De setembro de 2008 a setembro de 2018, uma década perdida, uma década que se quer esquecida – Narrativas sobre a incapacidade, a recusa e a desonestidade intelectual dos nossos dirigentes face aos mecanismos que levaram à crise – 2. Cinco surpreendentes resultantes da crise financeira de 2008, por Gillian Tett

3 set20082018 VENDEDOR BA BANHA DA COBRA

Uma série que tomo a liberdade de dedicar ao meu amigo jornalista João Marques que tanto tem denunciado a financeirização das economias a que temos estado a assistir e que neste momento passa por uma situação de saúde bem delicada.

Júlio Marques Mota, 17 de setembro de 2018

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

2. Cinco surpreendentes resultantes da crise financeira de 2008. 

Gilian Tett texto 17 parte II Por Gillian Tett

Publicado por FTimes em 6 de setembro de 2018

 

Nós ficámos a conhecer quais os perigos colocados pelos “bancos demasiado grandes para falir” mas agora eles são ainda maiores.

As previsões são difíceis, especialmente sobre o futuro; é pelo menos o que nos diz uma velha piada dinamarquesa. Mas isso não impediu que analistas financeiros especulassem febrilmente neste outono sobre o futuro das finanças – e debaterem sobre quem previu a crise financeira de 2008.

À medida que os post-mortem se acumulam, há uma outra pergunta intrigante a ser feita: com que é que a trajetória das finanças se parece hoje, quando comparada com o que esperávamos há uma década atrás? A minha própria resposta é: “um pouco surpreendente”.

Mais notavelmente, se observarmos como evoluíram as finanças, há pelo menos cinco características que parecem claramente contraintuitivas – até mesmo estranhas – à luz da narrativa daqueles dias de pânico depois que o Lehman Brothers entrou em colapso.

Quais são essas surpresas?

Comecemos com a questão da dívida. Há dez anos, investidores e instituições financeiras reaprenderam da maneira mais difícil que o excesso de alavancagem pode ser perigoso. Então, parecia natural pensar que a dívida diminuiria, à medida que os mutuantes e mutuários castigados ficavam assustados.

Não foi nada disto que aconteceu. O mercado hipotecário americano fez a experiência da desalavancagem. Assim foi com os setores bancário e os hedge funds, ditos fundos de cobertura. Mas a dívida global geral disparou: no ano passado, foi 217% do produto interno bruto, quase 40 pontos percentuais acima –não abaixo- do valor de 2007.”

Uma segunda surpresa é a dimensão dos bancos. Os efeitos de arrasto da falência do Lehman tornaram claros quais os perigos colocados pelas instituições financeiras “demasiado grandes para falir” com concentrações extremas de poder de mercado e de riscos. Não surpreendentemente, houve sucessivos apelos para as fragmentar.

As grandes bestas que agora temos são ainda maiores: segundo os últimos dados recolhidos nos Estados Unidos os cinco maiores bancos controlavam 47% dos ativos bancários, em comparação com 44% em 2007, e os 1% do topo de fundos mútuos controlam 45% dos ativos. Não é pois claro se os organismos encarregados da regulação resolveram o dilema do “demasiado grande para falir”

Um terceiro desenvolvimento contraintuitivo é o poder relativo da finança americana. Em 2008, a crise parecia ser ‘ Made in América ‘ Saga: hipotecas americanas ditas de subprime e engenharia financeira de Wall Street estavam na raiz do colapso. Então parecia natural presumir que as finanças americanas poderiam ser posteriormente humilhadas.

Não aconteceu nada disto. Os bancos de investimento americanos hoje eclipsaram os seus rivais europeus em quase todos os sentidos (parte das transações, rendimento dos capitais próprios e evolução dos valores imobiliários) e os centros financeiros de Nova York e Chicago continuam a aumentar de importância com Londres a ser atingida pelo Brexit.

Depois, há a questão das empresas financeiras não bancárias. Há uma década, os investidores descobriram o mundo dos “bancos paralelos também ditos bancos sombra”, quando aprenderam que um vasto ecossistema oculto de veículos de investimento opacos representava um enorme risco sistémico. Os reguladores comprometeram-se a aplicar medidas repressivas contra este tipo de bancos. A partir daqui, será então que os bancos da sombra diminuíram de atividade? Não exatamente: uma definição conservadora do setor de banco de sombra sugere que agora representam $45 milhões de milhões, controlando 13% dos ativos financeiros do mundo, quando representavam um pouco mais de $28 milhões de milhões em 2010. Uma repressão regulatória sobre os bancos só tem empurrado mais atividade para os bancos sombra. “

Um quinto tema a ponderar é a retribuição por tudo isto no pós crise. Anteriormente, quando os emprestadores estavam a falir às dezenas, pareceria natural admitir que alguns banqueiros terminariam a sua vida profissional ao serem metidos na prisão. Afinal, houve centenas de processos judiciais depois do escândalo da crise dos Caixas de Poupança e Crédito (LS) na década de 1980. Mas enquanto os bancos foram atingidos com multas na última década, totalizando mais de US $321 mil milhões, praticamente os únicos financiadores que passaram algum tempo na prisão são aqueles que cometeram crimes que não estavam diretamente ligados à crise, como os banqueiros especuladores que defraudaram a determinação da taxa LIBOR.

Agora, os cínicos podem dizer que essas cinco surpresas mostram até que ponto a elite financeira é poderosa no Ocidente; eles poderiam argumentar – como o meu colega Martin Wolf observou – que isto também reflete um fracasso dessas elites e dos seus potenciais reformadores ao proporem ideologias alternativas. Mas esses desenvolvimentos podem ser explicados por uma sexta mudança contraintuitiva: o que aconteceu na esfera política.

Há uma década, parecia natural esperar que a crise levasse ao ressurgimento da esquerda política. Em 2009, o movimento Occupy Wall Street ganhou inicialmente apoio à sua campanha contra o excesso do mercado livre. Mas hoje são em grande parte os partidos de direita que conquistaram as maiores recompensas eleitorais. Mesmo quando esses grupos fazem campanha sob o manto da retórica anti-establishment, eles geralmente têm um interesse limitado em rever (ou mesmo em falar sobre) a estrutura da finança.

Será que isto irá mudar nos próximos anos? Possivelmente. Mas é aqui que está o ponto-chave: a última década mostra que as previsões são melhor apresentadas com um toque de humildade – e o conhecimento do que não acontece às vezes pode ser ainda mais significativo do que o conhecimento do que realmente acontece.

 

Five surprising outcomes of the 2008 financial crisis. Disponível em: https://www.ft.com/content/73e3ae2a-b1ca-11e8-8d14-6f049d06439c

 

 

 

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