Convidar Adriano Moreira para falar na comemorações do 25 de Abril é grotesco. E um insulto à memória. Ele é o responsável pela reabertura do “Tarrafal”: o Campo da Morte Lenta. Ali o fascismo encarcerou e matou alguns daqueles a quem devemos a Democracia e a Liberdade.
Tal convite é tão grotesco e insultuoso como ele ser conselheiro de Estado. Um “milagre” só possível num país sem memória e sempre pronto a mimar os canalhas.
Adriano foi indicado para tal função por Portas. Percebe-se: um homem do “24” só podia ser indicado por outro homem do “24”. Por muito que Portas se tenha travestido e usado sabonetes de alfazema em sucessivos “banhos de democracia”.
Moreira, filho de um polícia de Macedo de Cavaleiros, começou por ser do reviralho. Mas por pouco tempo. Logo saltou para o colo de Salazar que fez dele subsecretário de Estado da Administração Ultramarina primeiro e ministro do Ultramar depois.
Foi nessa condição que reabriu o Campo de Concentração do Tarrafal, que tinha sido encerrado, por via da pressão internacional, após a vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial.
Fê-lo através da Portaria nº 18539, de 17 de Junho de 1961, ao abrigo dos artigos 4º e 5º do Decreto nº 43600, de 14 de Abril desse ano, que institui “em Chão Bom (Ilha de Santiago, Cabo Verde), um campo de trabalho, isto é, de acordo com as disposições do capítulo II do Decreto Lei nº 39997, 29 de Dezembro de 1954, uma colónia penal.”
“Campo de trabalho” e “Colónia Penal” são designações falsas que o fascismo usou para esconder a verdadeira identidade e função do Campo da Morte Lenta.
O “Tarrafal” foi criado à imagem dos campos de concentração nazis. Encarcerou antifascistas portugueses (1936-1954) e militantes anticoloniais (1962-1974). Nomeadamente: os participantes da Revolta da Marinha Grande (18 de Janeiro de 1934) e os que fizeram a Revolta dos Marinheiros (8 de Setembro de 1936). O escritor Luandino Vieira e os intelectuais africanos António Jacinto, António Cardoso e Mendes de Carvalho também ali estiveram detidos e foram torturados.
Bento Gonçalves (1902-1942), torneiro-mecânico e secretário-geral do Partido Comunista Português (PCP) e o anarco-sindicalista Mário Castelhano (1896-1940), líder da Confederação do Trabalho (CGT), foram dois das centenas de homens que o fascismo lusitano ali aprisionou e matou. Edmundo Pedro (1918 – 2018), histórico militante do Partido Socialista, também esteve no “Tarrafal”, tendo como parceiro de cárcere seu pai, Gabriel Pedro.
Apesar do seu passado, Adriano Moreira sobreviveu ao “25 de Abril” e ao PREC. Militou e presidiu ao CDS. Foi deputado na Assembleia da República. E há quem o considere um senador. Um senador do Tarrafal, pois apesar de Portas ter justificado a sua indicação para conselheiro de Estado por o considerar “um dos mais persistentes e profundos defensores do humanismo cristão em Portugal” não se lhe conhece nenhum acto de contrição.
Uma coisa é certa: os 57 anos que nos separam da Portaria nº 18539, que ele assinou para decretar a reabertura do Campo da Morte Lenta, não apagam tão criminosa decisão. Os mortos do Tarrafal estão aí para o impedir.
A tempo: Por respeito a todos aqueles que vão festejar os 44 anos do “25 de Abril” não indico a entidade que convidou Moreira. Bem pode acontecer que o tenha feito por falta de cultura histórica ou simplesmente por achar que tal lhe possa dar algum tempo televisivo…
É uma vergonha. Se o herdeiro natural do “caetanismo” chegou onde chegou, que mais nos faltará ver? Sem a glória da passagem da Ponte de Argole mas com tantos beijos em seu favor não espantaria um 18 do Brumário como arcobotante duma segunda edição dum bloco central.CLV
É uma vergonha. Se o herdeiro natural do “caetanismo” chegou onde chegou, que mais nos faltará ver? Sem a glória da passagem da Ponte de Argole mas com tantos beijos em seu favor não espantaria um 18 do Brumário como arcobotante duma segunda edição dum bloco central.CLV