I
Saí da aldeia onde nasci —Chã de Alvares/Góis— com 10 anos, mas foi ainda ali que comecei a ouvir falar da 1.ª República como um tempo melhor para todos do que aquele que então se vivia, o que não deixou de me fazer confusão dado que eu nem vivia mal de todo, ou seja, percebia que tinha melhores condições de vida do que a maioria dos companheiros da escola primária.
Depois, lá em casa falava-se muito do meu avô paterno, que não tive a felicidade de conhecer; era a minha avó que dele falava com saudades e sempre com um brilho nos olhos quando o invocava e me mostrava fotografias, mas também o meu tio, irmão mais velho do meu pai, no mês de férias que passava na aldeia, que me falava do meu avô e me dizia ter ele sido um republicano muito activo, desempenhando alguns cargos, nomeadamente Vereador da Câmara Municipal de Góis e Juiz de Paz, para além de arrastar atrás de si as pessoas da freguesia para votarem no seu candidato. Mais tarde, a viver em Torres Vedras e a conviver com os movimentos cineclubistas dos anos 60, com muitos militantes do PCP, já a coisa me soava a caciquismo, resolvendo tirar as dúvidas com o meu tio. «Não penses isso do teu avô, a maioria das pessoas era analfabeta, muitas perguntavam ao teu avô em que candidato deviam votar e ele informava-os de quem ele próprio apoiava, só isso. Claro, acrescentava o meu tio não escondendo o sorriso, o candidato do teu avô ganhava sempre as eleições em várias freguesias do concelho. O teu avô era muito respeitado não só no concelho de Góis, mas também noutros concelhos do distrito de Coimbra».
O meu avô era um verdadeiro republicano, como mais tarde, já adolescente, pude confirmar ao falar com pessoas da freguesia e de Góis que com ele tinham convivido, mas, contrariamente ao que eu desejava, não tinha tendências de esquerda, era um conservador.
Em Torres Vedras o 5 de Outubro era comemorado com grande convicção, havendo nessas comemorações pessoas que eu sabia ligadas ao PCP e às forças da oposição, o que me levou a pensar que a 1.ª República havia sido um período de grandes conquistas para os portugueses, particularmente para os trabalhadores por conta de outrem, que na altura eu confundia um pouco com os proletários.
A candidatura de Arlindo Vicente, muito apoiada em Torres Vedras, alimentou a ideia que eu tinha formado sobre aquele período da nossa história.
Completei os meus 17 anos já a viver em Lisboa, onde não falhava as comemorações do 5 de Outubro e as romagens à estátua de António José de Almeida.
Já com 20 anos, comecei a conviver com uns primos daquela que viria a ser a minha 1.ª mulher e com a mãe de um deles, a D. Gertrudes, que me falava do seu dia-a-dia no período republicano, dos obuses que passavam por cima da sua casa —«O Alto do Pina disparava, depois a fragata no Tejo respondia…»—, despertando em mim a curiosidade, levando-me a pensar que, afinal, a 1.ª República teve problemas mais sérios do que eu pensava. Da curiosidade passei ao estudo sério daquele período e pude verificar que havia construído dentro de mim um mito sobre a 1.ª República portuguesa.
Na minha procura, houve um livro a que não poderia ter acesso e que me teria ajudado muito a compreender o que foi realmente o período republicano: «Os Reinegros», de Alves Redol.
II – Os Reinegros, de Alves Redol

