dia, dia após dia.

Chato.

Um dos pouquíssimos pontos de luz interessantes nessa cena foi Aaron Maté e o seu jeito excecional e bem fora do comum de convencer os defensores da narrativa do establishment sobre a Rússia de  debaterem a situação com ele, destacando o quão fraco é a argumentação apresentada contra os russos.  Em Dezembro, ele debateu com Luke Harding, autor do famoso livro  “Collusion”, num debate de tal modo intenso  que mais parecia ser  o equivalente verbal de  uma luta entre  Mike Tyson e Bruno Mars. Recentemente Maté teve uma entrevista mais discreta, mas igualmente reveladora com John Feffer da Lobelog and Foreign Policy in Focus.

Tal como Harding, Feffer baseou o seu debate na base da existência   de um “padrão” de acusações  sobre o governo russo e do  seu suposto apoio à campanha de  Trump de 2016, que individualmente estão muito mal fundamentadas e facilmente desmascaradas, mas que  tomadas em conjunto podem parecer criar a ilusão de um argumento sólido para debater a tática conhecida como a falácia de Gish Gallop[1]. Assim designada pelos defensores de Teoria da Terra Jovem, esta falácia é uma tática de debate concebida para bloquear  o lado oposto com um dilúvio de pontos fracos que são difíceis de discutir na sua  totalidade num  diálogo em tempo real.

A narrativa tradicional da Rússia é feita inteiramente de argumentos individuais tão fracos. Russiagate é uma gigantesca Gish Gallop.

Maté utilizou a mesma estratégia que fez com Harding, parando e apontando os pontos fracos individuais nos argumentos de Feffer, tais  como a ausência de evidência para a acusação  do Comité Nacional Democrata (DNC) e as alegações infundadas dos serviços secretos holandeses, o que forçou Feffer a mudar de tática de uma forma muito  interessante que pessoalmente gostaria de destacar aqui.

Veja  esta transcrição da entrevista e faça uma busca pela palavra “counter”. Começa a aparecer  e muito rapidamente mas  sempre da mesma maneira e sempre a partir de Feffer. Vou aqui registar as suas ocorrências:

“Eu tenho que dizer que a prova  é muito mais convincente do que a contra-argumentação que nós não sabemos, ou que poderia ser um bom malandro sentado algures num sofá.”

“Bem,  continuando a mencionar todas essas fontes nas quais   não tem muita fé, mas, francamente, qual é a contra-argumentação ? Quem é que  exatamente invadiu o Comité Nacional Democrata ?

“Tem sido questionada, mas considero honestamente a narrativa que foi apresentada como sendo  bem mais  convincente do que a contra-argumentação sobre essa narrativa. “

“Então, sim, há provas; Se acha que a prova  é robusta ou não, isso depende de si. . Eu pessoalmente acho que é muito mais robusta do que qualquer das contra-narrativas que foram apresentadas, que não têm absolutamente nenhum sentido na realidade “.

Repare-se no  que Feffer está a fazer aqui? Ele está a tentar  transferir o ónus da prova da parte que está a fazer a acusação. Todo o debate poderia ser resumido com exatidão, como  Maté, ali sentado, apontou a natureza não fundamentada de nenhuma das alegações de Feffer, e Feffer a tentar inverter a situação dizendo  que também não há provas da “contra-narrativa” de Maté

Isso é claramente falacioso. O poder mentiu sobre o  Iraque:

Lie by Lie: A Timeline of How We Got Into Iraq:

que  mentiu sobre a Líbia:

The Big Lie About the Libyan War

The Obama administration said it was just trying to protect civilians. Its actions reveal it was looking for regime change.

The new Libyan flag is raised during a parade in the eastern city of Benghazi to celebrate the second anniversary of Nato’s first military operation in Libya on March 19, 2013. On 19 March 2011, Kadhafi’s troops and tanks entered the city and the same day French forces began an international military intervention in Libya, later joined by coalition forces with strikes against armoured units south of Benghazi and attacks on Libyan air-defence systems, after UN Security Council Resolution 1973 called for using “all necessary means” to protect Libyan civilians and populated areas from attack by government forces. AFP PHOTO / ADBULLAH DOMA (Photo credit should read ABDULLAH DOMA/AFP/Getty Images)

O poder  mentiu sobre o Vietname:

“Durante grande  parte das duas últimas décadas, presumiu-se que o incidente do Golfo de Tonquim foi um embuste  de Lyndon Johnson para justificar a guerra no Vietname. Mas os EUA bombardearam o Vietname do  Norte em 4 de Agosto de 1964 como retaliação contra um suposto ataque naval que nunca aconteceu – e a Resolução do Golfo de Tonkin que se lhe seguiu não foi tomada por Lindley Johnson para fazer com que o povo americano apoiasse os EUA. Na guerra no Vietname.

O  verdadeiro Embuste  naquele dia foi que o secretário de defesa Robert S. McNamara enganou LBJ, ocultando-lhe as informações de que o comandante-chefe dos Estados Unidos no Golfo  que havia relatado inicialmente um ataque de barcos-patrulha norte-vietnamitas sobre os barcos de guerra dos EUA, tinha  agora expresso  sérias dúvidas sobre o relatório inicial e pedia que fosse feita  uma investigação completa sobre a questão e que fosse tornada pública. Aquela retenção de informações face ao Presidente Johnson representou um movimento descarado  de usurpação do  poder constitucional de decisão do presidente sobre o uso da força militar.”

E  atualmente o poder está a mentir  sobre a Síria:

Este poder não tem direito ao benefício da dúvida de que está a dizer  a verdade sobre a Rússia e com a sua nova escalada de guerra fria com aquele país. Certamente carregam com o ónus da prova  mas é certo que  não conseguiram corresponder a esse fardo.

