CARTA DE BRAGA – “Ó pá!” – por ANTÓNIO OLIVEIRA

A menina não teria mais de três anos!

Corria e saltava com aquele passo escangalhado de todas as meninas daquela idade. Estávamos, ela, a mãe dela, eu e mais algumas pessoas na fila única para o balcão dos CTT e a menina correndo de um lado e para outro, entre as pessoas da fila, arregaçando a camisolita, sem se preocupar com coisa alguma a não ser com o olhar meigo da mãe.

Ninguém a interrompia e ela ria, voltava atrás e fazia uma pergunta, ‘Ainda vamos estar aqui muito tempo?’ ou ‘Quando vamos para casa?’ e mais uma ‘Onde está o pai?’ sem parar as correrias e sem nunca se afastar muito daquele carinhoso e atento olhar de mãe embevecida.

Nós, os outros clientes esperadores dos produtos do balcão, vales de reformas, talões de registo, caixas para encomendas e envelopes (já ninguém compra selos!), gastávamos o tempo olhando a garota, a maior parte abrilhantando um sorriso compreensivo, o que também levava a mãe a corresponder, vaidosa com as atitudes da menina.

Quando se fartou das correrias e depois de se ter ido aconchegar às pernas da mãe, tira um telemóvel de brinquedo do bolsito da saia e desata numa conversa pegada com alguém que parece conhecer muito bem!

A certa altura a mãe pergunta sorrindo, ‘Com quem estás a falar?

A garota afasta o telemóvel e responde a sorrir também, ‘Com o meu namorado!

Sem outra atitude a não ser alargar o sorriso, ‘Onde é que ele está?

Sempre a sorrir e mostrando alguma cumplicidade, ‘Está no café!

A troca de sorrisos continua, encantando todos os que seguíamos a conversa, ‘Ah, está bem! E como é que ele se chama?

Fiz um esforço para não me rir com a rapidez da resposta da resposta ‘Ó pá!

A mãe não se conteve e rindo, pega na garota, aperta-a de encontro ao peito e ‘Vai lá, não o deixes à espera!

Um mundo, outro e diferente, bem distante daquele em que o diálogo parece estar cada vez mais afastado, onde uma conversa assim é sempre um encantamento até pela novidade, mas muito mais pela cumplicidade e pelo entendimento, bem visíveis nos sorrisos das duas e, acima de tudo, pela ingenuidade do nome do ‘namorado’, o ‘Ó pá!’ habitual entre amigos e colegas do infantário ou da escolinha pré-primária.

Neste mundo cheio de certezas líquidas, voláteis, ambíguas e contraditórias, que tanto querem dizer uma coisa como o seu contrário, onde vemos constantemente que a bondade terá a mesma importância da malignidade, só a linguagem simples, na boca dos simples, poderá voltar a dar valor ao vocábulo, à palavra!

Socorro-me de Manuel Vicent, que já por aqui apareceu mais vezes, filósofo, escritor, jornalista e galerista de arte espanhol, que escreveu recentemente, ‘Toda la filosofia griega salió de bocas desdentadas!

Mas quem quer saber disto quando mentirosos compulsivos se fazem passar por donos da verdade e da ética?

E são tantos!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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