Da crise atual à próxima crise, sinais de alarme – De onde é que irá disparar a próxima crise? Por The Economist

pobresericos

Seleção de Júlio Marques Mota e tradução de Francisco Tavares

De onde é que irá disparar a próxima crise?

O endividamento das empresas poderá ser a causa.

Por Buttonwood

Publicado por The Economist logo em 3 de maio de 2018

35 de onde ira disparar a proxima crise

 

As taxas de juros estão em alta e provavelmente colocarão os mercados financeiros sob pressão. Investidores e reguladores adorariam saber de onde virá a próxima crise. Qual será a causa mais provável?

As crises financeiras tendem a envolver um ou mais destes três ingredientes: empréstimos excessivos, apostas concentradas e um desajustamento entre ativos e passivos. A crise de 2008 foi assim tão séria porque envolveu os três ingredientes – grandes apostas em produtos estruturados ligados ao mercado imobiliário e balanços bancários que estavam sobrecarregados e dependentes de financiamento de curto prazo. A crise asiática do final da década de 90 foi o resultado de empresas que assumiam empréstimos excessivamente em dólares quando as suas receitas eram em moeda local. A bolha da internet [usualmente conhecida por bolha dotcom] teve consequências menos sérias do que estas porque as apostas estavam concentradas em ações; a dívida não desempenhou um papel significativo.

Pode parecer surpreendente afirmar que a génese da próxima crise provavelmente está à espreita no endividamento das empresas. Os lucros têm vindo a crescer fortemente. As empresas do índice S&P 500 estão a ter como meta um ganho anual de 25% quando todos os resultados do primeiro trimestre forem publicados. Algumas empresas, como a Apple, estão a nadar em dinheiro líquido.

Mas muitas não estão assim. Nas últimas décadas, as empresas têm procurado tornar os seus balanços mais “eficientes”, aumentando a dívida e aproveitando a dedutibilidade fiscal dos pagamentos de juros. Empresas com dinheiro disponível tendem a usá-lo para recomprar ações, seja sob pressão de investidores ativistas ou porque isso aumentará o preço das ações (e, portanto, o valor das opções dos executivos).

Ao mesmo tempo, um período prolongado de taxas baixas tornou muito tentador assumirem-se mais dívidas. A S&P, uma agência de classificação de crédito, diz que, em 2017, 37% das empresas globais estavam altamente endividadas. Isso é cinco pontos percentuais acima da taxa correspondente de 2007, pouco antes da crise financeira. Do mesmo modo, as operações de capitais de investimento são mais numerosas do que nunca desde a crise, aumentando-se assim o nível de endividamento.

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Um sinal de que a qualidade de crédito do mercado se tem vindo a deteriorar é que, globalmente, a notação mediana dos títulos caiu de forma constante desde 1980, de A para BBB-. O mercado está dividido em títulos de grau de investimento (dívida com alta classificação de crédito) e títulos de grau especulativo, ou de “lixo”, abaixo desse nível. A linha divisória está na fronteira entre BBB- e BB +. Portanto, o título mediano está agora um degrau acima do lixo.

Mesmo dentro das dívidas com grau de investimento, a qualidade caiu. De acordo com a PIMCO, um dos maiores grupos mundiais de gestão de fundos, na América 48% desses títulos são agora classificados como BBB, quando era de 25% nos anos 90. As empresas que os emitem também estão mais endividadas do que costumavam estar. Em 2000, o índice de alavancagem líquida para os emissores de obrigações BBB era de 1,7. Agora é de 2,9.

Os investidores não estão a exigir maiores rendimentos para compensar a deterioração da qualidade da dívida das empresas; bem pelo contrário. Num recente discurso durante uma conferência na London Business School, Alex Brazier, diretor do Departamento de Estabilidade Financeira do Banco de Inglaterra, comparou o rendimento das obrigações de empresas com a taxa livre de risco (a previsão do mercado para a trajetória oficial da taxa de curto prazo). Na Grã-Bretanha, os investidores não estão a exigir praticamente nenhum retorno adicional relativamente às obrigações emitidas pelas empresas que reflita o risco de crédito do emissor. Na América, a diferença, o spread, é a mais baixa desde há 20 anos. Assim como as taxas baixas encorajaram as empresas a emitir mais dívida, os investidores foram tentados a comprar os títulos por causa dos baixos retornos disponíveis em dinheiro.

Brazier também constatou que o custo de se segurar contra um emissor de títulos que falha e não paga, conforme medido pelo mercado dos títulos de seguro de crédito, os famosos CDS, caiu 40% nos últimos dois anos. Isto dá a ideia de que os investidores estão menos preocupados com a falência das empresas. Mas um modelo que analisa a maneira como os bancos avaliam a probabilidade de incumprimento, compilado pelo Credit Benchmark, uma empresa de análise de dados, sugere que os riscos praticamente não se alteraram nesse período.

Assim, os investidores estão a receber menos retornos pela mesma quantidade de risco. Combine isso com a liquidez em declínio do mercado de obrigações (porque os bancos se retiraram da atividade de criadores de mercado) e assim tem a receita para a próxima crise. Pode não acontecer este ano, ou mesmo no próximo. Mas já existem sinais ameaçadores.

Matt King, estratega do Citigroup, diz que as compras externas da dívida das empresas americanas secaram nos últimos meses, e o retorno sobre a dívida com grau de investimento até agora tem sido este ano de -3,5%. Matt King compara os mercados com um jogo de cadeiras musicais. À medida que os bancos centrais retiram o estímulo monetário, vão retirando assentos. Finalmente alguém perderá um lugar e cairá.

 

Texto original em https://www.economist.com/finance-and-economics/2018/05/03/where-will-the-next-crisis-occur

Republicado em http://gonzaloraffoinfonews.blogspot.pt/2018/05/where-will-next-crisis-occur-economist.html

 

 

One comment

  1. Carlos A.P,M.Leça da Veiga

    Curioso, é serem os próprios praticantes do capitalismo, quem, periodicamente, “dão com os burrinhos na água” . Não sabem fazer mais nada? Que tal arrepiar caminho. É que – e a História mostrá-lo-á – o valor da troca não subsistirá ao valor do uso.CLV

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