DO MITO À PROCURA DA VERDADE SOBRE A 1.ª REPÚBLICA – por ANTÓNIO GOMES MARQUES

 

 

I

Saí da aldeia onde nasci —Chã de Alvares/Góis— com 10 anos, mas foi ainda ali que comecei a ouvir falar da 1.ª República como um tempo melhor para todos do que aquele que então se vivia, o que não deixou de me fazer confusão dado que eu nem vivia mal de todo, ou seja, percebia que tinha melhores condições de vida do que a maioria dos companheiros da escola primária.

Depois, lá em casa falava-se muito do meu avô paterno, que não tive a felicidade de conhecer; era a minha avó que dele falava com saudades e sempre com um brilho nos olhos quando o invocava e me mostrava fotografias, mas também o meu tio, irmão mais velho do meu pai, no mês de férias que passava na aldeia, que me falava do meu avô e me dizia ter ele sido um republicano muito activo, desempenhando alguns cargos, nomeadamente Vereador da Câmara Municipal de Góis e Juiz de Paz, para além de arrastar atrás de si as pessoas da freguesia para votarem no seu candidato. Mais tarde, a viver em Torres Vedras e a conviver com os movimentos cineclubistas dos anos 60, com muitos militantes do PCP, já a coisa me soava a caciquismo, resolvendo tirar as dúvidas com o meu tio. «Não penses isso do teu avô, a maioria das pessoas era analfabeta, muitas perguntavam ao teu avô em que candidato deviam votar e ele informava-os de quem ele próprio apoiava, só isso. Claro, acrescentava o meu tio não escondendo o sorriso, o candidato do teu avô ganhava sempre as eleições em várias freguesias do concelho. O teu avô era muito respeitado não só no concelho de Góis, mas também noutros concelhos do distrito de Coimbra».

O meu avô era um verdadeiro republicano, como mais tarde, já adolescente, pude confirmar ao falar com pessoas da freguesia e de Góis que com ele tinham convivido, mas, contrariamente ao que eu desejava, não tinha tendências de esquerda, era um conservador.

Em Torres Vedras o 5 de Outubro era comemorado com grande convicção, havendo nessas comemorações pessoas que eu sabia ligadas ao PCP e às forças da oposição, o que me levou a pensar que a 1.ª República havia sido um período de grandes conquistas para os portugueses, particularmente para os trabalhadores por conta de outrem, que na altura eu confundia um pouco com os proletários.

A candidatura de Arlindo Vicente, muito apoiada em Torres Vedras, alimentou a ideia que eu tinha formado sobre aquele período da nossa história.

Completei os meus 17 anos já a viver em Lisboa, onde não falhava as comemorações do 5 de Outubro e as romagens à estátua de António José de Almeida.

Já com 20 anos, comecei a conviver com uns primos daquela que viria a ser a minha 1.ª mulher e com a mãe de um deles, a D. Gertrudes, que me falava do seu dia-a-dia no período republicano, dos obuses que passavam por cima da sua casa —«O Alto do Pina disparava, depois a fragata no Tejo respondia…»—, despertando em mim a curiosidade, levando-me a pensar que, afinal, a 1.ª República teve problemas mais sérios do que eu pensava. Da curiosidade passei ao estudo sério daquele período e pude verificar que havia construído dentro de mim um mito sobre a 1.ª República portuguesa.

Na minha procura, houve um livro a que não poderia ter acesso e que me teria ajudado muito a compreender o que foi realmente o período republicano: «Os Reinegros», de Alves Redol.

 

II – Os Reinegros, de Alves Redol

 

Esta obra foi escrita em 1944, portanto entre as 1.ªs edições de «Fanga» (1943) e de «Anúncio» (1945), mas apenas publicada em Novembro de 1972, três anos após a morte do seu autor. Qual a razão? O seu autor não teria ficado contente com o resultado? Nada mais falso. A razão da sua não publicação residia na censura prévia a que as obras de Alves Redol tinham passado a ser sujeitas. Lembremos que o habitual era a publicação da obra e, só depois, acontecia a actuação da polícia política, apreendendo e proibindo assim muitas obras dos autores portugueses. Há quem afirme que Alves Redol foi o único escritor português a ter de apresentar os seus originais à censura prévia, embora eu julgue que o mesmo também terá acontecido a Romeu Correia. As várias tentativas de Redol para o publicar não obtiveram êxito.

Portanto, eu não poderia ter acesso a esta obra, só dela tomando conhecimento aquando da sua publicação, ainda na vigência do regime anterior, mas com Marcelo Caetano como Presidente do Conselho de Ministros.

O tema é bem diferente dos livros anteriores. Desta vez, o autor nesta sua obra, cuja acção decorre nos anos de 1907 a 1919, desloca ex-camponeses para a cidade de Lisboa em busca de uma melhor vida, acompanhando-os na sua tomada de consciência política da necessidade da implantação da República, particularmente da sua personagem principal, Alfredo Reinegro, que começa como marçano na mercearia do Sr. Almeida, que olha para o seu empregado como se escravo dele fosse e, quando o Alfredo Reinegro decide, sem pedir autorização ao patrão, juntar-se com a Júlia, criada de servir, fugida da sua aldeia depois de se «perder» por amor, a violência do Sr. Almeida aumenta, levando o Alfredo Reinegro a sentir-se ultrajado, acabando por se despedir depois de uma conversa com um trabalhador que o encoraja e por ter conseguido outra ocupação como servente de pedreiro.

