CARTA DE BRAGA – “da maçã e da banheira” – por ANTÓNIO OLIVEIRA

Sinto que tenho necessidade de arranjar um mecânico que saiba tratar de motores humanos!

Não quero um interno habilidoso, nem um licenciado leitor de relatórios ou um que olhe para os papéis (sempre muitos!) enquanto o doente (candidato a pessoa sã), se vai desunhando para explicar tudo o que ali o arrastou.

Quero um clínico como os de antigamente, os que sabiam escutar, punham as mãos e ‘sentiam’ o queixoso, por também saberem do mundo e do ambiente em que ele se movimentava, penava e apanhava as ‘pontadas’, as ‘maleitas’ e os achaques que faziam da ida ao médico um cerimonial de respeito mútuo, fora do cronómetro dos aviamentos por objectivos, ‘dez minutos chega perfeitamente!’.

Não é por nada de especial, mas apenas por constatar cada dia que passa, que os imparáveis e celebrados progressos tecnológicos também transformaram todas as instituições, numa mudança especialmente sentida nas organizações sociais.

Partindo só da uma análise pessoal (qualquer um pode e deve fazer este exercício), a tecnologia distorce a forma como se experiencia o espaço e o tempo e, ligada decisivamente a tudo isto, a maneira como afrontamos e tentamos estar nas actividades de todos os dias, por também já ter mudado a maneira como nos relacionamos com o ‘outro’.

A urgência da produção por objectivos, a eficácia do ‘saber carregar nos botões’, muito mais rendível do que ‘saber por que carregar’ e que se começa logo a ensinar nas escolas, afastando ou pondo de parte a cultura do ‘saber de onde’, do ‘onde’ e do ‘para onde’, faz com que dos bancos da escola ao centro de saúde ou ao hipermercado, a palavra de ordem seja ‘celeridade’.

E (cada um o pode sentir!) aumentam diariamente os anúncios, as mensagens, o clarão vermelho intenso tão atordoante como o troar dos avisos ‘últimas notícias’, ‘últimos dias’, ‘urgência’, ‘compre agora’ ou ‘aproveite já’ com que assaltam os espaços todos onde estivermos, mesmo sem nada para fazer.

Este parece ser o problema maior, o da velocidade em que querem (quem?) que a gente viva agora, neste tempo de ‘excesso’ e ‘aceleração’, devidamente estimulados pelos media em volta e pelos que carregamos, em que se olha para quem aprecie e tente uma alternativa de quietude, de silêncio e mesmo de não fazer absolutamente nada, como esbanjadora, irresponsável, preguiçosa e ociosa, o palavrão escolhido para o supremo enxovalho.

Estas considerações decorrem de algumas experiências pessoais tanto na profissão, como no ensino e na saúde, devidamente acompanhadas e justificadas pelas reflexões do sociólogo alemão Hartmut Rosa, para quem a ‘aceleração imita misteriosamente os critérios de um poder totalitário!

O sociólogo salienta que tal ‘aceleração pressiona a vontade e a acção individual, não se pode evitar, é omnipresente e muito difícil de criticar e combater’.

Debater esta afirmação daria para uma tese de doutoramento e, por isso, prefiro deixar aqui duas questões simples – alguém estudaria Newton nestes dias por ele ter aprendido tudo só por estar sentado debaixo de uma macieira, ou saberia de Arquimedes por ele também só estar a experimentar nadar na banheira?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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