“A LUA E AS FOGUEIRAS” DE CESARE PAVESE por Clara Castilho

 O livro “A lua e as fogueiras”  de Cesare Pavese foi publicado originalmente em 1950 e é  a sua última obra. Neste romance, o personagem central retorna rico à cidade de Santo Stefano Belbo, de onde partiu ainda jovem para “fazer a América”, pretendendo usufruir uma vida abastada.

Enguia, o protagonista, é um bastardo que nunca conheceu os pais, que fora obrigado a trabalhar nos campos. E que constantemente procura as suas raízes que nunca encontrará. Passados tantos anos, e depois de ter vivido tantas experiências, encontra os mesmos  locais que lhe parecem diferentes, onde tantas coisas aconteceram, nomeadamente durante a II Guerra Mundial. Ele próprio também já não era igual.

É uma historia práticamente autobiográfica e Pavese situa-a em Santo Stefano, terra onde nasceu.

Pavese suicidou-se poucos meses depois de ter terminado a escrita deste livro.

“Era estranho como tudo estava mudado, no entanto, igual. Nem uma videira ficara das velhas, nem um bicho; agora os pastos eram restolhos e os restolhos fileiras de uva, as pessoas haviam passado, crescido, morrido; as raízes desmoronadas, levadas pelo Belbo – no entanto, olhando em volta, o extenso flanco de Gaminella, as estradinhas distantes nas colinas do Salto, os terreiros, os poços, as vozes, as enxadas, tudo era sempre igual, tudo tinha aquele cheiro, aquele gosto, aquela cor de então.

[…] Contei-lhe que no meu tempo este vale era maior, havia gente que andava por ele de carruagem e os homens usavam uma corrente de ouro no colete e as mulheres do povoado, da Stazione, usavam sombrinhas. Contei-lhe que faziam festas – de casamentos, de baptismos, de Nossa Senhora – e vinham de longe, do alto das colinas, vinham os músicos, os caçadores, os prefeitos. Havia casas – palacetes, como aquele do Nido na colina de Canelli – que tinham quartos onde cabiam quinze pessoas, vinte, como no hotel Angelo, e comiam, tocavam o dia inteiro. Nós também, garotos, naqueles dias fazíamos festas nos terreiros e brincávamos, no verão, de settimana; no inverno, de pião no gelo. A settimana era uma brincadeira de pular com uma perna só, como ele estava, ao longo de fileiras de pedrinhas, sem tocar nas pedrinhas. Os caçadores, depois da colheita da uva, iam pelas colinas, pelos bosques, subiam a Gaminella, a San Grato, a Camo, voltavam enlameados, mortos, mas carregados de perdizes, de lebres, de caça. Nós os víamos passar da casinhola e depois, até a noite, ouvia-se que faziam festa nas casas do povoado e no palacete do Nido, lá embaixo – naquele tempo se via, não havia aquelas árvores – todas as janelas ficavam iluminadas, parecia fogo, e viam-se passar as sombras dos convidados até a manhã seguinte.”

A lua e as fogueiras [La luna e Il falò], Cesare Pavese (Tradução de Manuel de Seabra, Ed. Arcádia)

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