Na rua vai ouvindo falar da República e da necessidade da sua implantação como sendo o único regime que poderia contribuir para a libertação das massas trabalhadoras, conversas que se tornam contínuas, primeiro ouvindo a Aurora Peladas, vizinha do casal Reinegro, que lhe chega a dizer que a queda da Monarquia não tardaria, o que Alfredo recebe como se tratasse de uma curiosidade como muitas das habituais nas conversas entre vizinhos. Depois essas conversas começam a acontecer com os colegas de trabalho, na construção civil primeiro e no porto de Lisboa depois, e na taberna. Começa a assistir a comícios e há palavras, como Justiça e Liberdade, que só a República pode proporcionar ao povo trabalhador e oprimido, povo esse de que ele não tem dúvidas ser parte integrante, passando a ter grande respeito por um dos oradores, Luís Polidor, que todos sabiam pertencer à Carbonária. Assiste, como observador interessado, ainda hesitante e, como tal, sem coragem para entrar na luta que derrubou a Monarquia, vendo que essa acção aconteceu por outros, mas não ele, terem tido a coragem para lutar de armas na mão.

Implantada a República, verifica o Alfredo Reinegro e os seus companheiros de trabalho que, afinal, a exploração continua e que os ricos de antes da República continuavam a ser ricos no regime republicano. Verifica que muitos dos exploradores, alguns só agora reconhecidos como tal, se declaravam republicanos. Adere o nosso personagem às greves que se sucedem, cativado pelos anarco-sindicalistas e por aqueles que, mais tarde, vêm a fundar o Partido Comunista, dedução esta que o leitor da obra pode tirar.

Alfredo Reinegro vai tomando consciência de que sem luta e sem se embrenhar na política a massa trabalhadora não verá a sua vida melhorar, acabando por se juntar a outros companheiros de luta, sendo um dos homens do povo que, de armas na mão, aparece em Monsanto a combater mais uma tentativa dos Monárquicos para derrube da República, com o que Alves Redol termina o romance.

N’«Os Reinegros», Alves Redol mostra-nos uma Primeira República que a historiografia muito rica que hoje temos ao nosso dispor confirma, também demonstrativo de que o autor, seguindo o seu método habitual, previamente se muniu de documentação esclarecedora, lembrando eu que a historiografia da época estava muito longe da riqueza da investigação que acima refiro.

Neste romance, Alves Redol trata dos três últimos anos da Monarquia e dos primeiros dezassete da República, mostrando claramente como foi aquele período da História de Portugal.

Não duvido que Alves Redol quis chamar a atenção para a necessidade de ver com outros olhos aquele período da nossa História, o que a censura fascista não lhe permitiu.

Está lá tudo, sendo este romance de Alves Redol, penso, o mais político de todos os que escreveu.

Durante o período fascista, o elogio da Primeira República servia como arma de arremesso da oposição ao regime de Salazar, criando mesmo um mito sobre o período da sua vigência, 1910-1926, que o glorificava. A República, de facto, poderia merecer alguns elogios por algumas coisas boas que não deixou de fazer, mas esteve bem longe de justificar tamanho fascínio, fascínio esse de que não deixei de ser vítima.

Curiosamente, Portugal passou a ser a 3.ª República europeia, sendo claramente, pelo menos na linguagem —Portugueses Somos, para usar o título de um livro de Joel Serrão—, podendo verificar-se, ao longo do romance, como o povo trabalhador acredita nas promessas dos políticos republicanos. O prometido sufrágio universal foi das primeiras promessas não cumpridas.

Os burgueses republicanos eram agora os senhores do capital, substituindo os burgueses monárquicos e, depois, como os historiadores deste período mostram, a Grande Guerra não ajudou em nada à concretização da larga maioria das promessas da propaganda republicana.

Considero também que a leitura, hoje, deste romance se torna absolutamente necessária, permitindo-nos uma reflexão, que é urgente, sobre os 40 anos do pós-25 de Abril. A história não se repete mas há situações do passado que, quando estudadas com alguma profundidade, nos permitem compreender bem melhor o presente e ajudar a construir um futuro mais feliz para nós e para as gerações futuras.

No 25 de Abril tivemos também um movimento militar a marchar da província para a capital, derrubando o regime fascista. Note-se, no entanto, que esse movimento, conhecido como o «Movimento dos Capitães», não foi dirigido pela hierarquia superior das Forças Armadas, mas logo a chamando —essa hierarquia— para mediar a entrega do poder aos portugueses para que fossem ouvidos e participassem na construção de um Portugal moderno, democrático, hoje bem em perigo e entregue nas mãos de serventuários do grande capital nacional e internacional. Os «Capitães de Abril», contando com alguns deles entre os meus amigos, foram ingénuos, acreditaram no povo português, o mesmo povo que elegeu por cinco vezes Cavaco Silva e deu uma maioria absoluta a José Sócrates.

O meu pessimismo hoje é uma evidência. Será que os portugueses me vão fazer uma surpresa e possibilitar-me um fim de vida feliz?

Portela (de Sacavém), 2018-10-03

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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