O governo mentiu com o falso testemunho de Nayirah.

Sobre o testemunho de Nayirah:

O testemunho de Nayirah foi um testemunho falso dado antes do Congressional Human Rights Caucus em 10 de outubro de 1990, por uma garota de 15 anos que deu  apenas o seu primeiro nome, Nayirah. O testemunho foi amplamente divulgado, e foi citado inúmeras vezes pelos senadores dos Estados Unidos e pelo presidente George H. W. Bush na sua justificação  para apoiar o Kuwait na Guerra do Golfo. Em 1992, foi revelado que o sobrenome de Nayirah era al-Ṣabaḥ (em árabe: نيره الصباح) e que ela era filha de Saud Al-Sabah, o embaixador do Kuwait nos Estados Unidos. Além disso, foi revelado que o seu testemunho foi organizado como parte da campanha de relações públicas Citizens for a Free Kuwait, dirigida pela firma americana de relações públicas Hill & Knowlton para o governo do Kuwait. Depois disso, o testemunho de al-Sabah passou a ser considerado como um exemplo clássico da propaganda de atrocidades modernas.

No seu testemunho emocional, Nayirah afirmou que depois da  invasão do Kuwait pelo Iraque, ela testemunhou ter visto soldados iraquianos a tirarem  os bebés das incubadoras num hospital do Kuwait, levarem as incubadoras e deixarem os bebés morrerem.

Esta sua  história foi inicialmente corroborada pela Amnistia Internacional  e por testemunhos de evacuados. Após a libertação do Kuwait, os repórteres tiveram acesso ao país. Um relatório da ABC descobriu que “pacientes, incluindo bebés prematuros, morreram, quando muitas enfermeiras e médicos do Kuwait … fugiram”, mas as tropas iraquianas “quase que certamente não tinham  roubado incubadoras de hospitais e deixado centenas de bebés do Kuwait a morrerem”. A Amnistia Internacional reagiu emitindo uma correção, com o diretor executivo John Healey a acusar  a administração Bush de “manipulação oportunista do movimento internacional de direitos humanos”.

O governo mentiu no   famoso  incidente do Golfo de Tonkin,  na  afirmação de que  “Saddam tem armas de destruição massiva”  e até na  afirmação de que “as tropas de Gaddafi andavam  a tomar Viagra para cometerem  estupro”.

O governo mentiu   até no  caso  do psicopata   Bana Alabed, ilustrada por este tweet:

Em suma, o governo tem mentido e há  uma abundância de provas disponíveis publicamente de que o poder americano fabrica o consentimento  público para a guerra e de que os  grandes media os ajudam nessa missão e sem hesitação. O leitor não precisa de mergulhar nesse território para ver isso. Este é um campo onde há já muita informação disponível publicamente.

O império centralizado nos EUA tem usado todos os incentivos para mentir a fim de fabricar o apoio na opinião pública para as escaladas de guerra que prejudicam o conjunto Rússia-China, e tem um extenso histórico nessa matéria.   Não nos cabe a nós chegarmos a uma perfeita “contra narrativa” de como isso aconteceu por trás do muro opaco de profundo sigilo de Estado; isso é um argumento da ignorância. Não nos cabe a nós  provar o negativo, cabe-lhes a eles fornecer uma prova positiva. Provar o ataque ao  DNC, provar que há um grupo de agitadores ligados ao governo russo e uma intenção de manipular as eleições, cabe-lhes a eles  fornecer provas de qualquer conluio entre Trump e a  Rússia. Isso não aconteceu de modo nenhum.

Não há atualmente nenhuma convincente razão para acreditar que isto não passe de mais uma posição semelhante a   ” o Saddam tem armas de destruição massiva”, e há todas as razões para não acreditar nas afirmações oficiais. O Iraque foi um crime absolutamente imperdoável contra a humanidade, e é dever de todos evitar que o império centralizado nos EUA receba novamente essa confiança. As escaladas que ameaçam o mundo continuam-se a  acumular   entre as duas superpotências nucleares e essa narrativa sem provas  está a ser  utilizada para a justificar. Num mundo pós-invasão do Iraque, isso é simplesmente inaceitável.

O ónus da prova cabe às pessoas que promovem a teoria da conspiração sobre os russos e o certo até agora é que não têm estado à altura dessa obrigação jurídica uma vez que até agora há uma acusação contra a Rússia e não é apresentada nenhuma prova. [A acusação no Ocidente fica-se pela mentira provada do Ministro dos Negócios Estrangeiros inglês, ou pela afirmação de Theresa May que não vê outra explicação possível.] Até que a montanha de provas necessárias num  mundo pós-invasão do Iraque seja apresentada , isto é tudo o que, de facto, precisa ser dito.

Montagem feita a partir do texto de Caitlin Johnstone, Russia Conspiracy Theorists Have Failed To Meet Their Burden Of Proof, utilizando apenas textos referidos pela  autora. O texto de Caitlin Johnstone está disponível em: https://medium.com/@caityjohnstone/russia-conspiracy-theorists-have-failed-to-meet-their-burden-of-proof-17022aac7b20

________

[1] De WEB: O Gish Gallop é a técnica de debate onde se afoga um oponente com uma enxurrada de pequenos argumentos, de tal forma que o oponente não pode responder ou endereçar cada um em tempo real. Muitas vezes esta miríade de argumentos são cheios de meias verdades, mentiras e argumentos do espantalho – a única condição é que haja muitos deles, não que eles sejam particularmente convincentes em si mesmos. Eles podem ser válvulas de escape ou argumentos do tipo “te peguei”, que são especificamente criados para ser breves, mas levar muito tempo para responder. Assim, o galloping é frequentemente usado em debates com tempo (especialmente por criacionistas) para derrotar o argumento de um oponente.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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